Do Carnaval às rodinhas, samba de Campo Grande é resistência e mistura de artes

No Estado sertanejo, o samba é visto como resistência de uma cultura rica que nasce na própria população
| 02/12/2021
- 11:30
Cantora desde os 11 anos
Cantora desde os 11 anos, Juci Ibanez é referência no samba de Mato Grosso do Sul - (Foto: Arquivo Pessoal)

O Dia Nacional do Samba é comemorado nesta quinta-feira (2). Braço da cultura brasileira que engloba inúmeras manifestações artísticas, há aquelas pessoas que definem o samba como um movimento. Em , o samba é responsável por conquistar corações desde o carnaval até rodinhas de música. Em um Estado pautado pelo agronegócio e sertanejo, o estilo é visto como resistência de uma cultura rica que nasce na própria população.

Portanto, já que o Carnaval de 2022 está dando o que falar, é dessa vertente que começamos essa matéria. Segundo o historiador Edson Contar, existiam poucas escolas de samba em Campo Grande até a década de 70, sendo que nenhuma delas seguia algum regulamento. A primeira escola nascida na cidade foi a Acadêmicos do Samba, do famoso Goinha. Foi dela que surgiram a Vila Carvalho, Estação Primeira, e Igrejinha.

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Carnaval de antigamente (Foto: Roberto Higa)

Dos pioneiros, destacam-se também os nomes de José Carlos de Carvalho, Picolé e Carlão, considerados os baluartes do samba carnavalesco.

“Em 1978, a Secretaria de Turismo do Município resolveu oficializar o desfile e em comum acordo com as escolas de samba, criou-se um regulamento nos moldes cariocas, exigindo-se a identificação de alas e outros quesitos como Comissão de frente, Baianas, bateria, fantasia, enredo e samba enredo, além de outros”, afirmou Contar, que na época era secretário de Turismo da Capital.

O primeiro impasse veio em seguida com a falta de compositores carnavalescos. Edson, então, tomou a frente do enredo de cinco escolas. No ano seguinte, Onésimo Filho assumiu o enredo da Carvalho e assim, ao longo dos anos, o samba de enredo passou a ser difundido em Campo Grande e se espalhou pelo resto do Estado.

De acordo com Alan Catharinelli, presidente da Liga das Entidades Carnavalescas da Capital, o samba está presente em várias expressões da cidade.

“Aqui em Campo Grande é muito presente o samba, o pagode e o samba de enredo, das escolas de samba. Hoje, nós possuímos oito escolas de samba filiadas à Liga, escolas de samba tradicionais com 50 anos de fundação, é uma grande manifestação do samba. Temos também os blocos carnavalescos. Então, o nosso carnaval é muito representativo por conta que ele engloba música, dança, arte e teatro”, disse ao Jornal Midiamax. 

Assim, o samba não se restringe a apenas um tipo de arte. Em Mato Grosso do Sul, shows de samba, bailes e rodinhas também são famosos por impulsionar uma cultura popular, que nasce das pessoas e com raízes próprias. 

Dessa forma, é impossível falar de samba sem valorizar a música. Na Capital, sambistas como Gideão Dias, Cristian Oliver, Juci Ibanez, Mistura de Raça, Grupo Sampri, Chokito e tantos outros são os responsáveis por carregar esse legado.

Cidadão sambista

Gideão Dias é um dos maiores nomes do samba de Mato Grosso do Sul da atualidade. Paulista e sul-mato-grossense de coração, ele começou a se apaixonar pelo samba e pandeiro quando ainda morava em São Paulo e escutava o Grupo Katinguelê perto de casa. Depois, veio para Campo Grande, onde participou de várias rodas de samba e integrou o primeiro grupo “Pura Amizade”.

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Gideão Dias é referência no samba de MS (Foto: Arquivo Pessoal)

Jogador de futebol e amante da cultura de rua, ele afirma que ser um cidadão sambista é estar 100% relacionado com as raízes do país.

“Ser sambista é ser um cara diferente, falar diferente, se vestir diferente, se comportar diferente. É você se sentir conectado totalmente com a cultura brasileira que eu acredito ser o gênero musical que melhor trata a cultura do brasileiro. Então eu me sinto um cara muito abençoado”, disse ao Jornal Midiamax. 

Há anos trabalhando na Capital, ele afirma que percebeu uma grande mudança ao longo desse tempo. Presente nas comunidades, o samba passou a integrar outros espaços.

“O samba de Campo Grande cresceu muito e eu destaco desde 2000 para cá, ele atingiu uma classe média que, no meu período, eu não via o samba tocando tanto. Hoje, a gente vê o samba nos bares da Afonso Pena. No período que eu comecei a atuar em Campo Grande, eu não via isso, eu via o samba mais nas comunidades. Hoje você vê o samba presente nas melhores festas, bares e eventos”, afirma. No entanto, apesar de estar presente, para Gideão Dias o samba ainda não é reconhecido como um dos estilos musicais do Estado. 

O mesmo é observado por pelo cantor Chokito. 

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Chokito é natural do Rio de Janeiro (Foto: Arquivo Pessoal)

“O samba do MS é resistência pura, pois o samba aqui não tem muito espaço devido a maior preferência do público que é o Sertanejo. Mas a gente vai conquistando nosso espaço e crescendo com muito profissionalismo, qualidade e a alegria de fazer o velho e bom samba. A nossa base está vindo forte”, diz.

Natural do Rio de Janeiro, ele trouxe o samba carioca para Campo Grande com a Banda Chamego, dos militares da aeronáutica, onde serviu por oito anos.

Afetados pela pandemia de Covid-19, ambos os sambistas estão engajados na realização de projetos musicais com a retomada de shows e eventos. Chokito, por exemplo, investe em clipes para suas músicas, enquanto Gideão retoma a agenda de shows.

Questionamos sobre as referências do samba em MS, os músicos destacam  Toniquinho da Viola, Grupo Samba São 5, Grupo Realce, Grupo Sampri, Grupo Mistura de Raça, Juci Ibanez e vários outros artistas. A última, por sinal, é amplamente conhecida na região por levar a figura feminina ao samba de Mato Grosso do Sul.

Mulher no samba  

Juci Ibanez tem 59 anos e, desse total, 45 foram dedicados à música. De acordo com a artista, o samba nasceu com ela e brotou junto com a luz. Grande nome do segmento, ela é pioneira em firmar a imagem feminina no samba de Mato Grosso do Sul.

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Juci Ibanez criou história das mulheres no samba de MS (Foto: Vaca Azul)

De acordo com a cantora, não existiam mulheres no samba raiz em 1994 no Estado. “Fui a primeira a enfrentar os preconceitos e diferenças, e de lá  pra cá as coisas apenas melhoraram. Existe ainda o preconceito, e nós mulheres, já  com nomes significativos na arte, enfrentamos e seguimos com nossa bandeira, mesmo sendo um mercado visivelmente voltado para o masculino. As barreiras são  enormes para o gênero e o estilo, mas o cenário feminino também é forte e persistente”, diz.

Em Mato Grosso do Sul, Juci é nomeada como Rainha e Madrinha do Samba. Na hora de citar artistas daqui que admira, ela escolhe mulheres de peso: Grupo Sampri, Simone Ávila, Maria Claudia, Marluci Brasil, Negabi, Kelly Lopes e outras vozes.

“O samba se mantém por força da fé, da luta e da brasilidade dele que, queira ou não, está nos poros do nosso povo”, finaliza a sambista.

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