Muita gente não sabe bem o porquê, mas tem noção de que quanto mais afastado do Centro, mais barato é o preço do terreno. Em Campo Grande, que faz aniversário no próximo sábado (26), a situação não é diferente. A pergunta que fica é: afinal, o que faz o metro quadrado de um terreno ser bem mais em conta longe das regiões centrais?

Em Campo Grande, terrenos com proporções similares podem ser encontrados com uma diferença de R$ 640 mil dependendo de onde está situado. Enquanto no bairro Bela Vista um terreno pode ser encontrado por R$ 700 mil, no Parque do Sol um terreno pouco menor é vendido por R$ 60 mil (confira detalhes no mapa interativo mais abaixo na reportagem).

Uma realidade campo-grandense é a expansão dos limites urbanos, o que caracteriza, inclusive, a horizontalização da cidade – quando há mais casas que prédios e a densidade habitacional é menor. E talvez esse seja o ponto: com menos gente por metro quadrado, o custo de expandir a infraestrutura a todos fica bem mais alto. Não é à toa que muito bairros esperaram mais de 30 anos pelo asfalto, por exemplo.

Periferia expandindo horizontes

Mas é aí que moram algumas… oportunidades. Muitas vezes carentes de algumas infraestruturas e serviços básicos, os bairros localizados nas regiões periféricas da Capital têm despertado o interesse de compradores em busca de moradia. Os atrativos são os preços de terreno e até mesmo de edificações prontas.

Dentre as características que impulsionam a procura por essas áreas, destaca-se a relação direta entre a falta de asfalto e a economia na aquisição de terrenos. Bairros onde o asfalto ainda não chegou apresentam valores mais baixos, por exemplo – o que atrai parcela significativa da população em busca do sonho da casa própria.

Diante disso, é importante observar além dos perímetros centrais e destinar um olhar mais humanizado para essas transformações, bem como entender quais investimentos futuros da prefeitura estão sendo direcionados nessas regiões. Apesar de serem considerados distantes, bairros agregam novas comunidades e expandem Campo Grande para horizontes mais amplos.

Terrenos mais baratos estão em ruas sem asfalto

É possível encontrar terrenos para construção de residências e empreendimentos nos mais variados tamanhos e preços. No entanto, o que se observa é que, quanto mais distante do centro, mais barato o valor tende a ficar – justamente pela disponibilidade de infraestruturas e serviços, o que afeta diretamente no produto final do imóvel. 

Diego Canzi, presidente da Acomassul (Associação dos Construtores de Mato Grosso do Sul), explica ao Jornal Midiamax que o fator preponderante para influenciar na precificação de um terreno é se ele está inserido numa rua asfaltada ou não. 

“Tem localidades mais baratas por não terem asfaltamento e estarem mais afastadas do centro. Quanto mais afastado o imóvel, mais barato ele se encontra. Tem também o Plano Diretor de regiões onde têm potencial mais alto, as mais valorizadas. A saída de Cuiabá até a Saída de São Paulo, na região do Parque dos Poderes, Jardim Veraneio até o [condomínio] Damha é a região mais valorizada. Já do lado oposto, saída para Sidrolândia e Saída para Rochedo tem bairros mais classes C, D e E, portanto, terrenos mais baratos”.

Terrenos mais baratos estão em ruas sem asfalto (Henrique Arakaki, Jornal Midiamax)

Canzi ainda elenca que, de modo geral, o preço dos terrenos é parecido e, numa região considerada periférica, a média de preço de um terreno com rua asfaltada é de R$ 90 a R$ 120 mil. A reportagem apurou que, quando não há pavimentação, o imóvel pode ser encontrado entre R$ 40 mil a R$ 50 mil. Assim, é possível perceber que o preço “dobra” quando o asfalto está implantado. 

Como exemplo, Canzi cita que bairros periféricos que possuem terrenos mais baratos na Capital são o Lageado, Parque do Sol e o Santa Emília, justamente porque estão mais afastados e registram grande quantidade de ruas de terra.

“Pavimentação asfáltica é um divisor de águas. Um bairro asfaltado é um valor, um bairro não asfaltado é outro”, pontua.

Esgoto não influencia no valor

Canzi também detalhou que todo loteamento, para ser construído em Campo Grande, precisa ter infraestrutura mínima de água, esgoto e pavimentação asfáltica. Nesse contexto, os bairros que não possuem toda a infraestrutura normalmente são mais antigos. 

