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Sob risco da violência, usuários listam cuidados ao usar apps de relacionamento em MS

Ficar atento à conversa e evitar encontros em locais desertos são algumas das principais orientações

Mylena Rocha Publicado em 17/05/2021, às 07h24

Diante do risco da LGBTfobia, usuários têm cautela ao encontrar alguém que conheceu no app.
Diante do risco da LGBTfobia, usuários têm cautela ao encontrar alguém que conheceu no app. - Ilustrativa

Se encontrar com alguém que você conheceu por meio de um aplicativo pode parecer arriscado para qualquer um, afinal a pessoa ainda é desconhecida. Contudo, para as pessoas da comunidade LGBTQI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Travestis, Queer e Intersexualidade), é ainda mais complicado e perigoso. Na última semana, um rapaz campo-grandense foi assassinado no Paraná e acredita-se que ele pode ter sido vítima de um ‘serial killer’ que conheceu por aplicativo. Falando assim pode até parecer coisa de filme, mas todos da comunidade e, principalmente os homens gays, costumam tomar cuidados para evitar a violência ao utilizar os apps. 

Se para os heteros, os riscos de utilizar o aplicativo incluem se deparar com uma pessoa que não era a mesma da foto, ou seja, um ‘fake’, ou até ter um encontro desagradável, para as pessoas LGBT, os perigos vão muito além disso. O mundo dos aplicativos de relacionamento é vasto, mas o mais utilizado é voltado principalmente aos gays.

Presidente da ONG (Organização Não-Governamental) Mescla (Movimento de Estudo de Sexualidade, Cultura, Liberdade e Ativismo do Mato Grosso do Sul) e conselheiro Estadual de Saúde, Frank Rossatte afirma que todos da comunidade LGBTQI+ podem dar um relato de alguma situação constrangedora ou de algo ruim ao frequentar os aplicativos de relacionamento. “A pessoa pode te ofender, dizer que você não tem a mesma aparência que tinha no app; você pode esperar uma pessoa e ela não vir; a pessoa pode achar que pode fazer coisas a mais”, cita.

Rossate explica que os aplicativos são voltados para o sexo casual, não somente para um encontro, como para tomar uma cerveja juntos. Ele comenta que a experiência nos aplicativos para a comunidade é muito diferente do que as pessoas héteros vivenciam. “É ruim para os LGBTs, os héteros não sofrem violência só por serem héteros. Eles não são agredidos”, diz. 

Um rapaz campo-grandense de 25 anos foi encontrado morto em seu apartamento, com sinais de asfixia em Curitiba, no Paraná. Ele pode ter sido vítima de um serial killer e entidades de luta por direitos da comunidade LGBT fizeram alerta sobre o uso dos apps de relacionamento. Frank Rossatte comenta que há outros casos parecidos que aconteceram no Brasil e no mundo envolvendo pessoas da comunidade. Ele afirma que todos da comunidade correm risco. 

“O perigo é para todos, você está se relacionando com uma pessoa que desconhece. Esses encontros não vêm de uma conversa longa, é algo curto. Normalmente, os encontros acontecem pela proximidade [na localização], então você abre a porta da sua casa para a pessoa”, elucida. 

Sob o risco de ter uma experiência desagradável ou até de se deparar com a LGBTfobia, os usuários dos apps tomam alguns cuidados. Uma das cautelas é observar a localização da casa da pessoa, verificar se não é um local muito distante ou ermo. Além da violência, é preciso ficar atento aos objetos na casa, para evitar o risco de furto. 

O presidente da ONG explica que uma das dicas mais importantes é observar que tipo de perguntas a pessoa do outro lado faz. Se as perguntas vão além das questões sobre relacionamento e sexualidade, é um sinal para ficar atento. 

“Tem que ficar alerta o que a pessoa pergunta, você tem carro? Você tem isso? Algo além do que vocês poderiam fazer. Por que pergunta se você tem dinheiro, automóvel? Normalmente, a pessoa está ali para relação sexual. Se a pessoa perguntar além das características físicas, gostos, fique atento”. Frank orienta continuar a conversa e observar se há estabilidade nas perguntas. 

Travestis e transexuais também correm riscos

Se para gays, lésbicas e bissexuais há um risco ao utilizar os apps, para as travestis ou transexuais a situação complica ainda mais. Alvos da intolerância, casos de violências contra elas são comuns. A fundadora da Associação das Travestis e Transexuais de Mato Grosso do Sul e atual Coordenadora Municipal de Assuntos para Diversidade Sexual LGBT, Cris Stefanny, comenta que casos de violência são mais comuns quando há um desacordo com o cliente, já que parte das travestis e transexuais trabalham com a prostituição, ou no caso de ataques transfóbicos. 

Contudo, há pessoas que utilizam os apps e Cris dá orientações para prevenção a uma possível violência. Ela orienta marcar o encontro em um motel e exigir que a pessoa mostre a identidade na entrada. “Tente ao máximo não levar em casa, mas caso o faça, procure deixar documentos da pessoa na portaria se morar em apartamento. Se mora em casa comum, é importante ter mais alguém de confiança em casa ou avisar os amigos antes”.

Outra orientação é nunca fazer sexo no carro, no mato ou pontos ermos, como vielas e terrenos baldios. “Procure conhecer a pessoa antes, de preferência em locais movimentados, e nunca ir ficando no primeiro encontro. E nunca saia com vários, como menáge”, recomenda Cris. 

Histórias de amor também começam nos apps

Diante dos riscos, tomar cuidado é essencial, mas também há diversos encontros pelos aplicativos que terminam em uma história de amor. Frank Rossatte é um exemplo de quem acabou se apaixonando por uma pessoa que conheceu pelo app.

“Eu tenho histórias boas e ruins. Boas porque meu atual relacionamento, estamos juntos há 4 anos, nos conhecemos por aplicativo de relacionamento. Nos apaixonamos e estamos juntos até hoje”, comenta. 

Jornal Midiamax