Muitas pessoas não sabem, mas dia 30 de janeiro é uma data importantíssima para a literatura brasileira, isso porque é celebrado o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. A escolha de data faz alusão à publicação da primeira HQ no país, um gênero literário estadunidense que se originou no final do século XIX.

No Brasil, as primeiras histórias em quadrinhos que se tem registro são datadas de 1869 e foram desenvolvidas pelo artista e imigrante italiano Ângelo Agostini. No dia 30 de janeiro, a primeira edição de ‘As Aventuras de Nhô Quim' foi publicada no periódico ‘Vida Fluminense'. Desde então, a é tida como a primeira HQ genuinamente brasileira.

Quase 100 anos depois, em 1960, surgiu a primeira revista em quadrinhos colorida, que aqui no Brasil se popularizou com o nome de gibi.

Desde então, as HQs têm extrema relevância para a história, cultura, educação e literatura. E parte disso se dá pelo contato e vínculo que criamos, ainda na infância, com este gênero. “As histórias em quadrinhos têm uma função relevante na literatura nacional, mesmo porque elas datam do início do século passado, primeiro como fonte de entretenimento, trazendo situações fictícias, fomentando a criatividade, e despertando o lado crítico da em si”, explica o professor Ale Jamil.

Malfada (Quinho)

Por outro lado, este contato permanece na fase adulta, quando artistas utilizam a HQ como ferramenta de debate, crítica e mobilização social. Um exemplo disso é a personagem Mafalda, criada pelo cartunista argentino Quino. As histórias apresentam uma menina preocupada com a humanidade e a paz mundial, e questionadora com questões políticas, ambientais e econômicas.

“As histórias fomentam, para o público adulto, o resgate à memória da infância em formas de crítica, seja ela política, econômica, social”, pontua o professor.

Em Mato Grosso do Sul, diversos artistas se dedicam a este segmento literário, seja com apelo político e social, entretenimento ou regionalidade. Conheça alguns!

Fred Hildebrand

(Arquivo Pessoal)

Fred Hildebrand é quadrinista, ilustrador, artista visual e professor de desenho. Começou sua jornada artística em 2005, com aulas de criação de personagem no estilo mangá, em oficinas no MARCO (Museu de Arte Contemporânea). Seu contato com as HQs começou com os quadrinhos do Senninha, ainda na infância, durante a alfabetização.

“Eu não gostava muito de ler, então os quadrinhos me trouxeram essa abertura para querer ler mais. Como o desenho também estava sempre presente na minha vida, eu sempre estava desenhando os personagens que eu gostava”, conta Fred. “Com a chegada dos mangás ao Brasil, a vontade de criar quadrinhos apareceu de verdade. Isso me levou a estudar artes visuais e a ver o desenho e ilustração como profissão”, pontua.

Para ele, a profissão é encantadora, no entanto, ser quadrinista no Brasil é uma luta contínua. “Se for quadrinhos autorais, então é uma jornada dupla entre fazer trabalhos comerciais ou ter um outro emprego para suprir as necessidades financeiras do dia a dia e fazer seu quadrinho pessoal”, explica.

“Ainda é uma cena em desenvolvimento, mas aqui tem alguns autores buscando incentivos culturais para tirar seus quadrinhos da gaveta e conseguir produzir de uma maneira mais segura”, pontua Fred.

Em 2020, Fred lançou o mangá SPACESHIT, um título autoral que ganhou versão impressa em novembro de 2023. A história começou como um teste, para que o quadrinista pudesse fazer todos os processos da criação, desde o roteiro até a finalização.

(Arquivo Pessoal)

“Fiz o primeiro capítulo como um prólogo de uma aventura que viria a seguir, mas esse primeiro capítulo acabou gerando mais 3 capítulos que transformei em um arco de histórias ou uma temporada”, conta.

