Campo Grande tem 182 ônibus ‘vencidos’ prestes a completar 10 anos de idade rodando. Nesta quarta-feira (14), o Consórcio Guaicurus anunciou que vai colocar apenas 71 ônibus novos para rodar em Campo Grande.

O Jornal Midiamax vem denunciando o descumprimento contratual por parte dos empresários de ônibus em Campo Grande, que mantêm frota velha e sucateada. A idade média dos ônibus que rodam na cidade ultrapassava em 2022 os 8 anos, enquanto a concessão permite idade média de 5 anos.

Apesar das denúncias, as empresas seguem descumprindo contrato sem punição por parte da Agereg (Agência de Regulação de Campo Grande) – responsável por fiscalizar o cumprimento do contrato -, dos vereadores de Campo Grande e do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul).

Na Câmara de Campo Grande, vereadores já barraram ao menos três tentativas de abertura de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para apurar as irregularidades no serviço. Além disso, mesmo com denúncias de precariedade e prejuízos à população, os vereadores aprovaram no início do ano isenção milionária de impostos, que somam mais de R$ 11 milhões ao longo do ano.

O presidente da Agereg, Odilon Júnior, chegou a defender os empresários do transporte coletivo, concordando com a retirada de 140 ônibus de circulação nos últimos anos por parte do Consórcio Guaicurus.

A prefeitura de Campo Grande também justificou que a redução se deu por conta de queda no número de passageiros. Apesar disso, superlotações e atrasos são verificados diariamente pelos passageiros.

Lucro fácil e sem punição

Ao mesmo tempo em que irá receber cerca de R$ 37 milhões em verba pública este ano – repasses municipais, estaduais, federais e isenção de impostos -, o Consórcio Guaicurus também conseguiu se livrar de punição por descumprir o contrato de concessão.

Além disso, perícia judicial analisou os balanços financeiros e constatou que o Consórcio Guaicurus teve lucro de R$ 68 milhões em 5 anos.

População vai continuar enfrentando atraso e superlotação

Porém, os novos ônibus vão renovar apenas 15% da frota atual de 450 ônibus. Assim, outros 111 ônibus vencidos continuarão circulando em Campo Grande.

Na prática, muda pouca coisa para a população, já que não haverá criação de novas linhas de ônibus. Os novos veículos apenas vão substituir 71 dos ônibus velhos que atualmente circulam em Campo Grande. A superlotação e demora, principalmente nos bairros, vai continuar.

A frota tem idade média de 7,7 anos, acima do ideal estipulado em contrato, que é de 5 anos. Porém, as empresas de ônibus não informaram se, com a renovação, a idade da frota ficará dentro do que estipula o contrato.

O Consórcio Guaicurus ainda mantém 182 ônibus com idade igual ou superior a dez anos, que devem ser substituídos ainda em 2023. Porém, não disse como e nem se vai substituir os 111 ônibus que vão completar uma década este ano. Os 71 serão descontados desse total a substituir.

Superlotação e falta de linhas continuam

Apesar do anúncio de novos ônibus para Campo Grande, a população vai continuar enfrentando ônibus superlotados e longas esperas. Isso porque o Consórcio Guaicurus apenas vai substituir os ônibus velhos.

Além disso, a população também não terá nenhum benefício em relação a conforto. Já que os ônibus novos são simples, sem ar-condicionado ou articulados, o que proporcionaria maior espaço.

Na prática, a população seguirá enfrentando os mesmos problemas apesar de ter que desembolsar R$ 4,65 por passagem. Com sorte, poderá pegar um ônibus novo na linha, o que deve melhorar problemas de manutenção.

Empresa afirma que adquiriu ônibus com recursos próprios

Durante o anúncio dos novos ônibus, o diretor-presidente do Consórcio Guaicurus, João Rezende, afirmou que cada ônibus custou R$ 730 mil e que todos foram custeados com recursos próprios da empresa.

Considerando o valor de cada ônibus, os 71 novos devem ter custado em torno de R$ 51 milhões para a empresa.

Apesar de as empresas de ônibus que atendem a Capital receberem até R$ 37 milhões somente este ano de repasses municipais e estaduais, os passageiros devem continuar com muitos veículos ‘caindo aos pedaços’.

Consórcio Guaicurus reduziu frota em 140 ônibus

O Consórcio Guaicurus tirou de circulação 140 ônibus nos últimos três anos, passando de 552 em 2019 para 412 em 2022.

Em contrapartida, Campo Grande ganhou 36 mil novos moradores, saltando de cerca de 906 mil em 2019 para 942 mil no ano passado, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O número está abaixo do mínimo estipulado em contrato, que é de 575 ônibus em circulação. Enquanto isso, passageiros precisam aguardar mais de 1 hora para conseguir um ônibus, dependendo do horário e da linha.

Apesar de denúncias sobre o serviço prestado em Campo Grande, o Consórcio Guaicurus vai embolsar R$ 32 milhões em verbas públicas somente este ano, além dos R$ 31 milhões que recebeu no ano passado.

E, diferente do alegado pela diretoria da concessionária, as empresas de ônibus tiveram lucro líquido de R$ 68 milhões somente nos primeiros sete anos de concessão – entre 2012 e 2019.