O trânsito de Campo Grande não tem boa fama. De comediante que aterrissa aqui a sul-mato-grossense nato, o que se fala que é o condutor desta cidade não dá a seta. Mas, podemos começar a reverter as coisas… que tal falar que a cidade tem qualidade de vida e que muitos idosos vivem e dirigem tranquilamente por aqui? Prova é o levantamento do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito), o qual aponta 302 motoristas 90+ na ativa, em 2024.

O número, com base na última renovação de CNH (Carteira Nacional de Habilitação), aponta também a condutora mais idosa atuando em Campo Grande: Hafiza Abussafi Ennes, que completará 100 anos em junho deste ano e viralizou em todo o país ao ter sua história contada pelo Jornal Midiamax. A permissão para dirigir é válida por três anos e, no caso dela, se estende até os 101 anos.

No interior do Estado, ainda conforme levantamento do Detran-MS, também existem centenários circulando pelas ruas. No entanto, em virtude da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), não foram divulgados mais detalhes sobre estes condutores.

Hafiza resolve tudo com seu carro em Campo Grande

A reportagem conheceu D. Hafiza no início deste mês, quando ela gentilmente recebeu a equipe de reportagem em sua cobertura, na região central de Campo Grande. Na ocasião, contou que ainda quer manter a independência e por isso renovou a CNH.

Durante a rotina, a idosa falou que vai ao mercado, médicos e também tem o compromisso dominical das missas, usando o carro nestes momentos. Viúva há 31 anos, ressaltou que o marido não dirigia desde que tinha 63 anos de idade, então, sempre “pegava o carro e fazia as coisas sozinha”.

Sobre a renovação da carteira, contou um episódio peculiar, já que foi orientada a voltar no outro dia para passar pelos avaliadores.

(Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

“Cheguei oito horas da manhã e eles ficaram analisando. Tinham cinco médicos. Um cruzou o braço, ficou me olhando. E depois todos disseram que chegaram a uma conclusão, que não tinham que me negar a carteira de motorista. Falaram: ‘Não há um incidente, nenhuma pontuação na carteira, seu carro está novíssimo, bem conservado, não tem sinistro, então, vamos dar a carteira para a senhora por três anos, então, a senhora vai poder dirigir até os 101 anos’. Mas me colocaram um limitação”, argumentou.

Na ocasião, conforme a idosa, os avaliadores disseram que ela não poderia sair de Campo Grande. “Não me deixaram viajar na estrada, explicando que podemos ter um branco, uma falta de presença de espírito e assim acontecer um incidente. Aí eu falei que não dirigiria na estrada mesmo, que quando precisei ia de ônibus ou alguém me leva de carro. De vez em quando, vou pra Corumbá com o Beto [filho] ou pra Ponta Porã com um motorista”, disse.

Na ocasião, também falou de um ligação. “Uma senhora me ligou contando que trabalha no Detran-MS e estava admirada de ver a minha documentação e queria me conhecer pessoalmente. Marcamos um encontro na igreja e eu até fui, mas, cheguei e já tinha acabado a missa. Era curtinha, de meia hora só. E aí não deu certo. Ela queria fazer uma entrevista e aí você passou na frente”, brincou e finalizou, com uma gargalhada gostosa.