A Rússia culpou nesta quinta-feira, 4, os Estados Unidos pelo suposto ataque de ao Kremlin, reforçando a acusação de que Washington estaria se envolvendo diretamente na guerra da Ucrânia. O porta-voz de Vladimir Putin alegou, sem provas, que a Ucrânia teria perpetrado o ataque sob comandos dos EUA, uma acusação que Washington negou. O Kremlin afirma que o ataque foi uma tentativa direta de matar o presidente Putin.

O porta-voz Dmitri Peskov disse repetidamente a repórteres em uma teleconferência que os Estados Unidos estavam por trás do episódio no Kremlin. Imagens de vídeo verificadas pelo The New York Times mostraram duas explosões sobre o Kremlin no início da quarta-feira, 3, um incidente que a Rússia descreveu como um ataque de ucraniano à residência de Putin. A Ucrânia negou envolvimento.

“Sabemos muito bem que as decisões sobre tais ações e atos terroristas não são tomadas em Kiev, mas em Washington”, disse Peskov. “Kiev então faz o que é dito.”

A Casa Branca rapidamente rejeitou as acusações de Peskov. No programa Morning Joe da MSNBC na manhã de quinta-feira, o porta-voz da Casa Branca, John Kirby citou a acusação do Kremlin e disse que “Peskov estava simplesmente mentindo”. “Fomos claros com eles publicamente e em particular que não encorajamos, nem permitimos, que ataquem fora da Ucrânia”, disse Kirby, referindo-se às autoridades ucranianas. “Posso garantir que não houve envolvimento dos Estados Unidos nisso.”

Documentos secretos do Pentágono vazados recentemente mostraram que, embora os militares americanos estejam de fato fornecendo dados de alvos no campo de batalha para a Ucrânia, as autoridades americanas trabalharam para dissuadir o país de ataques potencialmente provocativos a Moscou.

E as autoridades também advertiram a Ucrânia sobre o assassinato em agosto de Daria Dugina, filha de um proeminente ultranacionalista russo, que as agências de inteligência americanas acreditavam ter sido autorizado por partes do governo ucraniano.

Kirby disse que os Estados Unidos não determinaram quem estava por trás do incidente de quarta-feira e que “ainda não se tem informações sobre o que aconteceu”.

Mas Peskov insistiu que a negação da Ucrânia de envolvimento no incidente de quarta-feira no Kremlin, e a negação americana de que tinha conhecimento prévio, eram “absolutamente risíveis”. No mês passado, Putin afirmou, também sem fornecer provas, que “agências de inteligência ocidentais” estavam ajudando a Ucrânia a cometer “atos terroristas” dentro da Rússia.

“Sabemos disso muito bem”, disse Peskov nesta quinta-feira, depois de afirmar que os Estados Unidos estavam dizendo à Ucrânia onde atacar. “É muito importante que eles entendam em Washington que sabemos disso e que eles entendam o quão perigoso é esse envolvimento direto no conflito.”

Temor de escalada

Logo após o episódio do Kremlin, forças russas dispararam drones e mísseis contra cidades ucranianas durante a madrugada desta quinta, incluindo Kiev e Odessa, no Mar Negro.

Na capital ucraniana, as defesas aéreas do país derrubaram drones e mísseis balísticos, disse uma autoridade regional, no terceiro ataque russo à cidade em quatro dias. Já em Odessa, no sul, o comando do exército disse que drones foram abatidos e forneceu imagens que sugeriam que alguns tinha mensagens escritas como “Por Moscou” e “Pelo Kremlin”.

Não houve relatos de vítimas em ambas as cidades. Mas na região de Kherson, as autoridades aumentaram para 23 a contagem de mortos após bombardeiro russos na quarta-feira, que se tornou um dos ataques mais letais na Ucrânia este ano.

Os Estados Unidos e a Ucrânia disseram temer que a Rússia tente intensificar os ataques após as explosões sobre o Kremlin. Após culpar a Ucrânia pelo episódio – e antes das acusações desta quinta aos EUA – Moscou disse que se reservava o direito de retaliar.

