Polícia

Operação Irmandade: facção aliada ao PCC teria movimentado R$ 120 milhões por ano

Grupo usava doleiros e empresas de fachada

Renata Portela Publicado em 20/07/2021, às 14h44

Foram cumpridos mandados em 6 estados
Foram cumpridos mandados em 6 estados - (Divulgação, PCRS)

A Operação Irmandade, que cumpriu mandados de busca e apreensão em Campo Grande e Ponta Porã, investiga aliança entre as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e Os Manos, de origem gaúcha.  O grupo lavava dinheiro proveniente do tráfico de drogas e armas com laranjas e empresas de fachada e teria movimentado ao menos R$ 120 milhões por ano.

A operação foi realizada por meio da Denarc (Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico), da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. Ao todo, foram 72 mandados de busca e apreensão e 5 de prisão preventiva cumpridos naquele Estado, além de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará.

Também foi feito pedido de 19 prisões temporárias, que acabaram indeferidas. Segundo a Denarc, três pessoas foram presas e foram apreendidos documentos, armas, celulares, notebooks, dinheiro e veículos de luxo. Ainda foram feitos bloqueios/indisponibilidade de ativos financeiros, veículos e imóveis. É feita contagem do valor total, que pode ultrapassar os R$ 3,5 milhões.

Investigação

Segundo a Denarc, foram mais de dois anos de investigações e análise de dezenas de contas bancárias, locais, pessoas físicas e jurídicas, com bloqueios nos 6 Estados alvos da ação. Com isso, foi possível confirmar os milhões de reais em lucros da venda de drogas em várias cidades gaúchas, que acabaram depositados em contas de laranjas em todos os estados.

A polícia identificou que a ação era feita entre as duas facções criminosas, pelo menos, desde 2017. Foi comprovado um elo entre operadores da organização com um preso no RS, sendo que eles gerenciavam um esquema com 45 operadores responsáveis pela parte financeira e também a logística. Ou seja, as transações financeiras que ultrapassam a ordem de R$ 12 milhões por mês.

Veículos apreendidos (Divulgação, PCRS)

Um dos investigados, baiano, membro do PCC, foi preso pela Polícia Federal no Pará e atualmente cumpre pena no presídio local. Ele era responsável por operar aviões com mais de 500 quilos de cocaína na região norte do país. O contato dele é um gaúcho, atualmente preso na Pasc (Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas).

O líder gaúcho foi preso em São Paulo, em decorrência de investigação no Estado de Minas Gerais por tráfico em 2020. Um irmão dele também acabou preso recentemente durante negociação de uma metralhadora .50, no Rio de Janeiro, com o Comando Vermelho. Ainda foi identificado que a organização criminosa gaúcha operava nos outros estados distribuindo drogas e traficando armas.

O líder baiano, para garantir remessas de drogas e armas para o grupo gaúcho, exigiu que os traficantes fizessem depósitos bancários com dinheiro obtido na distribuição estadual a pessoas jurídicas e físicas indicadas por ele, sendo todos laranjas e na maioria do Paraná, Mato Grosso do Sul, Bahia e São Paulo.

Segundo o delegado Adriano Nonnenmacher, titular da DRLD/Denarc, tudo era gerenciado por três grandes gerentes financeiros gaúchos, com vinculação criminosa com mais 36 pessoas físicas no Rio Grande do Sul e ainda outros suspeitos e empresas nos demais Estados.

Como o grupo atuava

Os operadores gaúchos garantiam a distribuição da droga pelo PCC e depois ficavam responsáveis por pagar pelos entorpecentes via depósitos bancários, em contas de pessoas físicas e jurídicas em outros Estados. Eles também eram responsáveis pela lavagem de dinheiro do lucro interno obtido pela facção gaúcha.

Em Mato Grosso do Sul, empresas de fachada eram usadas na lavagem de dinheiro. O gerenciamento da lavagem de capitais e redistribuição interna dos lucros, além do pagamento ao núcleo nacional, antes feita pelos presos baiano e gaúcho, agora era feito por outro homem que mora em Florianópolis (SC) e foi alvo de prisão preventiva.

Conforme Nonnenmacher, foi possível comprovar que houve uma movimentação de R$ 16 milhões nas contas bancárias deste último operador, que agia a mando dos líderes. Desde 2017 até o momento, a organização movimentou aproximadamente R$ 120 milhões ao ano.

“Eles realizavam um emaranhado de transações bancárias no Rio Grande do Sul e nos outros cinco Estados, estruturadas em pequenas quantias para burlar fiscalizações das autoridades, muitas vezes realizando triangulações entre laranjas, ida e vinda de créditos para pagamento ao operador nacional e distribuição de lucros entre os operadores gaúchos por terem exercido as funções de logística de drogas internamente, mediante uso de contas de passagem, dentre outras condutas de mascaramento muito bem executadas”, destacou.

O Diretor de Investigações do Denarc, delegado Carlos Henrique Braga Wendt, ressaltou que durante a investigação foi constatado que o grupo teve toneladas de maconha e cocaína apreendidas. Ele explica, ainda, que a organização criminosa é suspeita de trazer fuzis, bem como de operadores gaúchos trabalharem vendendo armas e drogas também para outros Estados a mando do PCC.

“Os extratos bancários e variados relatórios fiscais, bem como de inteligência financeira, confirmaram uma movimentação anual de R$ 120 milhões de reais das pessoas físicas e jurídicas investigadas. Para a Polícia Civil, essa união criminosa se tornou o maior esquema de venda de drogas e de lavagem de dinheiro no Rio Grande do Sul”, relatou.

Uma das contas usadas na lavagem de dinheiro, vinculada à facção Os Manos, pertence a um menino de apenas 7 anos, morador em Santa Maria. O grupo estaria usando doleiros, um gaúcho, que tem mandado de busca e apreensão contra ele, e suspeitas acerca de um paranaense já investigado na Operação Lava-Jato.

Jornal Midiamax