“Oi mãe, estou com esse número agora! Meu celular caiu e danificou a tela. Me deram de 2 a 3 dias para me entregar o aparelho, qualquer coisa a senhora me avisa aki tá bom”. O que segue depois desse diálogo já encheu a conta bancária de golpistas que se passam por familiares para tirar dinheiro das vítimas. E o Pix tem um papel real nesse cenário.

A modalidade de pagamento surgiu para dar mais celeridade e desburocratizar as transferências monetárias. E de fato facilitou a vida, tanto para os mais afortunados quanto para os menos favorecidos.

Mas Newton já previa em sua 3ª lei, a do Princípio de Ação e Reação, que toda força de ação aplicada tem uma reação oposta na mesma proporção. Se o Pix deixou as relações com o dinheiro na palma da mão, simplificando a rotina de milhões, também deixou as ações de golpistas muito mais fáceis e rápidas.

Esta é a quarta e penúltima reportagem de uma série especial elaborada pelo núcleo de Cotidiano do Jornal Midiamax, em alusão aos quatro anos de criação do Pix – o sistema que revolucionou como o brasileiro mexe com dinheiro. Desde o último sábado (17), o pode conferir e refletir os impactos do sistema de pagamentos. Confira as reportagens já publicadas no final.

Facilita pra todo mundo, até pra golpista

“Os criminosos se utilizam dos meios existentes para praticar os golpes. O que o Pix veio a facilitar? O Pix, por ser uma maneira rápida de transferência de dinheiro, faz com que os criminosos aproveitem aquele momento que, às vezes, aquela pessoa está na emoção, que cai no golpe”, diz o delegado-titular da Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Centro, João Eduardo Santana Davanço.

Ele explica ao Jornal Midiamax que, antes do Pix, a pessoa tinha que ir ao banco para transferir o dinheiro e muitas vezes um gerente ou funcionário a alertava.

“Por exemplo, o estelionato que o criminoso promete um ganho para a vítima. Às vezes, ela é iludida por aquele valor que vai ganhar e fica descuidada. Com o Pix, por ser mais ágil, o criminoso aproveita esse momento”, cita.

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Pix otimizou rotina de pagamentos (Ana Laura Menegat, Jornal Midiamax)

Sem o Pix, a vítima tinha que ir até um caixa eletrônico para poder transferir alguma quantia e, nesse tempo, muitas variáveis contavam.

“A gente tem verificado os mais variados tipos de golpes. Aquele golpe do carro quebrado que a pessoa fala que é um familiar e está com o carro quebrado. Antigamente, faziam um TED ou DOC; tinha alguns horários para isso, mas o Pix é mais fácil”, reforça o delegado.

Pix é seguro?

De comércios que não aceitam o Pix até pessoas físicas, há quem duvide da segurança do método e o veja com maus olhos. Entretanto, segundo o especialista em Segurança Cibernética, Geferson Medina, o grau de confiança em segurança do Pix é muito alto para realização das transações, atualmente.

“O Pix é novo, mas os golpes são os mesmos de sempre. Os golpistas se modernizaram e apenas alteraram o método do crime para o uso de novas tecnologias de pagamento disponíveis”, afirma.

Ele ressalta que toda transação via Pix acontece em ambiente seguro do banco de confiança do usuário. “Ou seja, é acessado por meio de uma senha ou de outros dispositivos de segurança integrados ao celular, como reconhecimento biométrico e facial ou uso de token. Então, a possibilidade de burlar uma chave Pix é bem reduzida”, diz ao Jornal Midiamax.

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Pix está acessível na palma da mão (Arquivo, Jornal Midiamax)

Muitas pessoas ainda sentem medo por conta da exposição de dados, já que as chaves são o CPF ou CNPJ, número de celular ou e-mail. Entretanto, ainda é possível criar uma chave aleatória sem esses dados. A outra pessoa terá acesso apenas ao nome, CPF parcial e banco de destino.

“O Pix atualmente possui mais pontos positivos [do que negativos] por ser um método de pagamento instantâneo que está disponível 24 horas por dia gratuitamente. Mas todo usuário deve desconfiar de ligações recebidas solicitando ajuda para cadastrar sua chave Pix ou solicitar para executar um procedimento de segurança. O usuário deve desligar a ligação e ligar para o gerente do seu banco ou procurar os canais oficiais do banco”, alerta.

