Considerada uma ‘Terra sem lei’, a fronteira entre Brasil e Paraguai, separada por uma tênue linha imaginária entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã, no Mato Grosso Sul, continua sendo um território sob o domínio do medo e sem dono. Entra ano e sai ano, o lugar permanece à mercê da violência que impera diante da noite e do dia e, como não poderia ser diferente, 2021 deixará lembranças sangrentas.

Com ocorrências quase que diárias de violência, na manhã do dia 9 de outubro, depois de uma noite mal dormida, os moradores de Ponta Porã, ainda acompanhavam o velório do vereador Farid Afif (DEM). Ele tinha sido assassinado no dia anterior, quando andava de bicicleta pelas ruas da cidade. Enquanto isso, os vizinhos de Pedro Juan Caballero eram acordados com mais de 100 tiros de metralhadoras. As primeiras horas da manhã já anunciavam quatro mortes.

O alvo do ataque era Osmar Vicente Álvarez Grance, o ‘Bebeto’, de 32 anos, supostamente envolvido com o narcotráfico. Com ele, também foram executadas mais três estudantes de medicina, que foram identificadas como Rhannye Jamilly Borges de Oliveira, de 18, Kaline Reinoso de Oliveira, 22, e Haylée Carolina Acevedo Yunis, de 21, filha do governador do Departamento de Amambay, Ronald Acevedo.

“Minha filha estava no lugar errado e com a pessoa errada”, disse o governador do departamento de Amambay, no Paraguai, sobre a morte de sua filha. Segundo ele, Haylée não era namorada de ‘Bebeto’, mas estava com ele no mesmo carro e tinha acabado de sair de uma festa. Acevedo confessou não ter esperança que os casos de ataques de pistoleiros sejam solucionados pela polícia paraguaia.

“Já estamos perdidos, derrotados. Hoje foi a minha vez, amanhã pode ser qualquer um. Isso ocorre porque eles podem comprar e portar armas de grosso calibre”, afirmou o governador logo após a morte da filha. Em um ato público realizado em Pedro Juan Caballero, onde seu irmão é o prefeito, ele chegou a pedir perdão aos cidadãos paraguaios por não conseguir vencer o crime organizado.

Menos de um mês após a morte de Haylée, o governador foi visto sentando na calçada da rua em que aconteceu a chacina. Segundo relatos de quem testemunhou a cena, ele rezava e chorava ao mesmo tempo.  A reportagem do Midiamax, em conversa com pessoas que têm proximidade com a família Acevedo, apurou que o governador continua muito abalado com o que aconteceu no dia 9 de outubro.

Carro em que a filha do governador de Amambay estava foi atingido com mais 100 disparos (Foto: ABC Color)

 

Justiça com as mãos

Se por um lado o próprio governador se sente derrotado pela violência, que é um inimigo a ser combatido, por outro, o crime organizado ocupa o espaço deixado pela ausência de políticas públicas mais eficazes. Meses antes da chacina, os ânimos já estavam exaltados com a volta de um movimento autodenominado “Justicieiros de la  Fronteira”, acostumado a resolver as coisas na base do “olho por olho, dente por dente”.

Com três casos registrados quase que ao mesmo tempo, os moradores de Pedro Juan Caballero, de Ponta Porã e de outras cidades fronteiriças, reviveram um tempo que parecia apagado da memória e que trouxe o grupo ao protagonismo dos acontecimentos. Os ‘Justicieiros’ usam requintes de crueldade. Antes de cada execução, torturam a vítima e deixam bilhetes com lições de ética às avessas ‘sobre não roubar’.

Neste ano, em fevereiro Catalino Benitez Chena, de 56 anos, foi encontrado morto assim como as outras vítimas, com as mãos decepadas, mas na região de Paranhos. Em março, Emílio Garcia foi sequestrado na fronteira de Ponta Porã e encontrado morto no dia seguinte, com as mãos decepadas e o bilhete: “Justiceiros da Fronteira. Não roubar na fronteira. Isso é só o começo”.

Já em abril, pai e filho foram mortos no Paraguai, a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira. Rodolfo Romero Enciso, de 42 anos, e Ronaldo Romero Enciso, de 16, foram assassinados a tiros e ao lado deles foi encontrado o bilhete “Não roube”. Em julho, foram vítimas dos Justiceiros Luís Mateo Martinez Armoa, de 26, e a namorada Anabel Mancuello Centurion, de 22, além de um adolescente de 17 anos.

O casal foi morto quando comemorava o aniversário de Luís, na segunda-feira (26). Ele estava jurado de morte e foi executado com mais de 40 tiros junto da namorada. Os atiradores estavam em uma camionete Hilux e, após a execução, um bilhete foi deixado junto ao corpo de Luís: “Favor não roubar, assinado: Justiceiros da Fronteira”.

