Polícia

Policial civil de MS é suspeito de participar de intimidação à vítima de esquema milionário de pirâmide

Fato foi destacado por juiz federal em decisão que havia rejeitado liberação de 2 presos temporários por esquema de pirâmide na RSI

Humberto Marques Publicado em 06/09/2021, às 07h15

Filial da RSI em Ponta Porã
Filial da RSI em Ponta Porã - Arquivo

A mesma decisão que negou a suspensão da prisão temporária a 2 investigados no esquema capitaneado pela RSI — que teria mascarado um esquema de pirâmide financeira com a captação de investidores para a Bolsa de Valores — também revelou que uma das vítimas do que, até aqui, é tratado como golpe foi intimidada pelo marido de uma das investigadas.

É o que consta em decisão da 5ª Vara Federal de Campo Grande divulgada na última sexta-feira (3), assinada no dia anterior, que rejeitou a liberação de L.D.S. (ou “Lucelena”) e de C.A.T.I. (“Cesar Augusto”), conforme divulgado no Diário de Justiça Federal. A ação tramita em segredo de Justiça.

Ao indeferir o pedido da defesa de Lucelena para revogar a prisão preventiva, o magistrado destacou que a reclamante “foi apontada como uma das pessoas mais atuantes na organização criminosa ora investigada, com ligação bastante estreita com seu líder, utilizando suas contas bancárias para movimentação de valores”.

Além disso, destacou-se que “consta, ainda, que seu marido, policial civil, chegou a intimidar uma das vítimas”. Tais fatores foram pesados para a manutenção da prisão temporária, “imprescindível para o bom termo das investigações, de modo a evitar eventual dilapidação patrimonial e intimidação de testemunhas”.

Não há mais detalhes sobre o episódio na decisão disponibilizada publicamente. A reportagem contatou, no fim da tarde de sexta-feira (3), a Polícia Civil, em busca de mais informações sobre o episódio, como se o fato já foi levado a conhecimento da Corregedoria. Contudo, dado o adiantado da hora, não foi possível obter detalhes — o espaço segue aberto para manifestação.

Já em relação a Cesar Augusto, foi citada “estreita ligação com os principais líderes da organização, tendo, inclusive, recebido procuração dos sócios formais para administrar a RSI, havendo, também, a necessidade de que permaneça segregado temporariamente nesta fase inicial da execução das diligências de campo, de modo a evitar que possa prejudicá-las”.

Ainda sobre o investigado, “há suspeita de que tenha participado da evasão de divisas, oriundas da captação e conversão de investimentos de clientes da RSI”.

Diante de tais indícios, a Justiça Federal decidiu negar a liberação dos investigados, contudo, anunciou para as 17h deste domingo (5) a liberação de ambos da prisão temporária — que tem, de fato, prazo máximo de 5 dias, deflagradas na quarta-feira (1º). Assim, caso não houvesse conversão das detenções em preventivas durante o plantão judiciário, eles seriam liberados.

Com sede em Dourados e filial em Ponta Porã, a RSI era o principal foco da Operação Romeu Sierra Índia, denunciada em 2020 e em fevereiro deste ano por crimes financeiros, gerando denúncias das vítimas às autoridades policiais. Sob a fachada de uma empresa de investimentos na Bolsa de Valores estaria, de fato, um esquema de pirâmide que causou prejuízo de dezenas de milhares de reais a várias pessoas.

Empresa oferecia grande lucratividade em esquema

Conforme a investigação, a RSI chegou a ter 2.000 clientes, aproximadamente, ansiosos por um lucro prometido que, em alguns casos, era de 15%. Políticos, empresários e até funcionários do Poder Judiciário estariam entre as vítimas.

As promessas começaram a ruir em 2020, quando a PF recebeu comunicado da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) — entidade que, entre suas atribuições, faz o acompanhamento de empresas autorizadas a operarem no mercado de capitais — sobre uma empresa dedicada a captar recursos para investimento posterior, sem aval da instituição.

As investigações desnudaram uma organização criminosa especializada em captar recursos dos “clientes” para devolver ganhos vultosos no mercado financeiro. Tudo apresentado em uma “embalagem” convincente: o site atrativo e o manual de investimentos explicavam a forma de trabalho e os produtos oferecidos, com rentabilidade acima do mercado.

O retorno viria em percentuais: investimentos de até R$ 50 mil tinham os ganhos rachados meio a meio. Quem aplicasse acima do valor, tinha direito a 70%. As denúncias falam de investidores que enxertaram R$ 200 mil na operação da RSI.

O principal investigado se apresentava como um dos maiores day traders do Brasil — alguém que opera recursos de olho na oscilação dos ativos financeiros ao longo do dia, como exemplo, na compra e venda de dólares (“comprando na baixa e vendendo na alta”, parafraseando um dos jargões dessa complexa atividade). O marketing, na verdade, seria parte da fachada.

Em 2 anos, a RSI movimentou mais de R$ 60 milhões, com parte dos valores sendo remetida para Londres (Reino Unido) depois que a CVM barrou as atividades da empresa. O descumprimento da ordem de trabalho resultou em multa de R$ 600 mil.

A operação

Segundo a PF, a organização atuava em três frentes: uma com sócios e responsáveis pela aplicação dos valores, que abocanhariam valores investidos pelos clientes; a segunda, com corretores para captar recursos de potenciais investigadores; e a logística, composta pelo marketing e gerenciamento dos investimentos.

A promessa de lucro se converteu em dezenas de ações cíveis, nas quais os investidores exigem a devolução do dinheiro e indenizações. Na operação de 1º de setembro, mais de 80 policiais percorreram 8 municípios para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão — Dourados, Campo Grande, Ponta Porã, Naviraí, Porto Murtinho, Amambai, Franca (SP) e Maringá (PR).

Foi determinado o sequestro de mais de R$ 40 milhões em bens e valores de envolvidos nas operações, em ordem que partiu da 5ª Vara Federal de Campo Grande.

Jornal Midiamax