O motorhome de 1969 reformado em 1986 é o xodó sobre rodas do guarda municipal Ricardo Stevaux de Oliveira, de Campo Grande. Ele faz jus à proposta e mora definitivamente no veículo-trailler há cerca de 2 anos, mesmo sem ainda poder rodar diferentes destinos, pois precisa cumprir uma escala de trabalho fixa. “Viver com a liberdade de poder levar a casa para qualquer lugar”, como ele diz, tem sido a realização de um sonho. O duro é ter que enfrentar a impaciência dos motoristas da cidade.

Adesivar o motorhome com frases que chamam a atenção foi a solução encontrada para que o veículo seja melhor tolerado no trânsito, quando Ricardo precisa se deslocar até o trabalho ou outro ponto. “Respeito ao Idoso/ Motorhome 69, não tenho pressa/ estou em casa!” foi a frase que ele pediu para um profissional afixar na parte traseira. Já na parte dianteira, o letreiro diz: “Meu sonho”.

“Chamo de idoso para respeitarem o veículo antigo, assim como respeitam a pessoa idosa. Ando devagar mesmo, não preciso correr!”, explica, bem-humorado. “E ‘meu sonho’ eu pedi para colocar por ser o que a maioria das pessoas fala ao ver o motorhome de perto. É um sonho meu sonho e de muita gente”, complementa.

O proprietário e o veículo em um dia de acampamento em frente ao Parque das Nações Indígenas

Ricardo costuma andar na faixa reservada para os ônibus em Campo Grande e fez a inclusão da categoria “D” na carteira de motorista, que o autoriza a dirigir o veículo pesado. Ainda assim, relata que muitos motoristas reclamavam da baixa velocidade. “Depois que adesivei, melhorou muito. As pessoas agora só buzinam para cumprimentar e elogiar o motorhome. Passaram a entender”, confirma.

Entre terreno e acampamentos

O motorhome virou um estilo de vida para o guarda municipal, tanto é que alugou a casa própria a outra pessoa, para então poder viver no veículo. Fogão, geladeira, pia, cama e banheiro com chuveiro e tudo estão dentro e podem ser levados por onde for. Morar lá é muito confortável, ele garante.

Interior do motorhome após a reforma com madeira naval

Para ter um ponto fixo para estacionar a casa móvel e dormir, Ricardo decidiu recentemente alugar um terreno na Capital onde possa ficar mais tranquilo.

“A maioria dos proprietários de motorhome não faz isso. Eles geralmente se aposentam, alugam vaga em campings entre 2 e 5 dias e vão mudando. No meu caso, que ainda não me aposentei e tenho que ficar a maior parte do tempo em Campo Grande, entendi que era mais viável alugar um terreno com água e luz e todo murado para minha segurança”, justifica.

Assim, Ricardo consegue passear com o motorhome aos finais de semana, feriados e férias. Ele ainda não saiu do Estado, mas pretende. Por enquanto, visitou Rio Verde de Mato Grosso e Aquidauana. O próximo destino será a praia de Ilha Cumprida, em Sorocaba (SP), onde a família o espera para matar as saudades e também dar umas voltinhas de motorhome. “Minha ideia, depois, é conhecer outras praias brasileiras onde não haja restrição para estacionar e ir para fora”, revela.

De vez em quando, ele acampa na Capital mesmo. O lugar preferido é a Praça do Papa, onde não encontra restrições para estacionar e passar alguns dias com os proprietários de outros quatro motorhomes, que viraram seus amigos e são membros do grupo Campistas do Centro Oeste. Outro lugar onde costuma fazer paradas é o estacionamento do Parque das Nações Indígenas.

Com os amigos campistas na Praça do Papa

Paixão por veículos

O veículo-trailler não é o único xodó do guarda municipal. Ele é apaixonado por tudo o que se move, tanto é que tem também um carro de passeio para fazer “coisinhas rápidas” e um triciclo.

O triciclo, aliás, é puxado pelo motorhome. Foi a partir de um que decidiu adquirir o outro. “O triciclo veio primeiro. Quando vi que muitos membros de motoclubes tinham um motorhome para poderem carregar os triciclos e ficar confortáveis por vários dias nos encontros entre pilotos, quis fazer igual e ter um”, conta.

O triciclo sendo rebocado pelo motorhome

O motorhome de Ricardo veio de Novo Hamburco, no Rio Grande do Sul, onde a fabricação de modelos como o dele é tradicional. O proprietário foi buscar pessoalmente e teve o prazer de fazer isso por meio de outros cinco veículos. “Fui de carro até o aeroporto, 1. Peguei o avião, 2. Fui do aeroporto até a estação ferroviária onde peguei um bondinho, 3. De lá, peguei o trem que chegou a Novo Hamburgo, 4. E, finalmente, voltei com o motorhome dos meus sonhos, 5”, enumera.