Sem moradias e cercadas da incerteza de um futuro seguro, 63 famílias campo-grandenses vivem a invisibilidade e o medo na luta por uma vida digna e de prosperidade no bairro Lagoa Park. A área é da prefeitura, inativa há mais de 30 anos. Estes moradores, que estão há pouco mais de um ano na comunidade Deusli, tentam se manter resistentes às tantas promessas e intervenções que resultam em dezenas de casas derrubadas, pessoas desamparadas e famílias desassistidas. Descanso, poucos têm. É que quando as preocupações não são as instabilidades climáticas, são as muitas patrolas de órgãos públicos fazendo a derrubada do pouco que lhes restaram do lar.

E essa triste realidade de mães, pais, filhos, netos e avós é um retrato infeliz (e muito ignorado) da vulnerabilidade social, documentado no curta ‘Da Lama Ao Caos’, projeto do acadêmico de jornalismo da UFMS, João Pedro Buchara. Ele, que estava em busca de um tema para um , um dia, enquanto olhava suas redes sociais, se deparou com vídeos publicados por militantes que fazem parte de movimentos políticos em que está inserido. Essas imagens mostravam diversas patrolas derrubando os barracos, enquanto moradores gritavam e tentavam salvar o que podiam dos entulhos.

E apesar da cena ser assustadora, aquelas imagens que saltavam da tela do celular não tiveram uma repercussão tão expressiva, elas não estavam chegando para outras pessoas. Foi então que surgiu a ideia de contar as histórias dos moradores da comunidade Deusli e fazê-los vistos através do documentário.

Projeto aprovado, João Pedro começou a produção do trabalho em outubro. O primeiro passo foi conversar com a Adriane Quilombola, presidente do Instituto Sociocultural Dandara, uma das organizações ativas no apoio das famílias de diversas comunidades mais afastadas de Campo Grande. “Eu conversei primeiramente com a Adriana e a gente viu medidas do que poderíamos fazer, como que a gente poderia gravar, a data, o local. Então foi decidido que seria na comunidade”, conta o acadêmico. “Ficamos umas duas semanas para ver a disponibilidade e tudo mais. E aí, em uma tarde chuvosa, eu e a minha colega estávamos com disponibilidade, eles também estavam, então fomos fazer as gravações”, relembra ele.

Por outro lado, Adriana Quilombola, conta que, quando recebeu a proposta de um documentário e levou a ideia para os moradores da comunidade, o projeto logo foi aceito por todos. “Na época, muitas pessoas estavam indo lá visitar os moradores. Eles foram e queriam fazer o documentário para ver se conseguiam dar a visibilidade necessária, queriam que a população visse aquelas famílias com olhos humanos”, explica a presidente do Instituto Dandara.

“Toda vez que dávamos uma entrevista, a prefeitura distorcia o que falávamos. Aquelas famílias só querem um lugar para morar. Enquanto isso eles [órgãos públicos] ficavam falando que aquelas famílias já tinham casa, que não precisavam ficar ali, que conseguiam pagar um aluguel”, lembra.

“Mas isso não é verdade! Uma das propostas da prefeitura foi que as famílias deixassem a área e a prefeitura faria um pagamento de R$500 por família de 3 a 6 meses”, conta Adriane. “Mas esse valor não é suficiente nem pra pagar um aluguel. Como eles acharam que essas famílias conseguiriam se manter com esse valor”, indaga ela, indignada.

‘Da Lama Ao Caos’

O documentário ‘Da Lama Ao Caos’, disponível no YouTube, recebeu este nome inspirado no álbum de mesmo nome do Chico Science e Nação Zumbi, como conta João Pedro. “Eu estava ouvindo as músicas perto do dia que a gente ia fazer o documentário e essa foi uma das primeiras coisas que fiquei na cabeça. Era uma das minhas dificuldades, não sabia qual nome botar”, explica. “E aí, por coincidência, eu estava ouvindo [a música] e pensava que ela se encaixava com o que eu queria representar dentro do documentário, que eram pessoas revoltadas com o sistema político daqui de Campo Grande, aqui de Mato Grosso do Sul, a situação de vulnerabilidade social, essas pessoas estarem se revoltando contra este modelo”, esclarece o acadêmico.

