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Florença, a capital da Toscana, a bela cidade das artes e do amor

Brunetto narra suas vivências na cidade dos artistas

Guilherme Cavalcante Publicado em 14/09/2016, às 09h00

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Brunetto narra suas vivências na cidade dos artistas

Quase na virada do Século XX, Rainer Maria Rilke chegou a Florença. Ainda não era o gigante da poesia que viria a se tornar, era um jovem poeta apaixonado por uma mulher mais velha, comprometida e já uma escritora renomada. Nessa cidade, campo das artes, começa a escrever um diário para contar a ela – a amada, a amante, a confidente e interlocutora fundamental com a qual foi construindo sua obra –  sobre a viagem, para que ela pudesse acompanhar o que ele via. Assim nasceu o Diário de Florença. O que pretendo é mais ou menos isso: que vocês vejam Florença a partir de meus olhos.

Estive em Florença duas vezes, uma no verão e outra na primavera. Sempre ela é lotada de gente, com grandes filas para entrar nos museus, restaurantes, igrejas, trens. Mesmo com todas essas dificuldades, uma pessoa não pode ir à Itália sem ir a Florença. Na primeira vez que fui, acordei às cinco da manhã para andar pela cidade vazia, tirar fotos do rio Arno,  ficar na fila para entrar na Galeria Uffizi e ver, dentre centenas de quadros importantes, o Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli.

Rapto das sabinas, de Giambologna, na Praça della Signoria (Foto - Pixabay)Nessa primeira vez fui em um verão, fiquei mais de uma hora em uma fila que contornava quarteirões, para entrar na Galeria da Academia de Belas Artes e ver a estátua de Davi, de Michelangelo. Desisti antes de chegar lá, sabendo que voltaria em breve para vê-la. Voltei. Contentei-me em contemplar a réplica da estátua original na Praça della Signoria. Nessa praça há réplicas de três estátuas belíssimas: o Davi, de Michelangelo, o Rapto das sabinas, de Giambologna e Netuno, de Bartolomeo Ammannati. É uma praça das artes. Nela escutei um concerto de um músico polaco que tocava lindamente violino. Comprei seus CDs. Vez ou outra, quando sinto saudades da cidade, coloco suas músicas e lembro-me de Florença e da Praça della Signoria.

O poder da Família Médici, durante trezentos anos, transformou Florença em um resplendor do renascimento. É a cidade de Bruneleschi, Michelangelo, Dante Alighieri, Giorgio Vasari, Giambologna, Leonardo Da Vinci (que nasceu numa cidade vizinha), Sandro Botticelli, Ghirlandaio. São tantos os nomes de artistas que deixaram sua marca para a história, praticamente todos os nomes do renascimento que estudei na escola, estão inscritos na história da cidade, em sua arquitetura, museus, igrejas e praças.

Rilke escreve que “a cidade espraia-se na harmonia dos tons marrons e cinza, e as cores da noite já atingem as montanhas de Fiesole.” Nesse Diário de Florença, diz que a poesia deve ser lida à beira de um caminho, com um pouco de floresta e à luz do sol de um verão. Assim, cada poema conserva seu significado: o frescor, o perfume e o brilho. Mas lembra que em Florença não têm florestas, então as igrejas são como florestas. E em Florença tem muitas, e são lindas e cheias de obras de arte. Na Santa Maria Novella está o quadro O nascimento de Maria, de Ghirlandaio.

Foi com esse Diário de Florença, de Rilke, que cheguei à cidade. Com o olhar romântico, artístico, e apaixonado, escreveu esse diário que foi para mim um guia de viagem. Mas se vocês preferirem outra referência sobre a cidade, sugiro assistirem ao filme “Uma janela pra o amor”, do diretor James Ivory. Nele, os atores Julian Sands e Helena Bonhan Carter se olham, apaixonadamente, de uma janela de um andar alto e, além dos dois, vemos a cúpula da Catedral Santa Maria del Fiore. No filme, a beleza de Florença é evidente e a cidade é a protagonista.

Ponte Vecchio, no Rio Arno (Foto - Arquivo pessoal)

A cidade é um palco para o amor. Há uma igreja em Florença, a Chiesa di Dante, onde se diz que Dante viu pela primeira vez Beatrice e se apaixonou por ela. Robert e Elisabeth Barret Browning, os poetas ingleses, para viver mais livremente seu amor, foram se refugiar em Florença. Para mim, Florença é a cidade onde se pode viver o amor. Muito mais romântica do que a suja e confusa Veneza.

Mas se vocês preferirem outros motivos para ir lá, sem tanto amor, ei-los: é a capital da Toscana, uma província linda, acolhedora, terra de muitas vinícolas, de vilarejos antiquíssimos, escondidos nas montanhas, repletos de ruínas dos etruscos, povo que antecedeu aos romanos. Por motivos históricos, para os amantes do vinho, para andar pelo Rio Arno e pela Ponte Vecchio, se pode ir a Florença. Para contemplar seus telhados vermelhos, sua arte, seus corredores amplos, vale à pena ir a Florença. Pelo exagero de tanta beleza junta, de tantos artistas. Tudo está lá, para todos os gostos. Com amor ou sem amor. Mas com amor é sempre melhor, tem mais brilho, tem mais arte. Tudo se pode encontrar lá, tantos foram viver seu amor lá, por que não eu? Por que não você? 

Jornal Midiamax