Lideranças religiosas estão pedindo reparação contra duas mulheres após ofensas nas redes sociais por comentários sobre furto de corpos de um bebê e de uma adolescente, de 12 anos, em um cemitério de Ponta Porã, a 315 quilômetros de Campo Grande, ocorrido no último sábado (18).

“Devem ser os macumbeiros para fazer algum trabalho de destruição”, disse uma das mulheres. “(…) sim e ainda come carne humana”, comenta outra conta assinada por uma empresa e que logo em seguida foi apagado.

Após as ofensas, um grupo de lideranças religiosas foi até a delegacia da PF (Polícia Federal), em Dourados, para protocolar uma notícia crime, onde acusam a prática dos crimes de vilipêndio religioso, racismo religioso, calúnia e difamação. 

A denúncia foi protocolada nessa segunda-feira (20) e assinada pelas advogadas Aline Cordeiro Pascoal Hoffman e Nathaly Conceição Munarini Otero.

Representantes de terreiros de Dourados denunciaram internautas na PF (Foto: Marcos Morandi, Midiamax)

Entre os pedidos estão a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos e responsabilizar as envolvidas, a reparação dos danos morais causados às vítimas e a retratação pública dos responsáveis pelas declarações, que devem ser veiculada nas redes sociais.

Informações passadas ao Jornal Midiamax são de que a empresária que fez o segundo comentário já teria se envolvido em outras discussões nas redes sociais.

Naiara Fonteles, líder do Makota do Ilê Axé Megemulebaonã, conversou com a reportagem do Jornal Midiamax na tarde desta terça-feira (21) em frente a delegacia da PF e comentou a importância da denúncia para as comunidades. 

Naiara Fonteles, representante do Makota do Ilê Axé Megemulebaonã

“É um momento em que várias casas de candomblé e umbanda da cidade de Dourados se organizam para estar protocolando nesse momento na Polícia Federal uma denúncia crime contra as práticas de intolerância religiosa e racismo religioso acometido contra nossas comunidades. E sobre o fato que foi recentemente divulgado na internet que nos coloca enquanto comedores de carne de cadáver humano”, disse. 

Além disso, ela ressaltou que as lideranças religiosas não irão mais aceitar ofensas como essa registrada em relação ao furto dos corpos em Ponta Porã. 

“A gente precisa dar uma resposta efetiva para a sociedade de Dourados e um basta, porque a gente não aceita mais e não vai aceitar qualquer tipo de intolerância ou de racismo religioso que é praticado contra nossas comunidades”, finalizou Naiara.

Promotor denunciou intolerância religiosa

O promotor de Justiça, João Linhares, conversou com a reportagem na segunda-feira (20) e o mesmo disse que já fez uma denúncia formal enquanto cidadão para que a polícia investigue uma possível intolerância religiosa. 

“A internet virou infelizmente uma terra arrasada em que quase todas as matérias que nós vemos há comentários absolutamente impertinentes e desairosos. Já repassei a situação para o delegado regional de Polícia Civil com base no artigo 20 da Lei número 7.716/1989”, explicou Linhares.

O promotor também sugeriu que os órgãos midiáticos façam um trabalho de filtro e também de prevenção para evitar esse tipo de prática entre os leitores mal-intencionados que utilizam as redes sociais para propagar discursos de ódio.

‘Nunca tinha trabalhado num caso como esse’, relata delegado

A investigação sobre o furto de corpos de um bebê e de uma adolescente, de 12 anos, é um caso ‘novo’ para o delegado de Polícia Civil, Maurício Moura Vargas, que atua em Ponta Porã e Aral Moreira, cidades distantes a mais de 300 quilômetros de Campo Grande.

O delegado confirmou ao Jornal Midiamax que a cabeça da adolescente, de 12 anos, foi encontrada no último domingo (19) dentro do cemitério pelos peritos que investigam o caso.

Indagado pela reportagem se já aconteceu um furto de corpos anteriormente na cidade fronteiriça, o delegado afirma que enquanto está à frente do plantão da 1ª Delegacia de Ponta Porã, nada semelhante ocorreu, mas não é um caso que gerou choque, já que a fronteira com Pedro Juan Caballero é conhecida por crimes violentos.

“Nunca havia acontecido aqui não, quem trabalha na fronteira não se choca com nada. Mas nunca tinha trabalhado num caso como essa situação”, conta o delegado Maurício, lotado em Aral Moreira semanalmente e nos plantões aos finais de semana em Ponta Porã.

Ainda conforme ele, a localização dos suspeitos pelo crime é um desafio para a polícia, uma vez que se trata de um crime pouco comum. Equipes do SIG (Setor de Investigações Gerais) também atuam na investigação.

Vigia de cemitério exonerado

Após o furto, a Prefeitura Municipal exonerou um vigia do município. A exoneração consta no Diário Oficial desta segunda-feira (20). Conforme a publicação, a portaria entra em vigor a partir de 14 de maio.

Ao Jornal Midiamax, o secretário de Segurança municipal, Candinho Gabínio, disse que a exoneração “não é referente ao fato”. Além disso, informou que a administração pública segue com apuração interna.

“Esta manhã o Secretário Adjunto de Administração esteve no local recolhendo informações acerca do ocorrido e que será instaurado um PAD (processo administrativo disciplinar) para averiguar eventuais omissões ou falhas”, afirmou ao Midiamax.

Furto de corpos

Os corpos de um bebê e de uma adolescente de 12 anos foram furtados do cemitério de Ponta Porã, no sábado (18). Três túmulos foram danificados.

A adolescente foi sepultada há 15 dias. Além deste túmulo, outros dois foram violados, estes eram de bebês. Conforme informado, o vigia do cemitério encontrou as covas abertas por volta das 6h do domingo (19).

Dessa forma, a PM (Polícia Militar) e a Guarda Municipal foram acionadas, assim como a Polícia Civil, que investiga o caso. A situação foi registrada na Delegacia de Ponta Porã como destruição, subtração ou ocultação de cadáver.