Paralelos trágicos (1965) foi o primeiro filme produzido em Campo Grande, isso quando a cidade ainda nem era capital de Mato Grosso do Sul e o País vivia uma ditadura militar. Abboud Lahdo, o diretor que também atua na produção, demorou a ter o feito cinematográfico reconhecido e acabou seguindo carreira na advocacia. Foi receber homenagens só depois, inclusive a de ter o próprio nome e sobrenome de origem libanesa batizando premiação dedicada ao cinema sul-mato-grossense.

Primeiro cineasta de MS aparece entre estudantes, em registro raro (Foto: Reprodução/Facebook)

Quase 60 anos se passaram. Em 2023, com tecnologias que dão outra cara às produções e as entregam de forma mais fácil ao público, quem são as pessoas que se dedicam a fazer filmes no estado? Um mapeamento feito entre novembro e dezembro de 2022 pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul revela detalhes sobre o perfil atual delas: a maioria atua em Campo Grande (72%); tem entre 20 e 25 anos de idade (26%); é branca (54%); se identifica com o gênero masculino (70%); concluiu algum curso de graduação relacionado ao audiovisual ou comunicação (40%); e não tem o cinema como atividade principal (85%).

A renda média mensal da maior parte dos profissionais, considerando tanto a remuneração de trabalhos no mercado audiovisual quanto de outras fontes, está na faixa de R$ 1 mil até R$ 4 mil (45,6%). Apenas 8,8% declararam ter rendimento mensal acima de R$ 10 mil. Outros 21,1% ganham de R$ 5 mil a R$ 10 mil e 15,8% ganham de R$ 2 a R$ 3 mil. Chama atenção os 8,8% que chegam a ter renda inferior a R$ 1 mil.

O objetivo do mapeamento, de acordo com a Fundação de Cultura, é gerar “dados para formulação de políticas objetivas que favoreçam a cadeira produtiva, seja no âmbito cultural ou econômico”. Ele foi realizado no formato formulário on-line e coletou respostas de 57 pessoas, entre estudantes, empresários, produtores independentes e trabalhadores do setor em geral.

Onde estão e quantos são

Além da capital, as pessoas entrevistadas trabalham nos municípios de Amambai, Dourados, Corumbá, Fátima do Sul, Ivinhema, Nova Andradina e Três Lagoas. Profissionais de São Paulo (SP) que atuam no cinema em Mato Grosso do Sul também responderam à pesquisa.

Apenas 10% dos que responderam ao questionário declaram ter filiação a algum sindicato ou associação, grupos que ajudam a classe a se organizar, a se formalizar e podem contribuir para estimativas da quantia total de profissionais que mantêm atividades na área – atualmente difícil de se mensurar.

O Mapa Cultural de Mato Grosso do Sul, mantido pela própria Fundação de Cultura, aponta que existem 119 agentes culturais que trabalham com cinema no Estado. Desses, 22 estão identificados na plataforma com nome, histórico de atuação na área e município de atuação.

Mapa ajuda a localizar pessoas que atuam no cinema (Imagem: Reprodução/Mapa Cultural MS)

O Colegiado Audiovisual Estadual, forma de associação criada pelo poder público, indica ter cerca de 140 membros ativos. Número que também pode ajudar a dimensionar a quantidade de pessoas envolvidas com o desenvolvimento do cinema no Estado mais jovem do Centro-Oeste brasileiro.

Novas perspectivas

É possível que os próximos mapeamentos relacionados ao cinema em Mato Grosso do Sul venham diferentes. O Colegiado Audiovisual Estadual aposta que a criação do primeiro curso de audiovisual no Estado pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) trará melhorias. A primeira turma de alunos está perto de se formar.

Ficção filmada no interior de MS (Foto: Acervo Pessoal/Israel Medeiros)

Outra instituição que pode ajudar a fomentar futuras produções e mudar o cenário para os profissionais, cita ainda o Colegiado, é o IFMS (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul), que tem um núcleo de animação e roteiro com laboratório no campus Campo Grande.

Do cenário nacional com impacto para o regional, a Lei Paulo Gustavo também pode impulsionar, em 2023, a produção do que ficou guardado por novos cineastas e os mais experientes durante a fase mais difícil da pandemia de covid-19.

Conheça três cineastas da atualidade em MS

Ulísver Silva

(Foto: Acervo pessoal/Divulgação)

Cineasta de Campo Grande, ensaiou curtas-metragens de terror e de animação de massa de modelar já na infância. Formou-se em Rádio e TV e se especializou em Cinema. O primeiro curta-metragem profissional de sucesso foi As invenções de Akins (2018), que conta as aventuras de um garoto que cria seus próprios brinquedos. A produção foi premiada, exibida em escolas, ganhou o coração do público infantojuvenil e dos adultos e está disponível em plataformas como Amazon Prime Video e NOW. Ulísver tem 39 anos e agora trabalha na produção do primeiro longa-metragem.

Marinete Pinheiro

(Foto: Acervo pessoal/Divulgação)

Jornalista e cineasta, tem livros publicados sobre a história do cinema no Estado e dirigiu os documentários como A Dama do rasqueado (2017), que conta a vida da cantora Delinha. Além disso, dá cursos e faz curadoria de festivais. É formada em Cinema e desde 2015 está na Coordenação do MIS (Museu da Imagem e do Som) de Mato Grosso do Sul.

Israel Miranda

(Foto: Acervo/Pessoal)

Documentarista e diretor de fotografia, participa das realizações cinematográficas no Estado desde 2008. A partir de 2013, passou a se envolver mais em projetos regionais, especialmente os que contam a vida de personalidades locais. Tem em conta 14 produções regionais e seis nacionais. Destaques para direção de Coisa de negro (2018) e a participação na produção de Dama do rasqueado (2017). Formado em Publicidade e Propaganda e com 39 anos de idade, este ano está envolvido em novos projetos relacionados à História de Campo Grande e a uma história de ficção que se passa no Pantanal.