Além disso, água e energia elétrica são recursos disponíveis em toda a cidade. Assim, a instalação do esgoto – que normalmente precede obrigatoriamente a pavimentação de vias – não influencia tanto no preço final do imóvel. Logo, o que faz diferença mesmo é a pavimentação.

Pesquisa em um site de venda e locação de imóveis referência no segmento mostra que é possível encontrar um terreno no Parque do Sol com 200 m² por R$ 60 mil. Lá, há acesso à energia elétrica e água, mas está em rua não asfaltada. Outro terreno, dessa vez no Lageado e com a mesma dimensão, custa R$ 70 mil, enquanto outro com 433 m² pode ser encontrado a R$ 85 mil.

Em contrapartida, um terreno no centro de Campo Grande, na Rua Boa Vista, com 375 m² e com rua pavimentada, está a R$ 450 mil. Confira abaixo no mapa interativo um comparativo de valores de terrenos de até 360 metros quadrados em regiões valorizadas em comparação com bairros mais distantes:

Serviços e infraestruturas se aglomeram no centro

A diferença de preços de imóveis nos diferentes bairros de Campo Grande também é explicada pela Secovi (Sindicato da Habitação de Mato Grosso do Sul), entidade responsável por apoiar e fomentar o setor imobiliário.

Segundo o presidente Geraldo Barbosa de Paiva, os bairros centrais têm valor agregado devido à disponibilidade de acessibilidade, infraestrutura urbana e gama de serviços que promovem aumento na procura por imóveis.

“Há, em especial, algumas regiões específicas com a consolidação de loteamentos fechados de alto e médio padrão, distante do centro, que também trazem agregação aos valores dos imóveis. As regiões onde se encontram terrenos mais acessíveis são nas regiões menos adensadas ou desprovidas de infraestrutura e serviços públicos urbanos. A variação quanto aos preços depende principalmente da localização, serviços disponíveis, acessibilidade ou de geração de renda (empregos)”, explica à reportagem. 

Diante desse cenário, Barbosa afirma apoiar os investimentos nas regiões periféricas da Capital. Além disso, diz que é preciso racionalizar a mobilidade urbana para facilitar o acesso da população. 

“A cidade ideal seria a que o cidadão estivesse próximo de sua residência, trabalho e todos os serviços (saúde, educação, lazer e segurança) necessários ao seu bem-estar. Temos que tomar cuidado em recuperar a densidade da região do centro onde há a maior oferta de serviço e infraestrutura com custo mais barato para seu respectivo adensamento”, confirma. 

(Nathalia Alcântara, Jornal Midiamax)

Nesse contexto de desenvolvimento urbano e planejamento, as visões de Barbosa sobre o fortalecimento das regiões periféricas e a otimização da mobilidade urbana se alinham com as diretrizes do Plano Diretor de Campo Grande. À medida que buscamos uma cidade mais equitativa e acessível para todos os cidadãos, as considerações de Barbosa sobre a proximidade entre moradia, trabalho e serviços essenciais ganham ainda mais relevância. 

No entanto, para compreendermos como essas ideias se encaixam nas subdivisões da cidade e como isso impacta a alocação de recursos em diferentes bairros, é fundamental explorar as zonas estabelecidas em Campo Grande.

A Planurb, como a entidade encarregada do planejamento urbano e ambiental, desempenha um papel crucial ao detalhar os regulamentos, estratégias presentes no Plano da Capital e como as políticas propostas convergem com as diretrizes estabelecidas que moldam o futuro da cidade.

Campo Grande é dividida por zonas

Conforme Berenice Maria Jacob Domingues, diretora-presidente da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), uma das prioridades da região do último Plano Diretor foi estimular a implantação de empreendimentos em áreas já dotadas de infraestrutura. Por isso, é necessário entender que Campo Grande é dividida por cinco zonas de desenvolvimento.

Essa divisão começa do “meio”, onde é o centro de Campo Grande, até as regiões mais afastadas. Quanto mais longe do centro, menos infraestruturas estão disponíveis e menos convidativos são os parâmetros urbanísticos, alega Berenice. 

