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Não tem nada de elegante no frio para quem vive com pouco na Capital

Comunidade enfrenta o frio com as doações que recebe

Raiane Carneiro Publicado em 03/06/2017, às 10h25

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Comunidade enfrenta o frio com as doações que recebe

Frio traz um glamour que é pouco presente na vida dos brasileiros. O país tropical tem muito de calor e pouco de frio, que se limita mais ao sul quando vem. Em alguns estados como o Mato Grosso do Sul, ele é bastante pontual, dando as caras a partir de maio. O tempo seco e o frio chegam acompanhados de uma onda de comidas ‘gordas’ além do vestuário mais requintado com casacos, cachecóis e botas. Um desfile de tipos pelas ruas da Capital. 

Mas, fugindo da velha máxima do “as pessoas ficam mais elegantes no frio”, você já imaginou o quanto pode ser difícil enfrentá-lo? Imagine chinelos no lugar de botas e camisetas de verão no lugar do casaco que você guardou com ansiedade para usar nas estações em que a temperatura vai lá embaixo. É essa a realidade de muitas pessoas nas periferias da Capital. 

Localizada no Jardim Noroeste, existe uma comunidade que está enfrentando o frio como pode. Conhecida como “comunidade do Linhão” por se ter surgido embaixo dos fios de energia elétrica que atravessam o bairro e as margens do antigo lixão, fechado em 2016, estão alojadas 94 famílias sob os barracos improvisados com tapumes, telhas e outros materiais frágeis. Todos foram erguidos por famílias que tiravam seu sustento do lixão e foram ficando nas proximidades. Com o fim dele, muitas dependem de doações.

A placa logo em frente da casa mostra a prioridade das pessoas da comunidade: “Nossa luta é por moradia digna”. Descemos para conversar com o dono do barraco e conhecemos o Giuliano de Souza Rosa, 36 anos, que representa a liderança da comunidade e vive com a esposa e a filha caçula de 11 anos. Ele vive na casa há 8 anos, uma das primeiras a ser levantada. 

Não tem nada de elegante no frio para quem vive com pouco na Capital

Na casa do Giuliano mesmo, são somente dois cobertores. Um é para a filha e o outro fica para ele dividir com a esposa. Esses cobertores, assim como as roupas da casa, vieram de doações. Aliás, a doação é de grande valia para a família pois a comida também vem por este caminho. “Quando posso, eu junto latinha pra dar um peso e vender na reciclagem. O Bolsa Família vem, mas com 120 reais por mês. O que a gente faz com 120 reais?” disse Giuliano enquanto mostrava a casa simples para a equipe de reportagem. 

O barraco conta com cozinha que também é sala, um banheiro e um quarto em que ficam os três. A friagem na casa só pode ser imaginada já que nas janelas não há vidro, apenas cobertas que balançam na tentativa de barrar a entrada do vento. Na dispensa, um pacote de arroz branco que, segundo o líder da comunidade, “é pra durar até quando Deus quiser”.

Com eles, vivem 5 cachorros e um gato. Como conseguir se cuidar e cuidar deles? “O sofá ali fora tem um cobertor pra eles. Eu também uso umas roupas minhas nos cachorros. O maior mesmo estava com uma regata até agora pouco” explicou apontando a roupa do cãozinho. A comida dos animais vem por intermédio de açougues que doam os retalhos de carne para a família dar para os animais.

“A base de arroz, mesmo”

Perto dali, encontramos duas vizinhas sentadas em frente as suas casas. Elas nos atendem com simpatia e abrem suas casas para nossa equipe. A primeira, Selma da Silva Soares, 36 anos, vive com o marido e mais 3 filhos com idades entre 13 e 8. A maioria das cobertas disponíveis na casa – que são 5 apenas – fica para os filhos.
O marido está desempregado então é Selma que tem bancado as despesas da casa como diarista, ganhando R$ 250 por mês. Eles viviam de aluguel até comprar aquela pequena área e levantar o barraco há 8 meses. Quando vem o frio, ela explicou que os 3 filhos dormem na mesma cama de casal e usam os cobertores para se proteger do frio. 

A cena que nos chamou atenção foi ver uma panela cozinhando em cima de uma carcaça de um fogão do lado de fora. “A gente usa pra economizar o gás. É que essas comidas demoram mais tempo cozinhando então a gente põe aqui pra pode render o gás”. É um “fogão a lenha” improvisado que estava fazendo um pucheiro para a janta. É outra forma encontrada de se proteger do frio, comendo algo mais pesado e quente, o que é o alívio de ter em casa. “Até pouco tempo, a gente estava a base do arroz branco mesmo” lembrou Selma.

A outra vizinha que estava com ela, dona Dione Arguelo da Silva, 27 anos, contou que o cardápio da casa dela é feijão com bucho, mas lamentou o fato de poucas doações chegarem na comunidade. “Já faz uns 3 meses que não aparece ninguém aqui. De um ano pra cá, foi diminuindo” contou.

Nesta casa é o marido que vive de bicos que mantém a família composta por 4 filhos pequenos. Ela contou que intercala os poucos casacos que os meninos têm. “Um dia um vai com um, depois o outro usa e assim a gente vai indo” explicou. 

Mais pra baixo, conhecemos também dona Maria de Fátima Toledo, 53 anos, que recebe um salário da Previdência Social e contou o quanto sofre no inverno porque além das poucas roupas para enfrentar o frio, ela ainda tem bronquite. Morando na parte baixa da comunidade, ainda tem que lidar com alagamentos na época de chuva. 
Sobre a batalha contra o frio, ela explica que tem 4 cobertores, todos retirados do antigo lixão. “O pessoal jogava muito então a gente pegava e daí lavava e usava. Agora, não tem mais” disse, mostrando o barraco de um único cômodo onde vive com o filho adolescente e a neta de 7 anos que, inclusive, acaba usando 3 ou 4 roupas para se proteger do vento.

Junto dela, a vizinha Fabiana Cristina de Souza, 34 anos, contou que sofre também com o frio porque tem sinusite. Além da saúde, a situação em sua casa é tão precária que a filha grávida de 5 meses dorme no chão. Ela, a filha, o genro e o marido vivem de doações já que ela está desempregada e o marido sofreu um acidente no lixão em uma das mãos e tem dificuldade de arranjar emprego. “A gente pega uns pedaços de carne que o pessoal do açougue dá pra gente. Hoje mesmo, eu tô cozinhando um osso ali pra janta” explicou.

Não foi detalhado ao longo dos relatos a situação das casas, mas todas compartilham características dramáticas. Como são erguidas com os materiais que as pessoas encontram, todas sofrem com goteiras em época de chuva e tem frestas por onde o vento traz o frio. É em locais como este que você se lembra que o frio não tem nada de chique. 

Jornal Midiamax