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Após dois anos, o reencontro com o ex-professor de Kung Fu que luta contra o crack

Dependente ficou longe das drogas por um ano

Cleber Gellio Publicado em 28/06/2017, às 10h44

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Dependente ficou longe das drogas por um ano

Foi numa quinta-feira, para ser mais exato no dia 20 de agosto de 2015, que o conheci. Naquela manhã de inverno eu minha colega, a repórter Wendy Tonhati, tínhamos o desafio de garimpar boas histórias, durante o dia de ação social no Cetremi (Centro de Triagem e Encaminhamento ao Migrante), em Campo Grande, para uma reportagem sobre o resgate da cidadania aos moradores de rua.   

Entre os serviços oferecidos o corte de cabelo era um dos mais procurados. E foi ali que encontrei o ex-professor de Kung Fu Roberson Tilung Cândido Ferreira, com 35 anos à época, dependente químico vindo de São Paulo em busca de uma nova vida, longe das drogas. “Entrei nessa depois que desentendi com meu pai. Quase fiz uma besteira no calor do momento, mas ainda bem que a raiva passou”.

Com a cabeleira toda esvoaçada e a barba por fazer, era o próximo da fila quando pedi para fotografá-lo. Sem rodeios respondeu que sim.  Meu objetivo era fazer um antes e depois do serviço para mostrar o que um simples corte de cabelo ou uma aparada na barba poderia proporcionar. 

 Veja o resultado daquele dia.

Após dois anos, o reencontro com o ex-professor de Kung Fu que luta contra o crack

Diante de tantas histórias, fomos embora pensando que rumo tomaria a vida de cada um daqueles migrantes. 

Cadê o suporte?

Dois anos se passaram e na última segunda-feira (26), novamente em uma pauta da editoria de Cotidiano, dessa vez sobre saúde e com a repórter Aline Machado, uma cena nos chamou atenção: um rapaz magro, cabeça raspada e carregando um suporte com frasco de soro enquanto fumava um cigarro na calçada dos fundos do CRS (Centro Regional de Saúde) – Doutor. Antônio Pereira – Tiradentes. Para minha surpresa tratava-se de Roberson, hoje com 37 anos e em plena loucura de sua lucidez. 

 – O que faz aqui na rua com este equipamento? Perguntou a repórter. 

 – Apenas fumando um cigarro. Estou aqui desde sábado aguardando por uma vaga em um Caps (Centro de Apoio Psicossocial). Como eu estava internado e fugi, estão me castigando. Eles liberam vaga para outros e me deixam esperando, de castigo mesmo.   

Após dois anos, o reencontro com o ex-professor de Kung Fu que luta contra o crack

Quando o encontramos já estava ali há uns dez minutos. Durante nossa conversa com o paciente, do lado de fora da unidade, ninguém parecia se importar. Passou um médico, dois enfermeiros e um guarda municipal que o viram na rua e não tomaram nenhuma providência. 

“É um descaso total. Estou aqui há três dias (até segunda somavam três dias) e como não tenho parente na cidade, não tem ninguém para trazer comida para mim, então, quando alguém marca bobeira eu pego o meu suporte do soro e saio  batendo de porta em porta na vizinhança pedindo comida. Explico que estou internado e eles me dão o que comer. Ninguém nem percebe quando eu saio, ninguém liga”, relata.

Pedras no caminho

Logo após nossa visita ao Cetremi, lá em 2015, Roberson trilhou seu caminho rumo a reabilitação. Começou a trabalhar vendendo produtos de limpeza, alugou uma casa, começou a namorar e até comprou uma moto. No entanto, um obstáculo surgiu em sua trajetória: o crack. 

“Eu estava ‘firmão’, mas eu fui sem vergonha e acabei estragando tudo depois do primeiro gole de cerveja que me levou ao crack. Achei que já estava curado, mas não tem jeito: sou doente e vou me tratar”.
 Ele relata que durante o período em que usava a droga, o vício consumia seus bens e desatavam seus laços afetivos. “Perdi tudo. Foi-se a moto, a casa alugada, a namorada e o que mais havia por perto”. 

Após dois anos, o reencontro com o ex-professor de Kung Fu que luta contra o crack

Apenas um objeto, por pedido das filhas, ele não abriu mão: o celular smartphone. “Quase entreguei meu telefone também, cheguei a abrir o aparelho para tirar o chip, mas lembrei das minhas filhas. Esse é o meu único contato com elas”.

E foi desse mesmo aparelho que recebemos a notícia de que ele foi transferido, no mesmo dia, para o Caps e busca novamente se levantar. “Cara, estou muito feliz. Ainda mais porque acabei de receber o dinheiro do Fundo de Garantia de quando estava trabalhando, o que vai me ajudar a retomar a vida. Ainda vamos conversar em outra situação, na verdade já é o começo dela”, finaliza.

Jornal Midiamax