Foi-se o tempo em que a Morada dos Baís era considerada point de encontro da sul-mato-grossense. Localizado na principal avenida de Campo Grande, o casarão amarelo já foi palco de bandas culturais, manifestações artísticas, de encontros culinários e preservava acervo histórico da família Baís. No entanto, espaço passou por empecilhos desde a retomada da gestão da prefeitura. Desde a saída dos artesãos, o casarão está fechado na Capital e tem acúmulo de lixo. Sem planos concretos por parte da gestão municipal desde 2021, a Morada dos Baís se tornou um ‘elefante branco’ em desuso na cidade.

O cenário encontrado pelo Jornal Midiamax durante visitas na manhã desta terça-feira (21) é preocupante. Com as portas e janelas fechadas, a Morada estava completamente vazia e possuía acúmulo de lixo dentro e fora da casa. Vale ressaltar que o espaço estava sendo utilizado para abrigar o artesanato durante a reforma da Casa do Artesão, em Campo Grande. No entanto, os artesãos retornaram para o prédio original no último domingo (19) e casarão está sem qualquer atrativo para o público.

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Portas e janelas completamente fechadas no local (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Gestão municipal

Os percalços com a utilização da Morada dos Baís começaram em 2020, quando espaço precisou interromper sua programação artística e cultural devido à pandemia de Covid-19. Na época, ponto turístico estava sob administração do Sesc-MS, que precisou transferir para a Sectur (Secretaria Municipal de Cultura e Turismo).

A decisão foi tomada após reunião entre o Sesc e a Sectur em maio de 2021, após perceberem os rumos da Morada dos Baís frente às dificuldades da pandemia.

“Infelizmente a pandemia da COVID-19 trouxe consigo alguns obstáculos, principalmente no que concerne à realização de eventos destinados à participação do público nos locais em que há concentração de pessoas, impossibilitando o desenvolvimento das ações de cultura propostas para a Morada dos Baís”, dizia a nota.

Na época, o então secretário Max Freitas afirmou que a prefeitura planejava próximos projetos.

“A Morada dos Baís é um ponto turístico histórico da capital. O Sesc zelou e administrou de uma forma única por muitos anos. Vamos agora planejar os próximos passos. Lá continuará sendo a Morada da Cultura. E mesmo em tempos de pandemia, vamos realizar eventos seguindo todos os protocolos de biossegurança, como exposições, eventos gastronômicos, cursos on-line e muito mais”, disse o secretário à reportagem em 2021.

A Morada dos Baís foi oficialmente devolvida à prefeitura em 18 de junho do mesmo ano e, apesar das promessas de retorno de eventos, a prefeitura não deu parecer definitivo sobre a retomada de eventos desde então.

Recebeu artesanato

A Sectur começou a restauração da pintura da Morada dos Baís em outubro de 2021. Na época, os artesanatos já estavam sendo abrigados no prédio amarelo durante a revitalização da Casa do Artesão.

O acervo da Lídia Baís permaneceu no local por um tempo, aberto ao público interessado em conhecer um pouco mais sobre a história da artista visual, que é referência no mundo todo.

A secretaria informou ao Midiamax, ainda em 2021, que a nova Morada dos Baís serviria como ponto estratégico da cultura no Centro da Capital e fomentaria todos os segmentos. O prédio estaria apto a receber o Centro Municipal de Referência em Artesanato, permanente de artistas regionais, gastronomia e shows musicais após retomada.

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(Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

“Recebemos com muito carinho este prédio histórico da nossa cidade, que fala tanto do patrimônio histórico-cultural de Campo Grande, e pretendemos seguir com as ações no espaço, com a mesma excelência que o Sistema S ofereceu à população. Importante enfatizar que o espaço vai sim abrigar o museu da Lídia Baís e, como não poderia deixar de ser, receberá exposições de diversos nomes campo-grandenses”, justificou o secretário municipal de Cultura e Turismo na época.

Em 2022, o Jornal Midiamax voltou a questionar a prefeitura, mas a previsão de retomada desses eventos citados acima continuou apenas na expectativa da população.

“Não podemos prever infelizmente qualquer ação futura, pois o prédio segue em reforma”, informou a secretaria em fevereiro de 2022.

Sem eventos, artesanato e acervo da família Baís

Muita coisa mudou ao longo dos três anos que a Morada dos Baís esteve praticamente de portas fechadas. Após 14 meses de restauro, a Casa do Artesão abriu as portas para a população no último domingo (19). Dessa forma, a principal utilidade da Morada dos Baís até então, que era a preservação e vendas das peças, já foi retomada pelo prédio competente.

Além disso, o casarão da família Baís também perdeu o acervo de Lídia Baís justamente pelo espaço estar fechado. Atualmente, as obras e artefatos da artista sul-mato-grossense estão sob a responsabilidade do Sesc-MS e da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

Ao Midiamax, o Sesc explicou que possui obras da artista. Equanto a instituição ainda estava na Morada dos Baís, as obras de Lídia compunham o acervo do museu. Assim, Sesc e Governo de MS cederam os seus respectivos acertos à prefeitura para que fizesse parte da exposição.

“Após a saída do Sesc do prédio, retiramos as obras que eram nossas e as que estavam sob tutela da Prefeitura foram devolvidas por eles ao Governo do Estado. Atualmente, o acervo da Lídia Baís que é de propriedade do Sesc está guardado no Sesc Cultura e não está exposto ao público porque precisamos de um espaço para isso”, informou, por meio de nota, o Sesc.

A também confirmou ao Midiamax que todas as obras e artefatos presentes no casarão foram levados para o “Marco [Museu de Arte Contemporânea de MS] para conservação, justamente porque a Morada está fechada”.

Abandonada e vazia: qual será o destino da Morada dos Baís?

Essa é a grande dúvida que assola os moradores de Campo Grande, especialmente aqueles que viveram as visitações ao museu e participaram dos eventos gratuitos promovidos pelo Sesc.

Durante visita, o Jornal Midiamax constatou que espaço está de fato fechado. Além disso, apesar de ter passado por duas reformas entre 2020 e 2021, a primeira tendo custado R$ 333.037,17, conforme publicado no Diogrande, a fachada já apresenta estragos e falta de manutenção.

A famosa pintura amarela da frente, por exemplo, já está manchada e até lascada em alguns pontos. As madeiras das portas e janelas também estão lascadas. Basta olhar para o interior do local para encontrar acúmulo de lixo.

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Acúmulo de lixo em prédio histórico (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

Enquanto isso, as históricas escadarias são utilizadas apenas por pessoas que aguardam motoristas de aplicativo ou decidem se sentar para descansar, sem ter noção da imensidão cultural perdida existente lá dentro.

Uma idosa que passava pela região durante a visita da equipe de reportagem, inclusive, ficou surpresa ao ser informada que espaço estava fechado. Chateada, mudou o rumo para a Casa do Artesão para comprar outros itens.

O que diz a prefeitura

A prefeitura de Campo Grande foi acionada a se posicionar sobre as informações elencadas nesta reportagem. O Jornal Midiamax voltou a questionar sobre a previsão de abertura da casa e o cronograma de eventos. Além disso, solicitou posicionamento sobre as rachaduras na fachada e o acúmulo de lixo. O Jornal Midiamax aguarda o posicionamento e reitera que espaço segue aberto para manifestações.

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