As fortes chuvas causadas pela tempestade mediterrânica Daniel, combinadas com o rompimento de duas barragens, causaram inundações fatais no leste da Líbia no final de semana passado. Mais de uma semana após a tragédia, equipes de resgate continuam em busca de milhares de desaparecidos, em um cenário de completa destruição, com corpos espalhados pelas ruas, em meio a escombros de construções e pilhas de carros acumulados.

Anos de guerra e a falta de um governo central deixaram o país com infraestruturas em ruínas e vulneráveis às chuvas intensas. E, agora, a responsabilidade sobre o que poderia ter sido feito para evitar ou amenizar a tragédia está em discussão, em um país que há uma década é marcado pela rivalidade de dois governos. Veja perguntas e respostas sobre o que está acontecendo.

Qual é o número de mortos e desaparecidos pela tragédia?

Pelo menos 11,3 mil pessoas morreram e 10,1 mil continuam desaparecidas na cidade de Derna, no leste da Líbia, devastada há quase uma semana por inundações após o rompimento de duas barragens, segundo um novo relatório apresentado pela ONU (Organização das Nações Unidas).

A emergência também ceifou pelo menos 170 vidas em outras partes do leste da Líbia, segundo o levantamento. Os dados contrastam com o número oficial mais recente fornecido pelo ministro da Saúde do governo instalado no leste da Líbia, Othman Abdeljalil, de 3.166 mortes.

Claire Nicolet, que chefia o departamento de emergência do grupo de ajuda Médicos Sem Fronteiras, disse que as equipes de resgate encontraram “muitos corpos” na sexta-feira e ainda estavam procurando. “Foi um grande número… o mar ainda está devolvendo muitos cadáveres, infelizmente”, disse.

Quais regiões foram afetadas?

A tempestade atingiu o leste da Líbia, incluindo as cidades de Bayda, Susa, Marj e Shahatt. A cidade mais afetada, porém, foi em Derna, onde as águas romperam de duas barragens do rio Wadi Derna e as autoridades estimam que cerca de um quarto da cidade foi destruída.

Cerca de 40 mil pessoas foram deslocadas no nordeste da Líbia, segundo a Organização Internacional para as Migrações, que alertou que o número real é provavelmente maior devido à dificuldade de acesso às áreas mais afetadas.

Por que as barragens tornaram as inundações mais mortíferas?

As autoridades locais da cidade alertaram o público sobre a tempestade que se aproximava e no sábado passado ordenaram aos residentes que deixassem as áreas costeiras de Derna, temendo uma onda vinda do mar. Mas não houve aviso sobre as barragens, que ruíram na manhã de segunda-feira, 11, enquanto a maioria dos moradores dormia em suas casas.

Há muito tempo os especialistas afirmavam que as inundações representavam um perigo significativo para duas barragens destinadas a proteger cerca de 90 mil pessoas no nordeste da Líbia. Eles pediram repetidamente a manutenção imediata das duas estruturas, localizadas logo acima da cidade costeira de Derna. Mas os sucessivos governos da nação norte-africana devastada pelo caos não reagiram.

“No caso de uma grande inundação, as consequências serão desastrosas para os residentes do vale e da cidade”, escreveu Abdelwanees Ashoor, professor de engenharia civil, em um estudo publicado no ano passado.

Antes da tempestade Daniel, as autoridades impuseram um toque de recolher em Derna e em outras áreas do leste. O município de Derna publicou declarações no seu site pedindo os residentes a deixarem as zonas costeiras por medo de uma onda vinda do mar. No entanto, muitos moradores disseram ter recebido mensagens de texto em seus telefones pedindo-lhes que não saíssem de casa.

A água então liberada pelas barragens gerou ondas com até sete metros metros de altura no centro de Derna, destruindo bairros inteiros e arrastando pessoas para o mar, o que provocou um número de mortes tão alto.

Por que o país é dividido entre dois governos?

A nação norte-africana está dividida desde 2011, quando uma revolta da Primavera Árabe, apoiada pela Otan, depôs o ditador de longa data, Muammar Kadafi, que mais tarde foi morto. Desde então, o país dividiu-se entre administrações rivais: uma no oeste, apoiada por uma série de grupos armados e milícias sem lei e que é reconhecida como o governo internacionalmente, e a segunda no leste, onde Derna está localizada, aliada ao autodenominado Exército Nacional da Líbia, comandado pelo poderoso general Khalifa Hifter.

Ambos são apoiados por patronos internacionais e milícias armadas. Numerosas iniciativas lideradas pela ONU para reatar a divisão falharam.

Qual o impacto dessa divisão de governo na tragédia?

Um dos resultados desta divisão tem sido a negligência de infraestruturas cruciais, mesmo quando as alterações climáticas tornam os fenômenos meteorológicos extremos mais frequentes e severos. A Líbia é atualmente o único país que ainda não desenvolveu uma estratégia climática, de acordo com a ONU.

A cidade de Derna, a mais afetada pela tragédia, se desintegrou em um centro para grupos extremistas islâmicos como resultado da deposição de Gaddafi em 2011. O local foi bombardeado por ataques aéreos egípcios e mais tarde sitiado por forças leais a Haftar.

Após as inundações, a própria distribuição de ajuda tem sido altamente desorganizada. Enquanto os jovens e os voluntários corriam para ajudar, “houve uma espécie de confusão entre os governos do leste e do oeste” sobre o que fazer, disse Ibrahim al-Sunwisi, um jornalista local da capital, Trípoli.

Para a investigação sobre o rompimento das barragens, inclusive, os ativistas apelam a uma investigação internacional, temendo que uma investigação local seja infrutífera no país. O comportamento “predatório” destes grupos e milícias resultou na “apropriação indébita de fundos do Estado líbio e na deterioração das instituições e infraestruturas”, de acordo com um relatório do painel de peritos da ONU.