Assim, as zonas são divididas da seguinte forma: 

Zonas Campo Grande Plano Diretor
Campo Grande é dividida em cinco zonas (Reprodução, Sisgran)

Zona 1 (verde)

Zona composta por: Amambai, Centro, Jardim dos Estados e Santa Fé. É a região com melhor disponibilidade de infraestrutura, como pavimentação e drenagem, esgoto, energia elétrica, telefonia, atividades econômicas, coleta de lixo, limpeza, linhas de ônibus, etc. Na Zona 1 há poucas áreas disponíveis para construção, mas ainda existem. Além disso, é a área mais atrativa pelo custo de oportunidade porque o empreendedor consegue construir seu negócio onde já existe disponibilidade dos serviços públicos implantados, por exemplo. 

Zona 2 (roxa)

Zona composta por: Planalto, Cruzeiro, São Francisco, Bela Vista, Itanhangá, São Bento, Monte Líbano, Vila Glória e Vila Carvalho. Há muita disponibilidade de infraestrutura. “Para a cidade é importante que o empreendedor volte o olhar para as áreas ociosas que ainda existem para aproveitar toda a gama de serviços públicos que já estão disponíveis. O emprego está próximo, pessoa pode morar próximo de onde trabalha. Nesse sentido, o plano diretor afirma que precisa crescer de dentro para fora”, explica Berenice.

Zona 3 (rosa)

Zona composta por: Bandeirantes, Taquarussu, Jóquei Club, Piratininga, Jardim Jacy, Aero Rancho, Jardim Paulista, Jardim América, Jardim TV Morena, Vila Carlota, Vilas Boas, São Lourenço, Tiradentes, Chácara Cachoeira, Veraneio, Carandá Bosque, Mata do Jacinto, Autonomista e Vila Margarida. 

Berenice explica que há infraestruturas nessa zona, mas algumas precisam de “ajustes”, implementadas ou melhoradas. Além disso, tem mais disponibilidade de áreas ociosas para a construção de empreendimentos.

Zona 4 (amarela)

Zona Composta por: Taveirópolis, União, Caiçara, Leblon, Tijuca, Jardim Batistão, Coophavila 2, Centenário, Pioneiros, Alves Pereira, Vila Albuquerque, Universitário, Rita Vieira, Moreninhas, Noroeste, Maria Aparecida Pedrossian, Centro Oeste, Estrela Dalva, Parque dos Novos Estados, Nova Lima, Coronel Antonino, Monte Castelo, Seminário, Vila Nasser, José Abrão, Santo Amaro, Panamá, Santo Antônio, Popular e Sobrinho.

“Vai alterando os parâmetros urbanísticos de uso e ocupação do solo. Quanto mais distante do centro, menos convidativo são os parâmetros”, disse Berenice, uma vez que nesses locais normalmente precisa implementar linhas de ônibus, coleta de lixo, ampliar escolas, etc.

Zona 5 (azul)

Zona composta por: Núcleo Industrial, Nova Campo Grande, São Conrado, Caiobá, Tarumã, Lageado, Los Angeles, Chácara dos Poderes e Mata do Segredo. Por ser a região mais distante do centro, menos convidativo é o parâmetro urbano no local. Por isso, a lógica do Plano Diretor é o adensamento prioritário em áreas já providas de todas as infraestruturas. 

“O Plano Diretor fala que é a última [zona] para olhar. O adensamento é de um prazo maior. A cidade  não tem interesse de adensar o local porque não tem toda a infraestrutura disponível e não pode colocar pessoas em lugares onde elas não terão acesso aos serviços públicos de forma plena. O parâmetro urbanístico é o menos convidativo porque é onde tem mais vias para asfaltar, mais escolas para implantar, precisa ter melhor qualificação do transporte coletivo, pavimentação e drenagem, pontes, atividades econômicas, empregos e renda”, exemplifica a diretora-presidente da Planurb. 

Berenice Maria Jacob Domingues, diretora- presidente da Planurb
Berenice Maria Jacob Domingues, diretora-presidente da Planurb (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Dessa forma, é necessário entender que a divisão das zonas reflete na quantidade de investimentos destinados a cada região. Isso porque as Zonas 1 e 2 constam no Plano Diretor como compactação imediata devido a sua infraestrutura. Então, tem maior mobilidade urbana, empreendimentos e serviços à disposição da população.

Enquanto isso, as Zonas 3 e 4  são áreas de compactação prioritária, ou seja, já tem a infraestrutura, mas ainda precisa de melhorias.

Por fim, a Zona 5 aparece no documento como compactação futura porque é necessário melhorar as áreas mais próximas do centro, economizar recursos e então levar as melhorias até lá também. 

