“Trabalhava como vendedor de loja e precisava bater a meta, me cobravam e não estava dando certo. Fui mandado embora, uma dez pessoas ao todo e eu estava no meio. Recebi o seguro desemprego e aí começaram as dificuldades: aluguel, alimentação e outras despesas. Estava passando por um momento difícil e, vira e mexe, passava por uma estátua viva. Sempre dava um dinheirinho, porque queria pegar as mensagens que ela me dava. Um dia, fiquei no banco da praça a observando, contei a minha história e ela me deu dicas. Tudo começou ali, eu fazendo Charles Chaplin na rua”.

O depoimento é de Vitor Rafael Batista de Souza, de 31 anos, um jovem de Paranaíba (MS) que tem uma história de vida impressionante e foi notado por Brian Baldrati, fotógrafo dono do perfil “isthisreal” no , o qual possui milhares de seguidores e percorre o Brasil registrando imagens e relatos de brasileiros.

Vitor foi entrevistado no horário de almoço, nas ruas de . (Brian Baldrati/Arquivo Pessoal)

Encontrado nas ruas de Salvador, enquanto almoçava, Vitor falou que faz a “estátua viva” há 10 anos. No entanto, somente contou para os familiares há cerca de três anos. “Eu amo o meu trabalho. Hoje eu vivo disso…ser artista de rua é muito bom, mas, tem o seu lado humilhante…tem gente que te humilha, que te xinga. Já cuspiram na minha cara. Já me deram dinheiro falso. Vira e mexe eu ganho um cruzado. Colocam camisinha, tampinha de garrafa, pedra dentro da caixinha…eu não ligo mais pra isso. Já chorei muito”, relembrou.

Ao se arrumar para a personagem, Vitor diz que coloca bojo e algumas vezes é atacado. No entanto, ressalta que a maioria das pessoas o elogiam e isso causou uma transformação na sua vida, trazendo autoconhecimento e realização profissional. “Sou menino e gay. Sou feliz. Trabalho, vivo e pago as minhas contas”, disse para o fotógrafo.

Sonho da casa própria: ‘Nossa maior conquista’

Com o trabalho divulgado nas redes sociais, Vitor passou a colher alguns frutos. “Eu recebo algumas quantias. Recebo pix de cinco reais, dez, vinte, de algumas pessoas até mais. Estou guardando. No futuro quero ter a minha casa. Acho que é o sonho de qualquer brasileiro, de sair do aluguel e ter a sua casa própria. Acho que é a nossa maior conquista é a casa própria”, comentou.

Natural de , cidade distante a 270 km da Capital Campo Grande (MS), Vitor fala que sempre sonhou em conhecer o nordeste e não pretende sair de lá. “Eu vim para Salvador no ano de 2015. Antes, estava morando no interior de São Paulo, mas, toda a minha passei em . Minha família mora lá, mas, desde que meu pai faleceu, eu não tive mais vontade de voltar. Foi muito sofrimento e nunca imaginei que a minha história se tornaria inspiração para as pessoas”, argumentou.

Neste momento, Vitor fala que vários artistas estão enviando mensagens, dizendo que se emocionaram ao saber mais sobre ele.

“Não era para eu estar vivo, mas, a única força que eu tive ao longo da vida era ser forte. E este fotógrafo, com o trabalho dele, mostra que, por trás de um sorriso, existem muitas lágrimas e tristeza também. É um trabalho é magnífico e as fotos são surreais de lindas. É engraçado que foi tudo natural, eu estava comendo, ele me abordou e, no final, estamos aqui. Estou besta, bobo, feliz, sorrindo para as paredes e agora voltei a sonha em ter a minha casa, meu carro e uma lojinha de para a minha aposentadoria. Não vou viver desta arte para o resto da vida, o corpo cansa então isso aí já seria o suficiente”, afirmou.

Sobre a saudade da família, Vitor cita alguns familiares. “Quando bate a saudade do meu pai vou lá no cemitério. Fico conversando. Eu voltaria para Paranaíba para ver a minha avó e uma tia. Mas, neste momento, sinto que Salvador é o meu local. Aqui me abraçou de uma forma, pessoas que nem do meu sangue eram e que me apoiaram quando comecei com a estátua viva. Quem é da minha família me olhou com cara feia, falou que eu ia pedir esmola. Aqui fui acolhido, recebo pedidos para fazer vídeos nas redes sociais, para fazer recepção em aniversários e os alunos saem da escola e ficam admirando o meu trabalho”, opinou.

