O uso da Estrada-Parque Piraputanga, no transporte de eucalipto da Suzano com carretas gigantes, para a indústria economizar, foi liberado pelos dois órgãos estaduais que têm obrigação de preservar o desenvolvimento sustentável em Mato Grosso do Sul, antes mesmo da conclusão do plano de manejo da região.

Mesmo assim, o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) e a Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos) dizem que não enxergam problemas e nem riscos na conversão da estrada, construída para ser uma atração ecoturística, em corredor diário para trânsito de tritrens com até 74 toneladas de madeira.

Em nota, a Agesul defende a Suzano: “a empresa Suzano tem, em território sul-mato-grossense, o maior investimento privado em andamento no Brasil, e mantém uma operação reduzida nessa localidade, com velocidade controlada, frota limitada e já instalaram seis áreas de escape nesse trecho, em cumprimento a uma exigência da Agesul”.

No entanto, não há informações sobre eventuais estudos de impacto ambiental nem para o uso da rodovia estadual, nem para a construção das tais ‘áreas de escape’ no trecho da MS-450.

Segundo, a atividade de transporte foi licenciada/autorizada e o de transporte de eucalipto não é passível de licenciamento ambiental.

Transporte de eucalipto no Pantanal antes do plano de manejo

Além disso, em resposta ao promotor de Justiça em substituição legal, Marcos Martins de Brito, que pediu esclarecimentos sobre o plano de manejo no local, a informação oficial é de que o documento ainda está sendo elaborado e só deve ser concluído em junho de 2024.

A resposta, do último dia 4 de abril, foi encaminhada ao diretor-presidente do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul, André Borges Barros de Araújo.

Enquanto isso, os tritrens já estão em plena atividade, com até 20 viagens por dia e previsão de que deve continuar ao menos pelos próximos três anos. A Suzano decidiu usar a Estrada Parque de Piraputanga para encurtar o caminho e economizar, segundo informações de vizinhos e funcionários.

Moradores e empresários estranham liberação e temem impacto na rota ecoturística

Com licenciamento ou não, os moradores e empresários que exploram o ecoturismo na região temem os impactos negativos da ‘liberação’ para a Suzano usar a estrada como rota de escoamento da produção de eucalipto.

“Pegou a gente de surpresa e aí mudamos toda a abordagem, o diagnóstico e as tratativas que estávamos fazendo, neste nosso planejamento. E a situação lá está ruim mesmo. Usam estes 12 km para chegar na planta, lá em Ribas [do Rio Pardo]. E inclusive disseram que iam comunicar a comunidade”, explicou o profissional, que é biólogo.

Conforme o profissional, são ao todo três distritos afetados diretamente com os riscos de impacto causados pelo transporte de eucalipto no turismo e biodiversidade: Palmeiras, Piraputanga e Camisão.

“A empresa, nessas reuniões do Conselho, sempre estava com todas as autorizações possíveis, o que envolvia os órgãos ambientais também, então, enfim, a gente entende que é um problema sério, que vai durar três anos pelo menos e que vai ser ruim. Já está todo mundo reclamando, de lixo, de sujeira, de atropelamentos e do fim do sossego”, opinou.

A imposição da liberação para a Suzano transportar eucalipto na estrada construída com fins ecoturísticos causou racha no Conselho Consultivo da Área de Proteção Ambiental da Estrada-Parque de Piraputanga.

(Reprodução e Edemir Rodrigues/Governo de MS)

O assunto veio à tona por meio da denúncia do SOS Pantanal, que deixou a cadeira no Conselho recentemente e demonstrou diversas preocupações com o aumento de tráfego de caminhões na região, porém, não houve mudanças significativa no processo de autorização da unidade de conservação.

Liberação para Suzano foca mais no ‘estado próspero’, do que no verde e sustentável

“Neste caso, estão focando mais no ‘próspero’, pelo menos para a indústria, do que no estado verde e sustentável”, comenta fazendeiro da região de Piraputanga, que também teme os efeitos. “Devem destruir toda a estrada com estas verdadeiras composições de trem com carreta e largar tudo aí, pra gente sofrer”, desconfia.

