“Quantos homens morreram por terminar o relacionamento?”, questiona a Subsecretária de Estado de Políticas Públicas para Mulheres, Rosana Leal.

A pergunta é realmente de se refletir e para analisar o quanto o machismo continua a ceifar vidas de mulheres e acabar com o psicológico de tantas outras. Esta retrospectiva do Jornal Midiamax apurou que só este ano, até o início do mês de dezembro, 19.615 mulheres foram vítimas de algum tipo de violência doméstica, já que existem ao menos cinco tipos: física, psicológica, moral, patrimonial e sexual.

“Na maior parte dos casos, os assassinatos dessas mulheres são a facadas, e muitas facadas, geralmente nos rostos, seios, nádegas, além de cabelos cortados. O que só mostra a existência do patriarcado em todas as esferas. Mesmo com todas as divulgações e as prisões, estudos mostram que só daqui a 200 anos é que não precisaremos de tudo isso para reduzir ou acabar com o machismo”, lamenta Rosana, ao explicar que os casos que chegam ao extremo, ou seja, feminicídios, retratam o crime de ódio.

Nesta semana, mulher encontrada morta no Jardim Colúmbia com vestígios de esfaqueamento é uma das mais recentes hipóteses de feminicídio, que deve fazer as estatísticas de dezembro inflarem.

Somente neste mês, a propósito, conforme os dados do SIGO Estatística (Sejusp) consultados nesta quinta-feira (22), 5 mortes de mulheres foram tipificadas como feminicídio, de um total de 43 registros ao longo de 2022. O número já supera todo o ano de 2021, quando foram registrados 31 casos do crime no Estado.

A subsecretária informou que a preocupação é em ensinar as crianças e jovens e as escolas são os principais meios de auxílio para divulgar a informação e ensinar sobre o respeito do “não”. “Em algumas palestras, meninas jovens, adolescentes, nos procuram e relatam que sofrem violência dos namoradinhos. São vítimas e autores de 12, 13 anos. Depois que começa a namorar não deixa mais andar com as amigas, quer proibir de usar certas roupas. Já começa por aí”, contou.

Em setembro, por exemplo, uma indígena, de 13 anos, foi morta esganada pelo ex-namorado, de 17 anos. O corpo da adolescente só foi encontrado 8 dias após o sumiço dela. O rapaz foi apreendido e confessou o crime. Disse ainda na delegacia estar arrependido e que não queria ter cometido o crime. A menina é moradora da Aldeia Jaguapiru, na Reserva Indígena Federal de Dourados, e é neta do cacique Getúlio de Oliveira e de Dona Alda, rezadores da Aldeia Jaguapiru e guardiões da Casa de Reza.

Rebeca França, de 20 anos, foi esfaqueada pelo ex-namorado Rafael Rocha de Moraes, de 20 anos, em São Gabriel do Oeste, no dia 7 de setembro. O delegado informou na época que o casal esteve junto por 6 anos entre idas e vindas e estava separado há um mês, mesmo assim ele dormia às vezes na casa, porém, menos de dez dias antes do crime iniciaram uma discussão pelos filhos.

Rafael e Rebeca

À polícia, Rafael contou que no dia do crime brigaram por WhatsApp e ela o chamou de ‘corno’ e o desafiava a ir lá. Foi então que ele foi ao local armado com uma faca. Após o crime, Rafael contou que fugiu, passou na casa da família e se escondeu em uma mata no sentido de Rio Negro. A família então entrou em contato com ele avisando que a vítima tinha morrido e que a polícia estava atrás dele, quando decidiu se entregar e apresentar a faca usada no crime, na presença de um advogado.

No final de setembro, Geni da Costa Reis dos Santos, de 48 anos, foi morta a facadas pelo ex-companheiro, Silço Donizete Mendes, de 55 anos, que não aceitava o fim do relacionamento, dado por encerrado três dias antes do crime.

Geni

O feminicida se envolveu em um acidente de trânsito na BR-163 e morreu no fim da tarde do dia seguinte. Além de matar a ex, Silço esfaqueou dois filhos da vítima que estavam no local na hora do crime. Depois fugiu em seu veículo, um GM Corsa, pela rodovia, em sentido ao distrito de Anhanduí. A suspeita é que ele tentou se matar ao jogar o carro contra dois caminhões. Ele chegou a ser socorrido em estado gravíssimo, mas não resistiu e morreu.

O homem já teria ido ao local no dia anterior, onde discutiu com a ex e tentou matá-la. Já na data do fato, retornou à casa, onde arrombou o portão com chutes e matou a ex-mulher a facadas. O Corpo de Bombeiros chegou a ser acionado, porém, ela morreu no quintal da residência, devido a um golpe que sofreu no pescoço.

“Dificilmente um feminicídio acontece por acaso. Quase sempre ele é o agravante da violência doméstica. A mulher já vem sofrendo agressões físicas e/ou psicológicas até chegar a este ponto”, disse Rosana.

Adailton

Francielle Guimarães Alcântara, de 36 anos, foi morta em janeiro deste ano pelo marido Adailon Freixeira. A mulher foi mantida em cárcere privado por cerca de 30 dias, dias estes que viveu sob tortura, quando sofreu violência física e psicológica, até que chegasse ao pior ponto, a morte.

Adailton não negou as sessões de tortura e disse que teria cometido os atos por uma suposta traição da mulher, que mal saía de casa, fato que repetiu reiteradas vezes em depoimento, na tentativa de encontrar justificativas para os atos cruéis cometidos. O homem contou que a tortura começou com os cortes de cabelo que fez em Francielle, sendo que em uma das vezes chamou um barbeiro para ‘acertar’ o cabelo da vítima pagando R$ 20. 