A aventura conta a jornada da Luiza, uma adolescente de 17 anos, que sonha em se tornar uma caçadora de recompensas pelo universo, em busca de aventura e fama. Mas o seu tio, Bigode, acha que ela é muito novinha para essas coisas perigosas, então ele não sabe se apoia ou não esse sonho. É um quadrinho livre, que tem humor, aventura e emoção. Inclusive, para quem tiver interesse, o livro segue à venda. Para garantir, é só entrar em contato pelo Instagram @fredquadrinista.

Marina Duarte

(Reprodução, Julia Palandi)

A artista Marina Duarte trabalha com os quadrinhos há 4 anos, abordando, principalmente, a área do jornalismo. Ela integra os responsáveis pela revista Badaró, produzindo e ilustrando diversas matérias, reportagens e outros produtos que envolvem o jornalismo e HQ. A revista Badaró se direciona pelo jornalismo em quadrinhos, sendo a primeira revista do Brasil voltada a este segmento, e pela atuação de colunistas. O veículo já explorou formatos como podcast e audiovisual, no entanto, desde 2023, o trabalho se voltou integralmente aos quadrinhos jornalísticos e aos textos ilustrados.

Dentro desses projetos, Marina fez parte de equipes que ganharam prêmios, como a menção honrosa na categoria ‘Arte' no ‘Vladimir Herzog', de 2021 e o prêmio ‘Mega Fone de Ativismo', em 2023.

“Sempre curti quadrinhos, sabe? Me aproximei da produção profissional de HQ antes, pela área que já havia atuado um tempo antes, que é o jornalismo”, explica a quadrinista. “Mas desde criança gosto de gibi, leio quadrinhos. Fazia uns só por diversão. Era mais algo que gostava e não que pensava em me aprofundar profissionalmente… Mas felizmente aconteceu”, pontua Marina.

(Reprodução, Instagram)

A artista explica que para ela, fazer quadrinhos e entender mais sobre essa linguagem e seus impactos faz com que seu desejo no estudo e aprimoramento aumente cada vez mais. “Ano passado, junto com outros quadrinistas daqui do MS, estive na coletânea ‘Quebra Torto' com minha primeira HQ de ficção, por exemplo”, relata. “Estou buscando acumular conhecimento e experiência numa área que considero muito complexa e valorosa. Trabalho como ilustradora até um pouco antes de começar a atuar com quadrinhos, mas realmente é uma área que estou dedicando mais atenção nos últimos anos”.

Para ela, o mundo das HQ's no estado está em constante crescimento, com capacidade criativa e potencial. “É importante mostrar pro Brasil, cada vez mais, que existem artistas de grande potencial fora do eixo Rio-São Paulo e outros centros tidos como centros culturais. Há muita cultura fora dos grandes centros!”, pontua.

“Estou nesses anos insistindo na ilustração e nos quadrinhos porque acredito muito na potência da arte. Apesar de não ser um caminho fácil, fico bem grata por poder trabalhar com arte por conta disso!”

Milena Zarate

Quadrinista campo-grandense, Milena Zarate é formada em artes visuais pela (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) e começou sua produção independente em 2010, sempre focando nas publicações digitais.

Seu interesse pelas histórias em quadrinhos surgiu no final dos anos 90, através das séries que passavam na TV Manchete e os títulos publicados pela JBC e Conrad. “Desde então, o interesse foi se expandindo conforme fui dedicando meus estudos para a área artística”, conta ela.

Atualmente, Milena tem se dedicado a um projeto iniciado em 2020, em parceria com o artista paraense, Moaccyr Kalley. Eles são distribuídos gratuitamente nas plataformas WEBTOON e TAPAS.

“Paranormal Panic é uma comédia de ficção científica brasileira que mescla tanto influências do norte quanto do centro-oeste. Sua versão impressa será publicada pela editora NewPop em 3 volumes”, pontua.

Para conhecer mais os projetos da artista, basta acessar o material clicando aqui.

(Reprodução, Instagram)