Os traumas sofridos por vítimas de são assombrosos e deixam diversos gatilhos. desponta como um dos Estados com maior índice desse crime no país. A Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) aponta que, somente neste ano, foram registradas mais de 15.800 denúncias. Apenas em Campo Grande, são quase 5.300 casos.

No entanto, em meio ao sofrimento vivido por inúmeras mulheres, há histórias que trazem esperança e que também revelam a importância dos dispositivos legais de proteção à mulher, garantidos pela Lei Maria da Penha.

Nesse universo, a história de Iasmin Andrade de Souza, de 29 anos, faz dela protagonista de um enredo de superação. Ela, que sofreu agressões físicas e psicológicas por quatro anos, driblou as dificuldades, venceu os medos e foi em busca da realização dos sonhos interrompidos pelos anos de privação.

Iasmin, que agora exibe com orgulho o certificado do curso concluído 10 anos após livrar-se de um relacionamento abusivo, diz que este é só um dos sonhos conquistados. “Eu olho para o meu filho e penso: já vencemos e conquistamos tantas coisas, mas ainda vamos vencer e conquistar muito mais”, declara.

Além do curso concluído com sucesso, Iasmim garantiu bolsa de estudo de 100% para graduação no curso de enfermagem, mas ainda não decidiu se fará o curso. Poder refletir sobre essa decisão com calma é também privilégio conquistado pela nova Iasmin, que agora valoriza o que realmente a fará sentir-se feliz.

Contudo, quem vê a jovem que esbanja simpatia e estampa um largo sorriso no rosto, não imagina tudo que passou ao lado do ex-marido, com quem viveu por cerca de quatro anos e teve um filho, agora com 12 anos.

Do amor ao terror

A técnica de enfermagem conta que começou a namorar o ex-companheiro aos 15 anos, o primeiro namorado da jovem. Ela diz que, no início, o relacionamento parecia um sonho. O namorado, mais velho, tinha 20 anos e fazia com que ela se sentisse especial. E como é comum nessas histórias, não demorou muito para que ela começasse a sofrer agressões físicas, emocionais e psicológicas.

Técnica de enfermagem sofreu agressões físicas e psicológicas por três anos (Foto: Henrique Arakaki / Midiamax)

“Ele era muito romântico. Me encantei porque me tratava muito bem. Era muito diferente. Mas, sem explicação, tudo mudou depois que engravidei e nos casamos. Ele me colocava para baixo, dizia que eu não seria ninguém sem ele e me agredia de todas as formas”, relata.

Apesar de ter consciência de que a relação não era sadia, a jovem se sentia presa à situação. “Ele fazia com que eu me sentisse culpada e pensasse que eu tinha feito com que ele ficasse nervoso. Ele falava de um jeito que eu sentia que a culpa era mesmo minha”, relembra.

No caso de Iasmin, um episódio traumático foi o estopim para a relação abusiva. “Um dia ele estava muito nervoso e disse que acabaria com tudo. Então, jogou ácido em mim e no meu filho, mas consegui protegê-lo nos meus braços. Enquanto ele me ameaçava, eu consegui ouvir um barulho na vizinha e comecei a gritar. Nisso, ele disse para eu sair e segui pelas ruas sem rumo até chegar à casa dos meus pais”, explica.

A família foi o principal apoio oferecido para que ela pudesse se libertar das agressões. A mãe, Ivone dos Santos Salgado de Souza, de 59 anos, lembra que o esposo sempre foi persistente e na, medida do possível, manteve-se por perto da filha e do neto, que na época tinha menos de dois anos.

Família foi primordial para que Iasmin conseguisse sair da relação abusiva (Henrique Arakak, Midiamax)

“Sempre percebemos que tinha algo errado, mas não adiantava falar. Ela só percebeu após viver as próprias experiências. Nesse tempo todo, meu marido esteve perto e quando ela precisou a recebemos. Não foi fácil, nunca é, mas é muito importante o apoio da família. Sem isso, as mulheres que vivem nessa situação não conseguem sair disso”, ressalta.

Após ser acolhida pela família, Iasmin procurou a polícia e denunciou o ex-companheiro. O homem foi condenado a dois anos de serviços comunitários e foi proibido de aproximar-se de Iasmin. Longe do agressor, ela conseguiu reescrever uma nova história e deixa um recado para quem possa estar em situação de violência.

“Por mais que o agressor diga que você não vai conseguir ser nada, não acredite nisso. Confie que você consegue, dê o primeiro passo e saia disso. Recebi apoio da minha família e da Justiça, que é muito bem preparada para nos atender. E isso é muito importante para recomeçarmos. Se eu não tivesse dado o primeiro passo, poderia ser uma vítima de feminicídio. Mas, graças a Deus, consegui”, conclui.

Apoio às vítimas

A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, é considerada um marco no que tange os direitos da mulher. De acordo com a Lei nº 11.340, configura como violência doméstica qualquer ação, ou omissão, baseada no gênero que provoque a morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico, dano moral ou patrimonial à vítima.

Em 2023, a Justiça Estadual condenou mais de 2 mil agressores e, ainda assim, as agressões domésticas estão no topo das chamadas feitas para a Polícia Militar.

Denúncias e apoio às vítimas

Inaugurada em fevereiro de 2015, a Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande foi a primeira do Brasil. O complexo onde fica a Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) oferece atendimento integral às vítimas, com serviços diversos, entre eles, atendimento psicossocial, alojamento de passagem, encaminhamento a vagas de emprego, serviços de assistência social e brinquedoteca para crianças.

Além da Deam, a Casa da Mulher Brasileira conta com a 3ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Ministério Público e Defensoria Pública. As denúncias podem ser feitas a qualquer hora do dia e em todos os dias da semana.

Em Campo Grande, a Deam está localizada na Rua , 85, Jardim Imá. No interior do Estado, as vítimas devem procurar a delegacia mais próxima. Em casos de urgência, as vítimas podem acionar a Polícia Militar pelo 190. Já as denúncias anônimas devem ser registradas pelo 180.

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