O soldador detalhou que em uma das sessões de tortura à Francielle, ele chegou a esfaqueá-la no tórax, causando uma ferida de 7 a 10 centímetros, além de fazer cortes nas costas da vítima e perfurar a sua costela com uma faca de serra. Adailton ainda teria ameaçado cortar as partes íntimas da esposa, caso ela continuasse a ‘mentir’ para ele.

Adailton teria batido por oito vezes com a perna de uma cadeira nas nádegas machucadas de Francielle. Sem detalhar o motivo, Adailton confessou que bateu novamente na mulher após ela retornar da casa da irmã em dezembro, onde passou três dias. Ele teria dado chutes na barriga de Francielle na ocasião. Sobre os dentes quebrados de Francielle, Adailton afirmou que foram quebrados quando ela caiu no chão, e que a própria esposa teria terminado de arrancá-los com um alicate de unha. 

No dia da morte de Francielle, ele contou que ainda tentou reanimar a esposa. Quando não conseguiu, pediu para que o filho de 17 anos acionasse o Samu, mas nega ter dito ao adolescente que teria visto Francielle tomar remédios. Ele fugiu logo em seguida, indo para a rodoviária de Campo Grande e pegando um ônibus direto para Cuiabá. 

Ele acabou preso no dia 31 daquele mês na rodoviária de Cuiabá. Mesmo negando os crimes, o júri ocorrido no mês de novembro o condenou a 24 anos de prisão.


Ciclo da Violência

O Ciclo da Violência explica o porquê a violência doméstica persiste em um relacionamento. Conforme o portal Não se Cale, primeiro o agressor se mostra irritado, faz ameaças e destrói objetos. A mulher tenta acalmá-lo, fica aflita e evita qualquer conduta que possa “provocá-lo”. São sensações de tristeza, angústia, ansiedade, medo e desilusão.

O segundo passo consiste na violência, agressão. Mesmo tendo consciência de que o agressor está fora de controle e tem um poder destrutivo grande em relação à sua vida, o sentimento da mulher é de paralisia e impossibilidade de reação. Nesta etapa, ela sofre de uma tensão psicológica severa (insônia, perda de peso, fadiga constante, ansiedade) e sente medo, ódio, solidão, pena de si mesma, vergonha, confusão e dor.

Nesse momento, ela também pode tomar decisões como buscar ajuda, denunciar, esconder-se na casa de amigos e parentes, pedir a separação e até mesmo suicidar-se. Geralmente, há um distanciamento do agressor.

Em seguida, o ciclo vai para a terceira fase, a do arrependimento, etapa conhecida como “lua de mel”. O autor diz que se arrepende e tenta reconciliação. A mulher fica confusa e pressionada a manter o relacionamento, principalmente se o casal tem filhos.

Há um período relativamente calmo, em que a mulher se sente feliz por constatar os esforços e as mudanças de atitude, lembrando também os momentos bons que tiveram juntos. Como há a demonstração de remorso, ela se sente responsável por ele, o que estreita a relação de dependência entre vítima e agressor.

Um misto de medo, confusão, culpa e ilusão fazem parte dos sentimentos da mulher. Por fim, a tensão volta e, com ela, as agressões da fase 1.

“A grande dificuldade de quebrar esse ciclo é o apego emocional. Não é nem o financeiro ou os filhos, isso tem jeito, mas o apego emocional é muito difícil. Por isso é importante buscar ajuda, passar pelo psicólogo. Ele não vai forçar a pessoa a denunciar, ele vai mostrar, abrir os olhos da pessoa para que ela veja que está sendo vítima de violência doméstica”, explicou.

(Divulgação)

Buscar ajuda

Em regime de plantão 24 horas, a Casa da Mulher Brasileira facilita o acesso de mulheres em situação de violência ao registro das ocorrências, já que disponibiliza a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher). Abriga ainda a primeira Vara Especializada em Medidas Protetivas e Execução de Penas do País, 3ª Vara de Violência Doméstica e Familiar c/ a Mulher, MPE – 72ª Promotoria de Justiça, Defensoria Pública e GCM/Patrulha Maria da Penha.

O local possui ainda intérprete de LIBRAS para atendimento a mulheres surdas em situação de violência.

Conforme explicou a subsecretária, muitas mulheres não têm conhecimento dos outros tipos de violência doméstica e acabam não registrando ocorrências, porém os números de registros têm aumentado e isso mostra a conscientização das vítimas em denunciar.

“As mulheres estão mais conscientes de que têm amparo e serão bem atendidas na Casa da Mulher Brasileira. Quando a mulher registra a ocorrência e pede medida protetiva ela está sob a proteção do Estado., por isso a importância de registrar a ocorrência”, disse.

Rosana ainda explicou que mulheres que possuem medidas protetivas recebem todo amparo. Equipes da Patrulha Maria da Penha, ligações frequentes para saber como a mulher está e, caso ela não atenda, uma equipe é enviada ao local para entender o motivo.

Há ainda a Casa Abrigo, um lugar sob total sigilo destinado às mulheres que correm risco de morte. O local comporta dez mulheres com seus filhos de até 17 anos. Lá ela recebe, além de apoio, orientação, comida, roupas para ela e filhos, que recebem também aulas particulares.

Até o dia 25 de novembro, duas mulheres estavam no local, sob risco de morte, com seus filhos.