Com reforma pendente e usado por cerca de 30 mil pessoas, o Terminal Bandeirantes é parte da rotina diária do trabalhador campo-grandense que vive na Região Oeste da Capital e precisa oferecer o mínimo de conforto e bem-estar para os passageiros dos ônibus de Campo Grande.

Mas como está a infraestrutura do terminal? Será que atende aos requisitos de uso e é um bom local para se estar? Quem responde a essas e outras perguntas são aqueles que mais entendem do assunto e podem falar com propriedade: seus próprios usuários.

São inúmeras reclamações, que partem, inclusive, dos próprios funcionários, que amargam em ver o local onde trabalham se despedaçando e colocando em risco a vida de todos. O terminal foi parcialmente reformado, mas a obra está parada há mais de 1 ano e meio.

Conforme a prefeitura, cerca de 80% do projeto de reforma já foi executado, mas enquanto não é totalmente finalizada, o ‘novo’ já começa a dar sinais de sucateamento.

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Fachada do Terminal Bandeirantes (Foto: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

O Midiamax publica uma série de reportagens sobre a situação dos terminais de ônibus de Campo Grande. Confira as matérias sobre o Júlio de Castilho e o Moreninhas.

Banheiros são unanimidade

O ponto crítico, que todos os usuários do transporte coletivo reclamaram, são os banheiros. A unanimidade tem fundamento já que os sanitários de terminais são famosos pela precarização e má higiene.

Portas enferrujadas (quando há uma), vasos inutilizados, pichações e mobiliário vandalizado são a realidade no terminal. Até funcionários, que passam o dia no local, precisam conviver com o cheio desagradável e a precariedade dos sanitários.

banheiros
Sanitários não têm tampa e nem assento (Fotos: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

Antigamente, os funcionários tinham seus próprios banheiros. Porém, segundo apurado pelo Jornal Midiamax, o que antes era somente dos colaboradores foi liberado – após reforma que está paralisada – para todos os usuários, que, por vezes, não têm o zelo necessário.

Em um dos banheiros masculinos, não há nem mictórios, enquanto no outro, eles estão interditados. No feminino, o cheio ruim (mesmo com o sanitário tendo acabado de ser limpo), o encardido nas pias e a falta de assento em sanitários provocam ojeriza nas usuárias.

banheiro masculino
Não há mictórios disponíveis (Foto: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

“Os banheiros são horríveis. Eu entrei e quase cai para atrás; quase desmaiei quando entrei. Mas também são os ‘relaxados’ que estão dentro do terminal e não dão descarga”, opina a autônoma Valdete de Paula, de 54 anos.

Servidora do local defendeu a limpeza do terminal, dizendo que a depredação é feita pelos próprios usuários, que até inutilizam os sanitários e torneiras. Juntando isso com a falta de manutenção da prefeitura, o resultado só seria o caos.

Para a auxiliar administrativa Jeniffer Amaral, de 19 anos, a situação poderia ser ainda pior. “Esse aqui ainda está tranquilo, comparado a outros, como o Aero Rancho”, cita à reportagem. “A situação melhorou bastante. Antigamente era bem ‘precariozinho’. A estrutura mudou bastante, era bem mais precário”, compara a jovem.

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Vaso sanitário inutilizado (Foto: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

Criadouro de dengue

Outro ponto crítico e mais urgente saiu dos próprios funcionários, que são colocados em risco por conta de uma pequena vala que há semanas acumula água, na entrada do terminal, e está servindo como criadouro do mosquito-da-dengue, o Aedes aegypti.

“A gente já avisou a [Secretaria de] Saúde, mas não deram bola”, diz um colaborador. Além da dengue, o condomínio de Aedes pode ser responsável pela zika e chikungunya.

“Todo mundo aqui está correndo risco”, reclama ele ao Jornal Midiamax. Uma caixa de gordura, próxima à vala, também está destampada para o deleite do inseto.

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Água parada há tempos serve de criadouro para o Aedes (Fotos: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

“Alguém ainda vai cair”

Uma tragédia anunciada se forma nas beiradas da plataforma de transbordo, que estão quebrando e colocando em risco a vida dos passageiros ao esperar ou entrar no ônibus. Caso não se atentem, usuários podem enroscar o pé na barra de ferro e cair – até mesmo na frente de um ônibus.

“Olha isso”, mostra um funcionário. “Alguém ainda vai cair. Uma moça pode enroscar a rasteirinha; alguém com calçado aberto”, completa ele, indignado, além de afirmar que o Bandeirantes não recebe manutenção há cerca de 6 meses.

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Plataforma danificada é risco para passageiros (Foto: Nathalia Alcântara/ Jornal Midiamax)

Com a reforma do terminal, as placas de identificação de cada ônibus foram removidas e não foram recolocadas até hoje. No local, folhas sulfite com os números – colocadas pelos próprios servidores – fazem o ‘papel’ de identificação.

Além disso, em dia de chuva forte, a falta de manutenção nas calhas faz com que fiquem sobrecarregadas e a água forma cascatas dentro da área coberta do terminal.

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Plaquinhas de identificação das plataformas (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

A demora de ônibus também foi pontuada como um problema. “O ônibus que é meio demorado para o São Conrado. Tinha que ter mais ônibus e melhores para as linhas. Tem cada pau velho que eu te falar; só Jesus na causa”, opina a aposentada Edinice Almeida, de 64 anos.

A percepção do tempo pode ser algo relativo, já que o recepcionista Luiz Eduardo, de 16 anos, considera o Bandeirantes um terminal rápido. “É um terminal bem movimentado, mas é bem rápido também. Os ônibus chegam com bastante rapidez. Pelo menos eu, que pego o 81, chego ‘rapidão’ no meu trabalho”, diz.