“A gente precisa ter esse cuidado nessa humanização da gestão, olhar para as pessoas e trabalhar para que elas tenham as mesmas oportunidades que a gente tem. O Plano Diretor fala da compactação. A cidade precisa ser compacta, cumprir com sua função, precisa olhar o cidadão como o elemento mais importante e pra isso preciso estudar adequadamente os locais da cidade, as interferências das questões ambientais para também ter uma responsabilidade no uso e ocupação do solo. Tem que ser compacta e policêntrica”, diz Berenice.

Um bairro policêntrico, por sua vez, é autônomo e oferece os recursos necessários aos seus moradores. Na prática, uma pessoa não precisa ir até o centro da cidade para ir ao mercado, à farmácia, trabalhar ou fazer coisas simples do seu cotidiano. 

Um exemplo disso é o próprio Parque do Sol. Lembra que no início da reportagem o bairro foi elencado como um dos que mais possuem terrenos com preços acessíveis na Capital? Foi justamente com essa premissa que a comunidade começou a se formar na região. Hoje, o bairro está situado na Z5 e faltam infraestruturas, mas já recebe atenção do poder público devido ao seu povoamento e crescimento.

Bairros periféricos são chance de conquistar casa própria 

Residindo na mesma casa desde os primórdios do povoamento do Parque do Sol em 1998, Gilzete Carvalho Batista, de 67 anos, testemunhou uma transformação significativa na paisagem do bairro. No início, a área – localizada na Z5 do Plano Diretor – era marcada pela escassez de habitações e pela considerável distância entre as residências. Na sua quadra, hoje é notável que a maioria dos habitantes são proprietários de suas próprias moradias, formando uma comunidade de amigos que acompanha a história do parque desde seu início.

Antes de se estabelecer no Parque do Sol, Gilzete residia no Pioneiros. “Mudei para cá para sair do aluguel. A prestação do terreno era mais acessível, o que me permitiu construir minha casa ao longo do tempo. Ainda faltam alguns detalhes, mas estou progredindo”, conta ela. Na companhia do marido e seus três netos, de idades entre 16 e 23 anos, Gilzete conquistou o sonho da casa própria.

Parque do Sol
Gilzete é moradora do Parque do Sol desde o povoamento da região (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Para ela, a mudança é notável em diversos aspectos. Enquanto antes o transporte público era distante e pouco frequente, atualmente o bairro conta com um terminal próximo, possibilitando um acesso mais eficiente. Ela recorda o período de oito anos em que pagou as prestações do terreno, inicialmente no valor de R$ 34, que ao longo do tempo aumentou para R$ 65 reais. Hoje, sua casa está completamente quitada, uma conquista obtida por meio da Amhasf, antiga Emha.

Gilzete destaca o crescimento do bairro e o aumento do número de moradores, o que trouxe melhorias, embora em um ritmo mais lento. A implementação de saneamento básico e asfalto foi aguardada por muito tempo, mas finalmente, o esgoto está sendo instalado, o que representa um progresso notável. Ela enfatiza que, embora tenha sido uma espera longa, a melhoria é agora uma expectativa tangível. No entanto, a pavimentação ainda é a principal falta.

Parque do Sol
Moradores do Parque do Sol sonham com ruas asfaltadas (Nathalia Alcântara, Midiamax)

“Hoje todo mundo já tem a sua água encanada, agora eu achei que demorou muito tempo esse esgoto e o asfalto quantas vezes a gente achou que viria e não veio. O asfalto é uma necessidade porque a piora é muito e constante, sempre tem alguém gripado, algum vizinho reclamando, sem contar que as pessoas vão ficar mais cuidadosas com as frentes de casa. A ideia é que as coisas fiquem mais apresentáveis também”.

A infraestrutura também avançou, com unidades de saúde, escolas, supermercados, creches presentes no Parque do Sol e em bairros periféricos adjacentes. No entanto, a falta de serviços bancários ainda é um desafio. Apesar das dificuldades, Gilzete enxerga a autonomia que o bairro lhe proporciona, mas ressalta a necessidade de uma agência bancária, já que nem todos têm acesso a aplicativos de pagamento. Além disso, pontua a importância de uma unidade de saúde 24 horas, algo que ainda não tem na região. 

“Já que temos dois postos de saúde, um deles pelo menos poderia ser 24h porque atenderia o José Teruel, Pênfigo, atenderia aqui o bairro e os outros mais próximos. Além disso, está na hora do povo ter pelo menos uma Caixa Econômica ou pelo menos um postinho. Se tivesse um lugar de recebimento [de dinheiro] seria bom”.

