O assassinato de Carla Santana, de 25 anos, chocou os moradores de Campo Grande com a frieza e brutalidade em que todo o crime foi cometido. A jovem foi sequestrada na frente de sua casa, no bairro Tiradentes, no dia 30 de junho de 2020 e o corpo encontrado em frente a uma conveniência, sem roupas, e com perfurações de faca no pescoço, no dia 3 de julho. O assassino? Marcos André Vilalba, na época com 21 anos, vizinho de Carla.

Enquanto esteve desaparecida, família, amigos e vizinhos da jovem se mobilizaram e, durante todo o dia, buscavam por ela nas redondezas, em busca de pistas que indicassem o paradeiro de Carla. E durante estes dias de aflições e incertezas, Serena, que morava há duas quadras da casa de Carla, comovida pela situação e entristecida com as possibilidades de mais um crime contra a mulher, começou a escrever um rap sobre a liberdade da mulher e o desejo pelo matriarcado.

“Matriarcado” é o protesto pela liberdade

Serena, de 21 anos, conta que em 2020 tinha parado com as batalhas de rimas, devido à pandemia, optando em iniciar suas primeiras composições no rap. Infelizmente, o assunto que estava em destaque em todos os jornais na época era o desaparecimento e, posteriormente, assassinato de Carla. Serena conta que acompanhou a mobilização das pessoas em busca da jovem e aquilo mexeu muito com ela. Esse foi o gatilho para que ela fizesse da música um suporte para o seu protesto e angústia a este e tantos outros feminicídios que aconteciam desenfreadamente no país.

Ela ainda afirma que, com o desaparecimento de Carla, um clima de medo se instaurou no bairro e muitos homens aproveitaram para “causar o terror”. “Aproveitaram para assediar mulheres nas ruas. Eles ficavam nos carros, passavam devagar por nós, falavam várias coisas. Isso também aconteceu comigo”, relata.

A música “Matriarcado”, composta em uma semana por ela e por Afro Jess, também interpretada por Lili Black, fala sobre o desejo de mostrar para outras mulheres, uma nova era do matriarcado, como incentivo para não haver medo, mas sim coragem de responder às violências e para viver com liberdade. “Nós queremos mostrar o que é ser a mulher na quebrada e de como a gente sabe se defender”, explica.

“Vou criar guerras pra gente ter paz e não aceitamos a paz fria dentro de um caixão”, diz um verso da música.

“Quantas Amélias, quantas Marias, quantas suas avós, quantas suas tias, que se perdem no tempo do patriarcado e não se vê 1/3 passando da vida”, questiona outro trecho do rap.

Veja o clipe.

Repercussão do rap

Já faz 2 anos que a música foi lançada e até hoje elas recebem um feedback positivo sobre a composição. Mesmo sem divulgações, o rap continua alcançando diversas pessoas em todo o país. Só no YouTube, o clipe tem mais de 2.500 visualizações.

“A música continua ecoando. Tivemos a oportunidade de ir à Casa de Ensaio e lá eles estudaram a música, fizemos oficinas com as crianças e adolescentes. Foi importante para a imersão no universo de rimas e rap”, conta.

Oficina de estudo da música “Matriarcado”. (Arquivo Pessoal)