“Todas as transações Pix são totalmente rastreáveis, permitindo a identificação de contas recebedoras de recursos originados por fraude/golpe/crime”, acrescenta.

Golpes comuns via Pix

No caso dos golpes, a principal vulnerabilidade do Pix acaba sendo o elo mais fraco: o usuário. Os golpistas não se modernizam apenas nas ‘formas de pagamento’, mas também no mecanismo do golpe.

Golpe da ligação do banco

“O mais atual é aquele em que as pessoas se passam por um banco, geralmente o Nubank, e falam que fizeram uma compra indevida. Aí, nisso, ele faz a pessoa fazer um Pix para o bandido no intuito de cancelar a compra”, explica o delegado Davanço.

Segundo ele, qualquer pessoa pode se tornar alvo de estelionatários. “As vítimas são de todas as idades. Quando é contra idoso tem um majorante; estelionato contra idoso; mas eles utilizam pessoas que não tem muito conhecimento”, explica.

Como publicado pelo Jornal Midiamax em janeiro, os crimes virtuais fizeram os casos de estelionato triplicarem em Mato Grosso do Sul em uma década. De 2014 a 2023, as transgressões desse tipo registraram crescimento exponencial, passando de 3.421 vítimas em 2014 – quando a série histórica começa – para 13.938 no ano passado.

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Pix facilitou até assaltos (Arquivo, Jornal Midiamax)

Golpe da compra e venda

Segundo o delegado, os golpes aplicados são simples e tiram desde R$ 100 até algumas centenas de R$ 1 mil. “Tem bastante [registro]; o dia todo. Os de aquisição de veículo, quando um terceiro se passa pelo comprador, ele engana o comprador e o vendedor. O pessoal ainda cai. Aquele que a pessoa se passa pelo familiar também tem”, elenca o oficial ao Jornal Midiamax.

“O que a gente orienta é verificar o nome da pessoa [para quem] está fazendo o Pix. Se você vai destinar para o João, o Pix tem que ser do João. Se você vai destinar para o José, o Pix tem que ser para o José”, ressalta.

Golpe do QR Code

Geferson acrescenta alguns golpes comuns na internet. “Há golpe registrado por QR Code, que se chama QR Quishing. Basicamente um atacante troca ou substitui o código QR Code verdadeiro por um novo QR Code de uma conta do golpista”, explica o especialista.

Já em casos de anúncios de internet, é importante desconfiar de produtos ou serviços muito abaixo do praticado no mercado. Entretanto, o comprador precisa avaliar o anúncio, já que lojas costumam oferecer descontos quando o pagamento é feito via Pix.

“O usuário deve sempre se atentar para saber se o site que está com o anúncio é verdadeiro e no ato do pagamento validar se as informações de pagamento são da empresa ou pessoa que está vendendo o produto ou serviço”, aconselha Geferson.

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QR Code também se popularizou com o Pix (Arquivo, Jornal Midiamax)

Pix do golpe devolvido?

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O delegado Davanço lembra que há um meio de tentar conseguir o dinheiro enviado para golpistas. Segundo o do Brasil, o MED é um mecanismo exclusivo do Pix criado para facilitar as devoluções em caso de fraudes – aumentando as possibilidades da vítima reaver os recursos.

A vítima deve registrar o pedido de devolução no seu banco em até 80 dias da data em que fez o Pix, quando for alvo de fraude, golpe ou crime.

Funciona assim:

  • Você reclama na sua instituição.
  • Ela avalia o caso e, se entender que faz parte do MED, o recebedor do seu Pix terá os recursos bloqueados da conta.
  • A análise do caso acontece em até 7 dias.
  • Se concluírem que não foi fraude, o recebedor terá os recursos desbloqueados. Se for fraude, em até 96 horas o pagador receberá o dinheiro de volta (integral ou parcialmente).

O MED também é útil quando existir falha operacional no ambiente Pix do banco. Por exemplo, para pagamentos duplicados por falha do sistema. Nesse caso, o banco avalia se houve a falha e, em caso positivo, em até 24 horas o dinheiro é devolvido.

Confira as reportagens já publicadas