Denúncia publicada pelo Jornal Midiamax detalha que o tráfego de 20 tritrens abarrotados de eucalipto, todos os dias na MS-450, poderia ser evitado. No entanto, prioriza a economia da indústria Suzano, em detrimento da sustentabilidade.

Ao menos é o que alegam ambientalistas que acompanham a situação que gerou até racha no Conselho Consultivo da Área de Proteção Ambiental Estrada-Parque Piraputanga.

Segundo os ambientalistas, trecho de 11 quilômetros da estrada, construída para uso contemplativo da natureza, está sendo ocupado pelos tritrens, carretas gigantes com três vagões ou semirreboques, por um período de no mínimo três anos. Cada carreta gigante tem capacidade para transportar até 74 toneladas de carga bruta.

“A fazenda onde fazem a retirada [de eucalipto] é a Lageado, que começa ali na Cipolândia, em Aquidauana e vai até Dois Irmãos do Buriti. Pega toda a extensão da Serra de Maracaju, então, lá possui uma saída por Terenos e outra por Dois Irmãos do Buriti. Aliás, antes até do local ser vendido para Suzano, escoavam pela Ponte do Grego e era para ser assim. Mas, depois bateram o pé e aos 45 do segundo tempo passaram a escoar pela Estrada-Parque porque a outra não tinha asfalto. O que eles querem é economizar tempo”, argumenta fazendeiro que vive na região.

Transporte de carvão e carros em alta velocidade na Estrada-Parque

Uma outra denúncia, encaminhada ao Jornal Midiamax, fala sobre o transporte de carvão e carros em alta velocidade, como um agravante que vinha ocorrendo na região.

“São todos estes impactos que a gente está observando, tanto na biodiversidade quanto na segurança da população, mas, tem outros, que é tirar a área excessiva de desmatamento, de florestas, em prol de fazer pequenos loteamentos, tem área de nascente que está fora dos limites do plano e é muito castigada em termos de ocupação. Por exemplo, não está cercadinha no entorno, do jeito que a gente queria que estivesse e o plano traz também nova perspectiva de como agir nessas áreas, recomendar programas de recuperação de área degradada, programa de recuperação de solo, programa de qualidade de água, tudo isto neste universo de cinco anos de planejamento”, afirmou.

Suzano diz que opera com transporte ‘seguro e sustentável’ de eucalipto

“A empresa tem como política manter diálogo ativo e transparente com comunidades, lideranças locais e órgãos públicos sempre previamente ao início de suas operações, a fim de assegurar o pleno alinhamento entre suas atividades e as características socioambientais das regiões onde atua. Esse diálogo, acompanhado da realização de estudos operacionais prévios, também ocorreu no processo relacionado à utilização da MS-450 para o transporte de madeira seguro e sustentável ao longo de um trecho de 11 quilômetros da MS-450.

Como consequência dessa escuta ativa e proativa com atores locais, foram adotadas uma série de ações adicionais àquelas já praticadas regularmente pela empresa, para o controle e adequação da nossa operação às peculiaridades da localidade: melhorias na sinalização de trânsito e criação de bolsões para facilitar ultrapassagens; gestão ativa da frota para assegurar a circulação segura e eficiente dos veículos nos horários informados à comunidade; rotogramas falados diretamente na cabine dos motoristas com alertas de limites de velocidades, presença de ciclistas e de fauna; além de treinamentos abrangentes focados em respeito à fauna, ciclistas e práticas ambientais responsáveis. Tais ações são proporcionais ao volume das operações previstas e compatíveis com a realidade socioambiental da região.

Acrescente-se, ainda, que a operação na MS-450 foi submetida a todas as autorizações legais junto às autoridades locais.

Importante ressaltar também que a operação na MS-450, rodovia comumente utilizada por outras empresas de Mato Grosso do Sul para o transporte de cargas, consiste em um número limitado de 20 viagens diárias de tritens, restritas em horários escolares e com redução considerável da frota aos finais de semana, formato adotado também como resultado do diálogo com a comunidade local.

A empresa também colocou à disposição da comunidade seu canal de Ouvidoria – 0800 771 4060 – para que possa receber sugestões, críticas ou denúncias visando aperfeiçoar sua operação na região.”