Parque do Sol
(Nathalia Alcântara, Midiamax)

Ainda, a locomoção para o centro da cidade é uma rotina quase diária, embora seja um processo trabalhoso. Ela aproveita a infraestrutura disponível no Terminal Aero Rancho, onde encontra serviços como lotéricas e mercados próximos, além do transporte para o centro, embora com horários limitados. Não é à toa que a busca por uma infraestrutura mais completa e a melhoria contínua do bairro são desejos constantes de Gilzete e de toda a comunidade do Parque do Sol. Confira a entrevista completa com a moradora do Parque do Sol. 

Pedidos ainda são muitos 

Maria Lúcia da Silva de Campos, moradora do bairro Santa Emília há 38 anos, é um exemplo de perseverança em prol do desenvolvimento de sua comunidade. Tendo migrado do Aero Rancho para o Santa Emília, ela conquistou a sua casa própria e se engajou ativamente na busca por avanços em seu bairro. Como coordenadora do conselho local do posto de saúde do Santa Emília, Maria representa a região da Lagoa e é uma voz ativa na luta por melhorias essenciais.

Ela recorda um passado em que o Santa Emília não contava com asfalto e o acesso à cidade demandava baldeações e esperas frequentes. Apesar do aparecimento de mercados, serviços e novos moradores na área, Maria observa que a infraestrutura do bairro ainda apresenta desafios persistentes ao longo dos anos. O problema dos pontos de ônibus, por exemplo, é um fator crítico, com a falta de assentos e coberturas impactando a experiência dos passageiros.

“Os ônibus aqui passam de hora em hora a partir das 8h. No entanto, à medida que outros bairros surgiram nas proximidades, os moradores do Santa Emília precisam atravessar três outros bairros antes de chegarem em casa”.

Ela também aborda a questão do asfalto, que falta em praticamente todo o bairro. Nas regiões onde a pavimentação existe, asfalto frequentemente cede a buracos. Por isso, Maria tem buscado soluções através da prefeitura, mas o progresso tem sido lento. Ela menciona ainda a situação crítica na Conde de Boa Vista, onde acidentes envolvendo animais têm ocorrido devido à falta de infraestrutura. Apesar dos esforços da Águas Guariroba em implantar saneamento de esgoto, a falta de recursos financeiros dificulta a pavimentação completa do Santa Emília.

“Todos os impostos que as pessoas pagam são recolhidos, mas não são investidos aqui no próprio bairro, são investidos por aí”, lamenta ela. No entanto, sua visão é otimista e motivada por um desejo profundo de ver o Santa Emília prosperar. Ela revela, no entanto, que recebeu informações de que o asfalto não abrangerá todo o bairro, gerando desapontamento na comunidade. 

“Sonho em ter um bairro melhor, sonho em ter um Santa Emília melhor e vou continuar lutando por isso”, enfatiza.

Ruas sem asfalto Santa Emília
Sisgran mostra que ruas do Santa Emília são prioritariamente de terra e sem asfalto (Reprodução, Sisgran)

75% de Campo Grande está pavimentada 

A falta de pavimentação em certos pontos da cidade é motivo de reclamação entre os moradores que buscam maior qualidade de vida, especialmente aqueles que moram nas zonas mais afastadas e lidam com a estrada de terra todos os dias. Nesse sentido, a Planurb explica que cerca de 70% a 75% está pavimentada, faltando, assim, cerca de 20% a 25% de ruas para serem asfaltadas.

No entanto, a obra também envolve a instalação da rede de esgoto, drenagem, instalação de rede de água e, por fim, vem a pavimentação asfáltica. Hoje, não se fala mais em asfaltamento sem antes cuidar de toda a estrutura por baixo do chão. Nesse cenário, Berenice explica o quanto as ações do Governo Federal estão de acordo com o Plano Diretor de Campo Grande. A intenção é, cada vez mais, proporcionar qualidade de vida às pessoas dentro da cidade. 

Berenice Maria Jacob Domingues, diretora- presidente da Planurb
(Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

Como exemplo, a diretora-presidente da Planurb cita o Programa Minha Casa, Minha Vida retomado com novos critérios. Dessa vez, uma das regras para a implementação das moradias é que elas estejam em áreas dotadas de infraestruturas urbanas básicas, como asfaltamento, drenagem, água, luz e energia elétrica. 