Já na quarta-feira (28), foi encontrado o corpo do adolescente de 17 anos, torturado e assassinado em Pedro Juan Caballero. A princípio, o garoto teria feito vários furtos na região. Ele foi encontrado com sinais de tortura e teve as mãos decepadas. Ao lado do corpo, foi encontrado um bilhete que seria do grupo dos justiceiros, dizendo que eles estavam de volta e que as mortes seriam só o começo.

No mesmo dia, perfil no Facebook atribuído aos Justiceiros da Fronteira fez publicação buscando por uma mulher, que segundo eles ‘teria que morrer’. Na publicação, o grupo fala o apelido pelo qual a mulher é conhecida e diz que ela teria feito algo ruim para eles e, depois, sumiu.

“A gente precisa localizar ela, para acertar algumas coisinhas que ela fez erradas. Isso, ela tem que morrer”, diz a publicação. O grupo afirmava ainda que tem dinheiro e qualquer informação sobre ela seria paga. O perfil atribuído aos justiceiros saiu do ar poucas horas após a publicação.

Bilhetes deixados pelos “Justicieiros de la Fronteira’ evidencia éticas às avessas de grupo que tortura e mata  (Foto: Reprodução/Redes sociais)

 

Geopolítica do crime

As disputas intermináveis entre organizações criminosas que se espalham pela região fazem da fronteira um lugar cada vez mais sombrio. “Aqui as coisas funcionam como se fosse um dia de cada vez. Não há horizontes futuros e o presente, na maioria das vezes, é de dor e sofrimento para as famílias que escolheram esse chão para viver”, relatou um comerciante ouvido pela reportagem do Midiamax, que tem loja em Pedro Juan Caballero, mas mora em Ponta Porã.

Um levantamento feito pela Polícia Nacional do Paraguai mostra que na geopolítica do crime, embora haja predominância de um grupo, existem 11 organizações que atuam nas cidades fronteiriças e a maioria delas é comandada por brasileiros. Alguns deles, apesar de estarem presos, nunca deixaram de exercer o poder.

Segundo o vice-comissário Pedro Lesme, em entrevista ao ABC Color, o grupo mais forte e uma das principais ameaças à segurança nacional paraguaia continua sendo o PCC (Primeiro Comando da Capital), formado dentro das prisões de São Paulo e que se expandiu para várias cidades brasileiras e também no Paraguai.

“Eles chegam ao país fugindo da Justiça e se dedicam ao tráfico de drogas, roubos e outras práticas do crime organizado. O PCC, sem sombras de dúvidas, continua sendo o mais influente em nosso território”, explica Lesme, ressaltando que o grupo é especialista em conseguir novos membros dentro das prisões paraguaias.

“No ano passado, fazendo um estudo, chegamos à conclusão, nas estimativas, que o PCC tem cerca de 750 integrantes no país”, explicou o delegado. Para Lesme, o grupo está tão forte que o gerenciamento das ações criminosas na fronteira é compartilhado com paraguaios que ocupam até postos de comando.

“Existem 7 a 9 membros principais que lideram, mas não queremos dar os nomes”, acrescentou. Ao PCC é atribuída, além do narcotráfico, a responsabilidade em casos de pistolagens, roubos a empresas transportadoras de dinheiro e entidades bancárias, entre outros crimes.

O Comando Vermelho (CV) é outro dos grupos antagônicos que também chegaram ao Paraguai, atraídos principalmente pelo lucro fácil do tráfico de drogas. No mapeamento do crime organizado na fronteira há outras facções, como Irmãos Touro, ADA (Amigos dos Amigos), Terceiro Comando Puro, PGC (Primeiro Grupo Catarinense), Guardiões do Estado do Ceará e Sindicato do Crime, que segundo as autoridades paraguaias têm conquistado espaço.

Entre esses grupos emergentes, destacam-se ainda o El Bonde dos 40 ou B40, que surgiu dentro das prisões do Maranhão, em 2007, e se caracteriza por roubos, agressões, sequestros e tráfico de drogas.  Além disso, aparece também, a organização Família do Norte que teve origem na região amazônica.

O grupo, segundo informações da Polícia Nacional, é liderado pelos narcotraficantes Zé Roberto da Compensa, João Pinto Carioca e Gelson Carnaúba. Há indícios de sua presença no Paraguai, com atuações no tráfico de armas e drogas. As autoridades afirmam ainda que esses grupos também atuam dentro do sistema penitenciário e em cidades fronteiriças como Pedro Juan Caballero e Ciudad del Este.

Aos grupos estrangeiros junta-se o clã Rotela, que, segundo o delegado Lesme, é de origem 100% paraguaia. Ele é liderado por Armando Javier Rotela e tem um número significativo de adeptos nas prisões do país. Atualmente, a organização comanda o microtráfico atrás das grades e disputa o controle do negócio com grupos criminosos brasileiros, principalmente com integrantes do PCC.

Membros de uma organização criminosa foram presos durante ação desencadeada por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Foto: Divulgação)