Se para a estrutura faltam adjetivos, para os funcionários é só elogios. “Tem bastante atendente, se você chegar e perguntar para qualquer um alguma dúvida eles vão saber te responder, te encaminhar”, relata Luiz. Servidores esses, que colocam água e ração para animais que moram na rua.

ração
Pelo menos, animais de rua têm ‘sua vez’ no terminal (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

“Já passei por situações bem constrangedoras”

Apontada pela insegurança, a “invasão” de moradores de rua, que pedem dinheiro aos usuários do transporte, é outro problema crônico. Enquanto estava no local, o Jornal Midiamax presenciou, em poucos minutos, duas pessoas em situação de rua adentraram o local.

“Os moradores de rua vêm e te afrontam. Não deveriam permitir a entrada aqui. Eu já passei por situação bem constrangedora com um morador de rua sentado ao meu lado”, conta a cuidadora de idosos Marcilene Colman, de 52 anos. “Acho que está faltando muito o que fazer nesse terminal”, completa ela.

Há um posto da GCM (Guarda Civil Metropolitana) na entrada do terminal, mas que não é muito eficaz, conforme relato de servidor. “Não fazem ronda, só ficam no ar-condicionado”, critica.

pedintes moradores de rua
Usuários reclamam do assédio de pedintes no terminal (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Bebedouros sem água, luz sem lâmpada e muita sujeira

Poderia ser um trecho da canção ‘Fico Assim Sem Você’, da cantora Adriana Calcanhoto, mas de romântica a situação não tem nada. Há bebedouro sem água – ou com fluxo muito baixo – e luzes que não têm lâmpada.

Pontuada também pelos usuários e constatada pelo Jornal Midiamax, a sujeira no terminal deixa o ambiente insalubre e nada confortável. “Tem muita sujeira e desperdício de água. Deveria ser melhor em termos de higiene e a em permitir moradores de rua entrar aqui para proteger a gente”, opina Marcilene.

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Sujeira deixa ambiente insalubre (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Embalagens pelo chão e acumuladas nos cantos e valetas de água, cacos de vidros espalhados, água suja e chorume fazem parte do dia a dia da população que transita pelo terminal.

O motivo pode ser a falta de servidores da limpeza, já que o terminal – que conta com três plataformas de transbordo e quatro banheiros -, possui apenas duas colaboradoras de serviços gerais (uma de manhã e outra à tarde), conforme apurado no local.

“Parte de limpeza e manutenção deveria ser melhor visto. As coisas que é de uso da gente, os bebedouros; jogam erva por aí”, finaliza a cuidadora de idosos.

bebedouros
Há luzes sem lâmpada (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Questionada sobre os problemas relatados, a Prefeitura de Campo Grande informou que a manutenção dos terminais é realizada periodicamente, entretanto, os mesmos sofrem com contínuas ações de furto e vandalismo, como pichações, quebra de louças sanitárias, bebedouros, torneiras, fiação elétrica, entre outros danos causados dentro dos terminais.

“Uma equipe de manutenção será encaminhada até o local para verificar o fato relatado e providenciar os reparos necessários”, diz em nota.

Ainda de acordo com o Executivo Municipal, os 80% concluídos equivalem ao:

  • fechamento do terminal (gradil);
  • execução elétrica e aterramento;
  • execução hidráulica;
  • instalação louças, metais e acessórios nos banheiros;
  • substituição pisos e azulejos cerâmicos dos banheiros;
  • remoção pastilhas de todo terminal e execução reboco no lugar para receber pintura;
  • recuperação forros PVC;
  • execução piso tátil;
  • construção guarita;
  • construção bicicletários;
  • substituição dos bancos e lixeiras;
  • reparo cobertura e calhas;
  • pintura geral Terminal;
  • reparo do piso plataforma e implantação de novos bebedouros acessíveis.

Empresa desistiu de reforma

O último anúncio de investimentos nos terminais de ônibus de Campo Grande aconteceu em agosto de 2019, ainda na gestão Marquinhos Trad (PSD). Na época, o município previa reformar os terminais Aero Rancho, Nova Bahia, Morenão, General Osório, Moreninhas e o ponto de integração Hércules Maymone.

Em 2020, o município anunciou o começo de obras em outros três terminais: Júlio de Castilho, Bandeirantes e Guaicurus. A reforma nas plataformas teve investimento de R$ 5,5 milhões e previa, além de postos da Guarda Municipal, tomadas para recarga de celular, internet e portões para fechar os terminais à meia-noite.

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Chorume do lixo divide espaço com usuários (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

Para os seis terminais, a previsão da prefeitura de Campo Grande era gastar R$ 2.704.201,2 milhões nas obras, mas houve aditivo no contrato e o valor final saltou para R$ 3.337.653,21 milhões. Parte dos recursos eram federais, do PAC Mobilidade. A licitação foi finalizada em fevereiro de 2020.

Meses se passaram e a prefeitura celebrou contrato com a empresa Trevo Engenharia, em outubro de 2020, por intermédio da Agetran (Agência Municipal de Trânsito), responsável pelos terminais. A previsão era que tudo ficasse pronto até agosto de 2021, quando Campo Grande completaria 122 anos. O aniversário chegou, passou e nada aconteceu.

A empresa contratada pela prefeitura desistiu da obra em julho de 2021 e, ainda naquele ano, a Agetran anunciou que o município preparava nova licitação para retomar a reforma dos terminais.

Mais 18 meses se passaram e até o momento nenhuma nova licitação com foco em reforma de terminais foi lançada pelo município. O Jornal Midiamax entrou em contato com a prefeitura para mais detalhes sobre o planejamento das reformas nos locais e aguarda retorno.