“Não é porque é uma pessoa que tem poucos recursos, que vou colocar ela para morar em qualquer lugar. Tem que prover essa habitação de uma qualidade urbanística, ambiental e social onde a pessoa tenha a disponibilidade dos serviços públicos que vai precisar. Além disso, quanto melhor a área for qualificada de infraestrutura, maior será o recurso que o Ministério vai aportar para o empreendedor executar o empreendimento”, celebra a gestora. 

A Planurb enxerga isso como um passo importante para o desenvolvimento da cidade, uma vez que a ideia da Amhasf é destinar moradores nos lugares com maior potencial de ocupação. Quanto mais pessoas vieram para Campo Grande, mais infraestrutura adequada a Capital precisa ter. 

“Se você constrói em locais onde não têm infraestrutura disponível, vai aumentando numa progressão geométrica o passivo, gera mais pobreza, violência, exclusão social. Quando coloca a pessoa perto do local de trabalho, com pavimentação, por natureza, ela já começa a se sentir melhor, com mais expectativa pelas coisas, mais oportunidades”.

Bairros periféricos e tendência de crescimento

As projeções são para o crescimento de Campo Grande, apesar da Capital ainda não ter atingido a marca de 1 milhão de habitantes, segundo dados do Censo Demográfico 2022. A Capital é o município mais populoso, com 942.140 habitantes, enquanto Mato Grosso do Sul chegou a marca de 2.833.742 pessoas. O Brasil tem 207,8 milhões de pessoas.

A população estimada em Campo Grande em 2021 era de 916.001 pessoas, o que representa alta de 2.85%. Já a população do Estado saiu de 2.839.188 no ano passado para as 2.833.742 em 2022, 0,19% a menos na comparação entre os períodos, ou seja, diminuiu 5.446 habitantes.

Nesse cenário, Geraldo da Secovi afirma que a tendência de crescimento da cidade é para a região leste, cuja distância ao centro é menor e tende a ser mais desejada pela população de melhor renda, no entanto, há variações. “Alguns anos atrás a região sul da cidade tinha uma tendência para maior adensamento. O que se viu nos últimos anos foi a região norte da cidade superar a todas outras”.

Fabio Nogueira, diretor de geoprocessamento da Planurb, também confirma a tendência de crescimento para a região leste da Capital.  Segundo suas pesquisas, a tendência de maior vetor de crescimento em Campo Grande se consolida na direção de Três Lagoas, especificamente no marco leste do zoneamento ecológico. Esse impulso de desenvolvimento é influenciado por empreendimentos, Rota Bioceânica e expansão de Araú em Inocência.

Fábio ainda exemplifica que os investimentos em Mato Grosso do Sul totalizam R$ 59 bilhões, sendo que R$ 52 bilhões estão direcionados exclusivamente para a região leste. A predominante caracterização industrial e as vantagens em termos de energia, logística e ferrovias naquela área desempenham um papel crucial nesse cenário de crescimento. A convergência desses fatores contribuirá para que a expansão se concentre nesse setor da cidade.

Fabio Nogueira - diretor de geoprocessamento da Planurb
Fabio Nogueira, diretor de geoprocessamento da Planurb (Marcos Ermínio, Jornal Midiamax)

R$ 540 milhões em obras

A prefeitura vai investir R$ 540 milhões em obras para as sete regiões de Campo Grande, como parte das comemorações dos 124 anos da Capital.

A prefeita Adriane Lopes pontuou que as obras acontecem em todas as regiões da cidade e que abrangem todas as áreas. “Vamos seguir com grandes entregas. Na saúde, estamos revitalizando nossas unidades, são 205 escolas revitalizadas. Também serão entregues à população obras de pavimentação e drenagem nas 7 regiões de Campo Grande, contemplando os anseios dos campo-grandenses”, exaltou Adriane.

Em relação às obras, será anunciada pavimentação do Jardim Noroeste, uma parceria entre a prefeitura de Campo Grande e o Governo do Estado que levará asfalto ao bairro após um investimento de R$ 9,4 milhões.

Drenagem e asfalto

Para o bairro Jardim Nashville, serão anunciadas obras de asfalto orçadas em R$ 5,4 milhões, outra parceria com o Governo do Estado. Ao todo, serão 4,2 quilômetros de pavimentação no bairro. Confira aqui todas as ruas que receberão asfalto na região.

