A cada temporada de chuvas, Campo Grande sofre com alagamentos, casas destelhadas, abertura de crateras, vias esburacadas, acidentes, trânsito caótico, queda de árvores, apagões e surto de doenças oportunistas como leptospirose, hepatite A, dengue e diarreias.

As antigas soluções baseadas em bombas, encanamentos e bocas de lobo não garantem mais a eficiência do processo de drenagem. E a canalização de rios com a construção de piscinões subterrâneos é de alto custo e, em alguns casos, inviável numa capital que viu sua capacidade financeira minguar com o populismo irresponsável de gestões passadas.

Lidamos de maneira errada com a água das chuvas. Ao invés de coletá-la e despejar o mais rápido possível nos rios, devemos recorrer a técnicas de captação e armazenamento hídrico para reuso em períodos de estiagem e, também, a métodos que diminuam a velocidade e a força da correnteza chuvosa conferindo mais tempo para a sua absorção natural pelo solo.

Quando fui prefeito de Campo Grande, condicionei o alvará de construção e o habite-se à existência de caixa de captação e reserva de áreas permeáveis proporcionais ao tamanho do terreno, além da obrigatoriedade de plantio de árvore na área interna conforme Código de Obras do Município de Campo Grande.

Isso freou a impermeabilização do solo e evitou enchentes sem dispêndios inúteis, pois a capacidade de absorção dos pavimentos drenantes evitou que bilhões de litros de água fluíssem pela superfície rumo a córregos já saturados. Infelizmente, desde o fim de nossa gestão à frente de Campo Grande em 2004, foram poucas as inovações no combate às inundações apesar da crescente impermeabilização do solo.

Ultimamente, até a limpeza de bueiros e a manutenção da calha dos rios foram negligenciadas. Quem perambular pela capital encontrará bueiros entupidos de folhas e sujeira, além de muito entulho, lixo e árvores crescendo no leito de nossos córregos. Isso diminui a vazão de água e aumenta o risco de alagamentos.

Lamuriar a escassez de recursos ou culpar Noé e São Pedro pelos dilúvios não resolve nada. Campo Grande urge por uma revolução gerencial. Desafios modernos pedem soluções inteligentes e baratas.

Além do calçamento permeável adotado anos atrás, é preciso implantar parques alagáveis, paredes e telhados verdes, praças-piscina, cisternas de reuso hídrico, bueiros inteligentes e poços de infiltração e retenção.

O impacto dessas medidas no bolso do cidadão e do Poder Público é mínimo, pois, além de baratas, várias estão a cargo de grandes estabelecimentos comerciais como shoppings, bancos e hipermercados. Ao particular só a atual exigência de piso permeável remanesceria compulsória, sendo voluntária e incentivada com bônus no IPTU a adesão às demais medidas.

Imaginem o volume de água reaproveitado que deixaria de sobrecarregar nossos córregos se os shoppings Bosque dos Ipês, Campo Grande e Norte-Sul abraçassem essas tecnologias verdes. E se expandirmos tais exigências aos bancos e hipermercados? Isso a custo zero para o Poder Público e o cidadão particular. Chegou a hora de tomar uma decisão negligenciada há anos, consorciando o uso de tecnologias verdes com soluções baseadas em concreto, canos e bombas, para não sermos reféns da virulência de aguaceiros e intempéries cada vez mais frequentes.

Quero contribuir para desenvolver em nossa querida Campo Grande, onde eu e a Beth criamos nossos filhos e netos, uma gestão inovadora com a aprovação de lei para impor aos grandes estabelecimentos a ampliação vertical de áreas permeáveis como os telhados verdes de rápida e natural absorção hídrica, além da implantação de medidas de captação, armazenamento e reuso de um percentual mínimo da água pluvial.

 Já os parques alagáveis, implantados pelo Poder Público em vias que margeiam os córregos, e as praças-piscinas, em depressões existentes em espaços públicos ou áreas recreativas de grandes condomínios, teriam a missão de evitar a inundação de pistas laterais de rodagem e residências, armazenando o excesso de água em espaço adequado para drená-lo gradualmente para cisternas de reuso ou para o lençol freático, ao invés de desperdiçar esse recurso natural despejando-o no esgoto.

Por fim, as canalizações e os piscinões subterrâneos, medidas eficientes porém de alto custo, seriam priorizadas em regiões com histórico recorrente de alagamentos, como fundos de vale ou cruzamento de rios, bem como em avenidas de grande fluxo que cortam os extremos da cidade, como a Norte-Sul, ajudando a equacionar outros gargalos de nossa capital morena que são a logística viária, a segurança e a fluidez do trânsito.

A sabedoria ancestral já nos provou que a tecnologia verde, combinada com o sistema viário e a infraestrutura urbana, é uma grande aliada para conter a força da água no período chuvoso e mantê-la fluindo pelas torneiras nos meses mais secos do ano.

Este é o caminho ideal para enfrentar o problema das enchentes e melhorar a logística de trânsito.

E você, amigo campo-grandense, o que pensa a respeito?