Mato Grosso do Sul tem 46 anos de criação, enquanto ela tem 40 de idade. Nascida no município de Aral Moreira, foi morar em ainda bebê. Cresceu junto ao estado jovem e foi abrindo caminhos de forma independente, até ocupar o espaço que ambicionava e se tornar uma das poucas e principais diretoras do cinema sul-mato-grossense da atualidade.

A história de Marinetti faz parte da série de reportagens especiais que o Jornal Midiamax publica nesta semana de comemoração e reflexão sobre o Dia da Mulher, celebrado no dia 8 de março. Confira aqui a primeira reportagem da série.

Marinetti Pinheiro é uma mulher cineasta, como é bom ressaltar numa época em que os altos escalões da indústria cinematográfica ainda são dominados por homens. Ela foi aproveitando as oportunidades que surgiram, inclusive a de se profissionalizar estudando cinema em como bolsista da Escuela Internacional de Cine y Televisión, fundada pelo autor de “Cem anos de solidão” e vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, Gabriel Garcia Márquez.

Antes disso, se formou em e publicou o livro “Salas de sonhos – Histórias dos cinemas de Campo Grande”, em que reúne informações e memórias que estavam espalhadas em diversas fontes bibliográficas ou que nunca haviam sido contadas. Depois dele, ainda veio o “Salas de sonhos II – Memórias dos cinemas de Mato Grosso do Sul” para dar continuidade ao trabalho de resgate histórico.

A primeira rede comercial de cinemas se instalou na capital sul-mato-grossense somente nos anos 2000. Havia pouquíssimas salas de cinema na cidade na década de 90, que foi quando Marinetti se apaixonou pela sétima arte. O contato mais intenso com esse universo acabou acontecendo em uma produtora audiovisual onde trabalhou para pagar a faculdade. Lá, assistiu a muitos clássicos nas horas vagas, um privilégio de poucas pessoas em tempos analógicos.

Primeira dupla sertaneja feminina de MS, Beth e Betinha estão em um dos filmes da cineasta (Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax)

“Tem que ter estômago”, reconhece Marinetti, ao falar ao Jornal Midiamax sobre ser uma mulher e estar em qualquer posição de destaque hoje em dia. Particularmente, o gênero nunca a obrigou a ter que recuar ou disputar espaço com um homem e sair perdendo injustamente. Ela também afirma não se lembrar de ter enfrentado situações machistas enquanto já dirigia profissionalmente suas cenas.

“Só teve uma vez…”, ela começa. “Uma vez, em Cuba, fazíamos um filme sobre homens cubanos que procuravam mulheres imigrantes para se casarem, propondo que em troca elas conseguissem o direito de permanecer naquele país. Como eu também não era cubana, um deles me colocou em uma situação constrangedora ao saber disso e me fazer uma pergunta”. Desconfortável, a então estudante cedeu o lugar de diretora experimental ao colega de curso e teve que assumir uma posição secundária no trabalho. Felizmente, não passou por isso outras vezes.

Inspirada por mulheres em toda parte

A mãe analfabeta foi a primeira e maior motivação para que a Marinetti chegasse ao cinema, de alguma forma. “Queria muito escrever um livro para que ela se orgulhasse e a incentivasse a aprender a ler. E assim nasceu o ‘Sala dos Sonhos’ como trabalho de conclusão do curso de jornalismo sobre as salas de cinema”, conta.

Glorinha é uma das inspirações de Marinetti (Foto: Elvio Lopes/Divulgação)

A professora e escritora Maria da Glória de Sá Rosa, a Glorinha, foi uma inesquecível inspiração. Durante a graduação, ela ouviu da referência várias histórias sobre as estratégias para assistir a filmes censurados pela Ditadura Militar em Mato Grosso do Sul. Dali, se encantou ainda mais. “Era tudo escondido. A Glorinha falou uma frase que nunca esqueço: ‘o cinema é a janela para o mundo’. Pois assim era naquele período, o cinema era a única oportunidade de ver além do que acontecia no resto do mundo em meio à repressão”, relembra.

Quando selecionada para estudar em Cuba, Marinetti também contou com o olhar inclusivo de uma mulher que dirigia a escola de cinema e televisão. “Outros estudantes brasileiros haviam estudado lá, mas, até então, nenhum sul-mato-grossense. Essa diretora estava inclinada a selecionar alguém do nosso estado e queria que essa pessoa fosse mulher, para dar mais oportunidades para nós. Eu fui bem na prova e deu certo”, relata. Já a filha que a cineasta tinha antes de estudar fora do país, foi a principal motivação para concluir o curso e voltar ao Estado.

Não por acaso, o primeiro filme profissional de Marinetti recontou a trajetória de uma mulher, a cantora Delinha. A artista ícone da música sul-mato-grossense foi retratada na linha do tempo, primeiro na conquista da fama de dama do rasqueado. Depois, como esposa do parceiro de dupla Délio e mãe de seus filhos. “Em uma parte do filme, pergunto para ela se, além de cuidar da casa e fazer shows, ainda precisava engomar a roupa da dupla para que se apresentassem impecáveis. Era uma coisa normal na época, mas achei interessante trazer isso”, conta. Outra escolha de Marinetti como cineasta foi Délio desaparecer aos 40 minutos da produção, para que a protagonista fique no centro até o fim.

Futuro do cinema pós-pandemia em MS

A pandemia de covid-19 certamente impactou a produção cinematográfica em Mato Grosso do Sul, justo no momento em que o primeiro curso de Audiovisual foi aberto pela UFMS, a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. A opinião de Marinetti é que, passado esse período, uma nova safra de cineastas, especialmente com um grupo formado por mulheres, vai surgir e dar novo sentido ao cinema no Estado. “O que precisamos para isso é ter mais profissionalização. E isso está acontecendo”, acredita.

Ela prevê que as próximas produções sigam a tendência de contar histórias nunca resgatadas no Estado. “Mato Grosso do Sul é um estado jovem e ainda tem muito o que se descobrir. Personalidades, lugares, temos muito material para o cinema”, aponta.

Em relação às mulheres como ela, espera que sejam içadas do posto majoritário de meras auxiliares no mercado audiovisual e comecem a ocupar cada vez mais as funções de narrar e dirigir obras.

Feitos da carreira

Por sete anos, Marinetti ocupou a cadeira de diretora do MIS (Museu da Imagem e Som) de Mato Grosso do Sul. Entre seus feitos como gestora estão realizar mostras especiais, exibir gratuitamente filmes que ficam de fora do circuito comercial, ampliar ações educativas junto às escolas públicas e abrir o local à noite por um horário alternativo para o público conferir as atrações.

Marinetti ao lado do cartaz de outra produção que assina, a ficção “Ano que vem tem mais” (Foto: Nathalia Alcântara)

Suas principais produções cinematográficas são: “A Dama do Rasqueado”, “Beth e Betinha”, “Sala dos Sonhos” e “Ano que vem tem mais”. Atualmente, ela trabalha em um documentário que vai contar a história dos fotógrafos lambe-lambe de Campo Grande e faz Mestrado em Cinema Latino-Americano na Universidade de Havana.