(Reprodução/João Pedro Buchara, UFMS)

O documentário de pouco mais de sete minutos narra a história das irmãs Gislaine e Gisele, que estão na comunidade há pouco mais de 4 meses. “A gente precisa de uma moradia”, começa Gislaine, que tem 3 filhos, um deles, recém-nascido. “Quando a gente veio pra cá, sofremos muito porque vieram os guardas, os agentes, a polícia, tentaram tirar a gente do nosso barraco falando que iam derrubar em cima da gente”, relembra. “Falaram que nossas crianças iam para o conselho, que aqui não era lugar pra gente ficar”, conta a moradora.

Mas ela esclarece: “A gente não está aqui porque quer. A gente precisa, necessita. Ficamos com medo”.

Leila Pantaleão, que também mora na comunidade e trabalha como entregadora, falou ao documentário. Em um trecho da entrevista, ela conta como foram algumas das muitas intervenções de patrolas no local. “Deram 10 minutos pra gente tirar [os pertences]. O que você tira de dentro de uma casa em 10 minutos?”, questiona. “Fomos tirando as coisas, pegando os materiais, mas mesmo assim eles quebraram. Depois que quebraram, passaram uns 3 ou 4 dias, a gente tentou reerguer tudo de novo. Quando reerguemos, eles vieram ali por baixo e pra começar a derrubar as casas”, explica.

Outro morador que aceitou falar para o documentário foi o Thiago Pereira da Costa. Ele é autista e a falta de endereço impediu que ele conseguisse acesso a medicamentos pelo CAPS. “Eu sempre estive regularizando o número do NIS, meu cadastro da EMHA. Saiu o resultado dos apartamentos, mas eu não fui contemplado e a única opção que tive foi essa”, explica.

“Eu já tenho minha moradia, já tenho apoio da Adriana, dos institutos que vem aqui e me ajudam, vão me ajudar até a fazer a inscrição do vestibular. Ninguém tá sozinho”, lembra.

“Por mais que eles destroem, a gente constrói o dobro. E quando eu estiver na faculdade, eu quero estar assim”, finaliza ele, mostrando uma foto sua de beca, em um quadro pendurado na madeira que sustenta sua casa.

(Reprodução/João Pedro Buchara, UFMS)

Comunidade Deusli

A ocupação Deusli começou com a chegada de três famílias na área, há pouco mais de um ano. Segundo Adriana Quilombola, hoje são 63 famílias morando no local. Neste curto espaço de tempo, a tentativa de desocupação por parte da prefeitura aconteceu mais de três vezes. Uma delas, foi na última segunda-feira (27). “Eles colocaram a bandeira do Brasil na patrola, devem ter achado que ali eram pessoas de movimentos políticos, não sei. Mas só foram derrubando”.

Ela ainda conta que anteriormente a prefeitura avisou que mandaria equipes para fazer o cadastro das famílias que não tivessem e tentariam o aluguel social para outros. A ideia era fazer um acordo com os moradores. No entanto, a realidade foi outra. “Quando nossa equipe chegou lá, já tinham destruído muitas coisas. Enquanto faziam o cadastro, a patrola ia destruindo o que estava em pé”, relembra.

Adriana conta ainda que as famílias não estavam precisando de insumos, mas, depois que os tratores passaram e as chuvas caíram, muitos perderam colchões, e mantimentos. “Eles não tinham casa e mais nada porque a patrola tinha passado por tudo. Eles dormiram no chão. Mas mesmo assim, 06h30 as crianças foram mandadas pra escola. Por mais que eles não tenham como recomeçar, eles mandam os filhos para a escola porque querem que as crianças tenham um futuro completamente diferente”.

Projeto-piloto

A presidente do Instituto Dandara explica que os moradores querem construir suas casas na região e manter operando a agricultura familiar que já existe no local. Para isso, as instituições que auxiliam essas famílias protocolaram um projeto-piloto de um assentamento urbano, que solicita que a prefeitura ceda o local, e assim, eles deem continuidade às construções de moradias e plantações.

Segundo a Adriane, se a área for cedida pela prefeitura, eles investirão em moradias com sustentável e poço de alta perfuração. Tudo para que o impacto ambiental seja o menor possível, e que as famílias consigam a geração de renda necessária para um futuro melhor.

Para quem quiser ajudar as famílias com doações, basta ir até a comunidade ou falar com a Adriana pelo número (67) 9104-4839.