Quando mais novo, Vitor alega que teria sido abandonado pela mãe. “Ela me deixou na calçada da minha vó, que estava comprando leite de um carroceiro na época. A pessoa estava enchendo a leiteira e minha mãe disse: você vai ter que comprar outro para este moleque. E fiquei ali como se fosse nada. Ela fugiu com um caminhoneiro para . Isso é o que eu soube. Depois, com seis a sete anos, fui estuprado por um primo de noite. Lembro como se fosse hoje. Não falei nada na época porque eu apanhava, levava surra mesmo”, relembrou.

‘Sei de toda a carga que eu tive, mas, hoje sou feliz’, fala Vitor

Anos depois, contou os fatos para uma tia e se mudou para outro estado. “Sei de toda essa carga que eu tive, mas, hoje sou feliz e grato por tudo que passei. Além disso, já passei fome, sede, tive depressão e tentei tirar a minha vida. Mas, Deus falou: ‘Não é a sua hora, vou te honrar’. Muitos se emocionam e pensam: ‘Poxa, a minha vida é perfeita perto de tudo que passei’. Com o tempo, conheci uma pessoa, fiquei com ele por sete anos e aí que eu vim parar no nordeste. Ele é baiano e me trouxe pra cá, mas, sou neto de um cearense e, de alguma forma, sempre quis conhecer aqui, pelas histórias que o meu avô falava”, disse.

No entanto, antes, Vitor fez estátua viva em São José do Rio Preto, Barretos, São Paulo, Guarujá, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, e até na Argentina.

“Agora, aqui em Salvador, sinto uma energia diferente. O povo é animado, parece que tudo é festa. E eles gostam de coisas diferentes, foi quando surgiu a estátua diferenciada. Foi aí que eu comecei a dançar, em uma bairro boêmio, com shows ao vivo. Os turistas vem, eu peguei amizade com os donos de bares, então, fiz o meu mini palco e o pessoal passa, filma, colabora, tiram foto e eu dou a mesma mensagem que ganhava antes daquela primeira estátua. Daí uma cantora me chamou várias vezes de estátua diferenciada e ficou este nome”, contou.

Alguns dos feedbacks que Vitor recebeu após seu trabalho viralizar nas redes sociais. (Redes Sociais/Reprodução)

Para o personagem, Vitor diz que costura a roupa a mão. “Eu fui em um brechó, mas, precisava de dois metros, então, comprei um cetim, fui fazer a minha asa com um papelão prensado. Parece MDF, é grosso e pesado. Também coloco um cano de PVC para firmar e faço todo o acabamento, colocando cola, amarrando com fitas, para asa ficar para cima e, se bater algum vento, não entortar. Eu penso, vou fazendo porque, se tiver erro, eu mesmo reclamo e conserto”, brincou.

Na época da pandemia, Vitor disse que teve mais uma fase turbulenta e retornou para , onde começou a desempenhar várias funções. “Eu me tornei cuidador de idosos, com o senhor Manuel. Era uma pessoa muito queria com a família e eles me chamavam de babá. Ele era um anjo. Eu mesma fazia fisioterapia, dava banho e isso me despertou uma paixão, de cuidar de idosos, trabalhar em um asilo. Não necessariamente a enfermagem. São pessoas puras, assim como as crianças, então, não fiz só a estátua viva, vendia doces, fazia faxina, inúmeras coisas”, relembrou.

Vitor trabalhando e sem a vestimenta que ele mesmo produz. (Redes Sociais/Reprodução)

Conforme o artista, o período chuvoso é muito difícil para quem trabalha nas ruas e, quem não consegue ter uma reserva financeira, precisa exercer outras atividades. “Meu pai me ensinou a fazer tudo o que você imaginar. Eu instalo chuveiro, lâmpada, sei fazer massa de cimento também, pintar parede, várias coisas. Meu pai me criou a ferro e fogo, mas, me criou muito bem. Ele me ensinou a me virar e inclusive até a minha comida sou eu quem faço”, finalizou.

Nesta reportagem especial, o fotógrafo Brian Baldrati também conversou com o MidiaMAIS. Veja o relato dele e do Vitor: