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Visibilidade: enquanto lutam para passar dos 35 anos, trans celebram vitórias

Lutar para viver mais que 35 anos. Essa é a realidade de pessoas transexuais no Brasil, que possuem menos da metade de média de vida de uma pessoa cisgênero. Entre batalhas e preconceitos, Jhenifer Alves e João Vilela conseguem manter uma vida feliz, cheia de amor e com vitórias celebradas. Mesmo com campanhas e conscientização, […]

Dândara Genelhú Publicado em 29/01/2021, às 07h00 - Atualizado às 07h06

Jhenifer e João fazem parte da comunidade trans de MS. Foto: Reprodução.
Jhenifer e João fazem parte da comunidade trans de MS. Foto: Reprodução. - Jhenifer e João fazem parte da comunidade trans de MS. Foto: Reprodução.

Lutar para viver mais que 35 anos. Essa é a realidade de pessoas transexuais no Brasil, que possuem menos da metade de média de vida de uma pessoa cisgênero. Entre batalhas e preconceitos, Jhenifer Alves e João Vilela conseguem manter uma vida feliz, cheia de amor e com vitórias celebradas.

Mesmo com campanhas e conscientização, em 2021 ainda há quem não saiba o que é uma pessoa transexual. De acordo com a Aliança LGBTI+, transexual é a “pessoa que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento”. Assim, elas podem ser homens ou mulheres, que procuram se adequar à identidade de gênero. Já cisgênero é toda pessoa que não é trans, ou seja, se identifica com o gênero que lhe foi denominado.

Ao Jornal Midiamax, o psicólogo João Vilela, 29, relembrou o processo de transição, que começou efetivamente aos 20 anos. Entretanto, disse que desde criança já percebia alguns indícios. “Quando eu ia brincar de casinha eu já era o papai, na hora de escolher jogos ou brincadeiras que podia escolher outros personagens eu sempre escolhia personagens masculinos”.

Assim, João demorou mais da metade da vida para saber que não era a única pessoa trans no mundo. Ainda com a surpresa e emoção daquela época, ele lembra que foi na faculdade que viu um vídeo sobre um homem transexual. “Foi transformador, saber que tinha algo a se fazer, que estava tudo bem e que o problema não era eu”, relembra.

Então, o primeiro passo foi se aceitar e começar a contar para os amigos e familiares sobre o verdadeiro eu. Após quase três anos, João decidiu que estava pronto para fazer o tratamento hormonal. “Eu precisava de um pouco de tempo e minha família também, para começar com essa parte da transição”. 

O tratamento dele foi realizado no HU (Hospital Universitário), que infelizmente interrompeu os atendimentos desde o início da pandemia. Com os resultados, cheio de alegria, João afirma que enfim pôde encontrar a própria imagem nos espelhos. “Não sei como explicar isso para uma pessoa cis, o jeito que achei mais fácil até hoje é assim: no começo era como se eu aprendesse a ler aquela imagem no espelho e falar que era eu, mas nunca fui eu”.

Tratamento não acessível

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Jhenifer se orgulha dos espaços que consegue ocupar como pessoa trans. Foto: Reprodução.

No Brasil, nem toda pessoa trans é acolhida pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A professora de artes Jhenifer Ragnaroni Noronha Alves, 29, começou a trajetória aos 15 anos. Entretanto, a hormonização foi realizada por ela mesma, com base em artigos e dicas de amigas. “É um processo arriscado e doloroso”.

A professora lembra que na adolescência, não sabia exatamente a situação em que estava, mas que não se reconhecia no gênero que havia sido denominado. “Nessa idade havia pouca informação sobre identidade de gênero e as travestilidades, não era um assunto que era abordado nas escolas, mídias e muito menos nos lares”, lembrou.

Apesar de não ter essas informações em casa, Jhenifer afirma com alegria que nunca passou por complicações em casa. “Foi um processo que seguiu naturalmente, sem questionamentos e/ou punições. Tenho esse privilégio de ter total apoio dessa base que é tão importante”, disse aliviada.

Com o processo, a professora foi se encontrando cada vez mais no próprio corpo. “Redesignar o corpo da forma que você se identifica é um novo nascer, é se olhar no espelho e ter a autoestima controlada, é poder sair e se mostrar da forma que você se vê”.

Felicidades ao longo do caminho

Para a educadora, o caminho é árduo, mas cheio de felicidades. “Eu como trans tenho um grande orgulho por saber que mesmo com tanta discriminação, preconceito, machismo e transfobia sou uma pessoa privilegiada ao meio de tantas”.

Isto porque além do apoio da família, Jhenifer disse que é formada em Artes, professora, carrega no currículo a aprovação em vários concursos públicos, participa de ONG’s de combate a violência LGBTI+ e colabora com projetos sociais. “Entre várias outras coisas que sou e participo a partir da minha identidade trans, sou orgulhosa de saber que mesmo com tantas adversidades, busco melhorias de cabeça em pé”, destacou.

Questionado sobre as felicidades de ser trans, João parou por um instante e se emocionou. Lembrou dos dias em que a avó estava internada e mesmo diante de todas as circunstâncias, sentia orgulho em dizer para todos os enfermeiros e médicos que o neto psicólogo dela fazia visitas diárias.

“Para mim, é muito recompensador, trilhar esse caminho e chegar nesse nível”, de ser reconhecido por alguém mais velho e tão importante para João. Outro momento de alegria para o psicólogo, foi quando ele vivenciou uma criança descobrindo que existe a possibilidade de não se identificar com o sexo denominado.

MS e os preconceitos velados

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João celebra com a bandeira trans. Foto: Reprodução.

De acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), MS é o quarto estado que mais registrou candidaturas de pessoas trans nas Eleições 2020. O Estado teve 13 candidaturas oficializadas nas últimas eleições municipais.

Apesar disto, MS é visto como um estado atrasado por nossos entrevistados. “Sempre fui cidadã do estado de Mato Groso do Sul, como todos sabem é um estado super conservador, machista, sexista e transfóbico”, define Jhenifer.

Além disto, a professora destaca que os corpos trans femininos são vistos como “objetos para satisfação sexual”. Assim, “nos depreciam e zombam no meio social, o que é uma hipocrisia, pois o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais e o pais que mais acessa pornografia trans”.

A situação de João é um pouco melhor, pois apesar de estarmos em um país conhecido pela transfobia, existe ainda o machismo. Por ser homem, o psicólogo disse que nunca sofreu violência física ou verbal. “Aqui eu brinco que a gente está no país no boi, é complicado. Parece que quando a gente viaja, a aceitação e o respeito é maior. Aqui eu já passei por transfobia estrutural, nada com violência”.

Mas afinal, como surgiu o dia da visibilidade trans? Em 29 de janeiro de 2004, travestis, mulheres e homens transexuais foram até Brasília para lançar a campanha “Travesti e Respeito”. O movimento visava promover a cidadania e respeito entre as pessoas deste grupo e a sociedade.

Além disto, mostrava para o Congresso Nacional que pautas e ações relacionadas aos transexuais deveriam ter mais relevância. Desde então a data é lembrada pela comunidade LGBT+, como forma de mostrar para a sociedade a existência dessas pessoas.

Jornal Midiamax