No vai e vem da Avenida Duque de Caxias, uma das mais movimentadas de Campo Grande, emerge um som incomum que se mistura aos ruídos habituais de buzinas e motores. A cada sinal vermelho, o artista de rua Paulo Cesar Maria Junior, de 28 anos, surge para tocar seu Morin Khuur, em busca de alguns ‘trocados’ que o aproximem do seu sonho de visitar o país asiático.

Conhecido como ‘violino com cabeça de cavalo’, o Morin Khuur consiste em um instrumento mongol de duas cordas tocado na vertical com um arco.

Em 2008, foi classificado pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, e desde o pós-pandemia tem sido utilizado por Paulo para enriquecer a cultura musical em diversas regiões do país.

Recomeço

A história que se esconde por trás de quem toca o inusitado instrumento é marcada por dor e recomeço. Natural do Paraná, Paulo está entre inúmeros brasileiros que ainda sentem os impactos da Covid-19. Durante a pandemia, o artista perdeu os pais e viu sua empresa falir, o que o obrigou a se reinventar.

“Perdi tudo na pandemia. Administrava uma empresa de limpeza há oito anos, mas acabou falindo. Na mesma época, perdi meus pais. A perda da minha mãe me abalou muito, entrei em depressão, mas decidi que precisava me reerguer”, relata.

Morin Khuur
Paulo Cesar, 28 anos (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Em busca de um novo começo, Paulo lembra que entrou em contato com um ex-funcionário que fabricava instrumentos musicais. Assim, decidiu dedicar-se à criação de instrumentos. Foi quando teve seu primeiro contato com o Morin Khuur e decidiu que iria percorrer o mundo levando beleza e a singularidade do instrumento.

“Entrei em contato com esse amigo que fazia instrumentos, com ele aprendi a fabricá-los, conheci Morin Khuur, estudei sobre ele e um ano aprendi a tocá-lo”, explica.

Paulo conta que sentiu uma conexão imediata com o instrumento, que já havia aparecido anteriormente em um sonho. Desde então, decidiu estudar sua origem, o que o levou a nutrir o sonho de conhecer a Mongólia e se conectar com as raízes do Morin Khuur.

“Após a pandemia, fiquei com uma grande dúvida existencial. O início da minha jornada nômade começou com um sonho onde vi o Morin Khuur. Estudei sobre ele e decidi que queria viajar para a Mongólia para criar uma conexão com toda essa ancestralidade.”

Morin Khuur
Paulo toca pelas ruas de Campo Grande (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Do Brasil à Mongólia

Ao longo de sua jornada, Paulo percorreu diversas regiões do país, desde o Acre até Santa Catarina. Além disso, o artista visitou países vizinhos como Argentina, Peru, Bolívia e Paraguai, sempre acompanhado pelo seu Morin Khuur.

Em Mato Grosso do Sul, ele explorou cidades como Campo Grande, Bonito e Três Lagoas, e tem planos de visitar Aquidauana.

“Levo uma vida nômade, por isso, estou sempre em lugares diferentes, conhecendo pessoas novas e compartilhando com o mundo o que aprendi. Toco em troca de dinheiro, mas não busco fama”, destaca Paulo.

Morin Khuur
Detalhes do Morin Khuur (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Conforme Paulo, a maior dificuldade em tocar na rua está em encontrar reconhecimento como artista e lidar com a falta de aceitação do público devido ao seu estilo musical.

“Ser artista no Brasil é difícil, especialmente na música instrumental, pois as pessoas preferem músicas mais agitadas. Sempre tento incluir alguma peça clássica em meu repertório, arrisco até mesmo Beethoven, mas o mais popular atrai a atenção das pessoas”.

Agora, seu objetivo é percorrer o maior número de lugares possíveis, até conseguir dinheiro suficiente para realizar o sonho de conhecer a Mongólia.

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