A Ucrânia, que normalmente mantém uma ambiguidade proposital sobre a responsabilidade por ataques dentro da Rússia, negou categoricamente o envolvimento e acusou Moscou de fabricar o incidente como pretexto para mais agressões e angariar apoio público.

A Embaixada dos Estados Unidos em Kiev emitiu um alerta na quarta-feira de que havia um risco elevado de ataques com mísseis russos, inclusive na capital ucraniana e arredores, citando “o recente aumento nos ataques na Ucrânia e a retórica inflamatória de Moscou”.

No início da quinta-feira em Kiev (ainda noite de quarta em Brasília), três estrondos sacudiram as janelas por volta das 2h30, horário local, e a polícia isolou o que parecia ser destroços de um míssil ou drone disparado sobre um bairro central. Algumas janelas próximas ficaram quebradas e o cheiro de fumaça pairava no ar.

Já Odessa foi atacada com pelo menos 15 drones, disse o comando militar do sul da Ucrânia. Os ucranianos abateram 12, mas três conseguiram passar pela rede de defesa aérea e invadiram os dormitórios de uma instituição educacional. Não houve relatos de vítimas, disseram os militares ucranianos.

Em vilas e cidades mais próximas da extensa linha de frente no leste e no sul da Ucrânia, também houve relatos de bombardeios generalizados.

Dúvidas

O alegado ataque ao Kremlin, no entanto, ainda desperta uma série de questionamentos. Por que o anúncio de Moscou veio cerca de 12 horas após o suposto incidente? Por que não surgiram relatos de explosões antes do anúncio nos aplicativos de mensagens? Por que os vídeos dos supostos ataques não apareceram até depois do anúncio? Por que as imagens não foram verificadas?

Um ataque de drones ao Kremlin seria a incursão mais severa do espaço aéreo russo desde que o adolescente alemão Matthias Rust pousou seu pequeno avião monomotor nas margens da Praça Vermelha em 1987. Ao anunciar o ataque – ou mesmo fingir – a Rússia arrisca minar a confiança de seus cidadãos em suas frequentes afirmações de superioridade militar.

De qualquer forma, uma ameaça de retaliação já paira no ar, incluindo ameaças dirigidas especificamente ao presidente ucraniano Volodmir Zelenski. “Depois do ato terrorista de hoje, não resta outra variante senão a eliminação física de Zelenski e seus conselheiros”, disse o ex-presidente russo e vice-presidente do conselho de segurança russo, Dmitri Medvedev

O presidente da poderosa câmara baixa do parlamento, Viacheslav Volodin, comparou o governo ucraniano com o grupo terrorista Estado Islâmico e disse que exigirá “o uso de armas capazes de destruí-lo”.

A doutrina nuclear da Rússia diz que o país pode usar armas nucleares se sofrer um ataque nuclear ou se enfrentar um ataque com armas convencionais que ameace “a própria existência” do Estado russo. O Ocidente já acusou Putin de usar armas nucleares durante a guerra na Ucrânia.

Mas Phillips O'Brien, professor de estudos estratégicos da de St. Andrews, minimizou a possibilidade relacionada ao suposto ataque ao Kremlin. “Você não vai dizer: ‘agora que houve um ataque com um pequeno drone, podemos usar armas nucleares'”, disse ele.

O comentarista Abbas Gallyamov, ex-redator de discursos de Putin que fugiu do país, também levantou dúvidas.”Se os drones inimigos atingirem o Kremlin, isso significa que qualquer outro objeto no território da parte europeia da Rússia está vulnerável”, disse ele. “Portanto, não acredito que tenha sido uma provocação concebida pelo Kremlin para influenciar a opinião pública.”

Se a Ucrânia realmente atacou, “considere isso um ataque performático, uma demonstração de capacidade e uma declaração de intenção: não pense que Moscou é segura”, disse Mark Galeotti, analista militar e de segurança russo do University College, em Londres.