Ainda em relação à infraestrutura, a prefeita ressalta sete obras já concluídas em Campo Grande. São elas: asfalto do Parque Dallas, drenagem e asfalto no Rita Vieira 1 e 2, Controle de Erosão no bairro Cidade Morena, asfalto e drenagem no Ramez Tebet, asfalto no complexo José Tavares, asfalto e drenagem no Jardim Canguru e asfalto no Jardim Tarumã.

Outras obras estão em andamento, entre elas: obras de asfalto nos bairros Nova Campo Grande, no Ramez Tebet, no Jardim Noroeste e na região da Lagoa Itatiaia. Ao todo, as obras somam R$ 80 milhões em investimentos.

Habitação

Também há obras em andamento no setor da habitação. O Condomínio Residencial Belas Artes, com 498 apartamentos na região do bairro Cabreúva, segue sendo construído. Deste total de unidades, 80 serão destinadas para locação social.

A Prefeitura de Campo Grande autorizou a doação de terrenos para construção de unidades habitacionais verticais no Jardim Nashville, parcelamento do bairro Alves Pereira. Segundo a publicação, as unidades serão doadas para famílias beneficiárias de programas sociais.

Parque Tecnológico

A implantação do primeiro Parque Tecnológico integra as ações de foco do município. O espaço está previsto para ser lançado em 15 de setembro com recurso para de R$ 7,3 milhões.

Segundo a prefeitura, o Parque Tecnológico, conhecido também como Parktec CG, é um projeto inovador que vai resultar numa grande transformação digital da cidade. A previsão de entrega do espaço é o dia 15 de setembro de 2023 com uma estrutura para desenvolvimento empresarial, econômico, social e tecnológico.

Centro Integrado de Saúde da Mulher

Entre as realizações está o Centro Integrado de Saúde da Mulher. Como gestora mulher, Adriane vai lançar o Centro de Saúde com profissionais integrados para atendimento feminino. “Nossa ideia era lançar junto o da criança, mas por uma questão técnica não foi possível. Mas a nossa ideia é dar forma também a este projeto”, esclareceu Adriane.

Ruas que serão pavimentadas

Dos R$ 9,4 milhões de recursos, R$ 5,4 milhões serão usados para levar obras de pavimentação e drenagem a 4,2 quilômetros de ruas, sendo elas:

1- Olímpio Escobar;

2- Olinda Garcia de Oliveira;

3- Clélia Santos Rosa;

4- Hideo Akamine;

5 – Maria Anunciação Rodrigues;

6- Ronald de Carvalho;

7 – Casemiro Guilhermo Soria;

8 – Francisco Otaviano;

9 – Osmar de Andrade;

10 – Paulo Soares Valentin;

11 – Maria José de Souza;

12 – Chames Fraiha Paré;

13 – Michel Calarge;

14 – Hipólito Cassiano Gavelan;

15 – João Trivelato;

16 – Florestal Fernandes;

17 – Maria Chizarian.

Além disso, mais R$ 3,9 milhões serão usados para pavimentar e drenar a Rua dos Gonçalves, que será prolongada até a Avenida Guaicurus em 1,2 quilômetro de obra.

Bairros periféricos e o desejo da equidade urbana

Dessa forma, fica evidente que os bairros periféricos de Campo Grande têm se destacado como opções atrativas para muitos moradores em busca de moradias mais acessíveis. Impulsionados pelos preços convidativos e pela possibilidade de se integrarem ao crescimento urbano, esses bairros periféricos enfrentam desafios significativos na busca pela equidade urbana. A relação entre a falta de infraestrutura, como o asfalto, e a economia na aquisição de terrenos torna-se um fator-chave na determinação dos valores imobiliários nessas áreas. Essa dinâmica, alinhada com as diretrizes do Plano Diretor e os investimentos futuros da prefeitura, demonstra a importância de um olhar atento e abrangente sobre as transformações urbanas.

Por isso é crucial reconhecer que o crescimento urbano deve ser tratado como uma questão econômica, de aspecto social e ambiental. A busca por uma cidade mais compacta e policêntrica, que priorize a proximidade entre moradia, trabalho e serviços essenciais, reflete não apenas em uma distribuição mais equitativa dos recursos, mas também na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. 

Assim, à medida que Campo Grande continua a evoluir, a equidade urbana também é um desejo constante para criar um ambiente onde todos os cidadãos possam desfrutar de uma vida digna.