O amor pelas crianças fica latente já na primeira frase. Aos 81 anos, Maria Laís Rosa Lemos já foi professora, diretora de escola e relembra 40 anos dedicados a alfabetizar, os quais já lhe renderam os apelidos de “tia Laís” e até “vovó”, a “vovó do ensino” que ainda defende caligrafia, didática que trabalha a imaginação das crianças e marcou história ao fazer uma menina falar, ou melhor, cantar e surpreender os pais.

A história é uma das mais marcantes na carreira da professora aposentada. Mas, antes de chegar neste episódio, o MidiaMAIS vai contar um pouco da trajetória da Laís, fazendo uma viagem no tempo. Nascida em Nipoã, no interior de São Paulo, ela conheceu o marido em um município próximo. Ao se casar, na década de 50, veio com o marido para o então Mato Grosso. Ambos adquiriram terras e passaram a morar em um chácara, a cerca de 20 km de Campo Grande.

Formada em magistério – antigo curso profissionalizante no ensino médio – passou a ensinar crianças, de propriedades rurais vizinhas, que iam até a casa dela com somente um objetivo: aprender o alfabeto, formar palavras e soltar a imaginação com as histórias da educadora.

Crianças iam em chácara para serem alfabetizadas, diz professora

Casal está junto há 65 anos e veio para MS na década de 50. Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax
Casal está junto há 65 anos e veio para MS na década de 50. Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax

“A chácara ficava no quilômetro 27 ou 37, algo assim. Lá ficaram sabendo que eu era professora, então, as crianças apareciam lá para serem alfabetizadas. Eu ensinava o que sabia, tinha disponibilidade para isso e ensinava de forma concreta. A pessoa precisa ter vontade de conhecer a criança, é um ser maravilhoso e que temos, por obrigação, ensinar”, afirmou Laís.

Com o tempo, os filhos foram chegando, até que o esposo da professora quis levá-los para estudar na cidade. Neste momento, seu Orlando Lemos, de 84 anos, sentado ao lado, fala do momento que ainda o deixa triste e emocionado.

“Fui até a melhor escola na época. Como eu não estudei, tinha o objetivo de dar o melhor a eles. Ao chegar, fui falar com um padre. Eu comentei que eles viriam de ônibus e se poderia mudar o horário das aulas, atrasar uns minutos, para eles não perderem nada e ele respondeu: ‘Acha que vou prejudicar meus alunos por causa de merreca’. Por pouco eu não briguei de soco com ele. Procurei outra escola e lá eles estudaram bem até formar. Eram quatro filhos e a diretora ainda me cobrava três mensalidades”, comentou Orlando.

Com os filhos na escola, Laís ainda continuava se dedicando ao ensino, enquanto o marido trabalhava no campo. Anos depois, se mudaram para a capital sul-mato-grossense e lá a educadora trabalhou na antiga escola chamada o Sítio do Pica Pau Amarelo e também o colégio Pequenópolis, que teve unidades tanto na Avenida Afonso Pena como na Rua José Antônio.

Sem caligrafia, criança não tem firmeza na escrita, avalia Laís

“Eu tive a oportunidade de trabalhar com a cartilha Sodré e tantas outras, de aprofundar isto com as crianças. Vejo muitas coisas hoje que já não acontecem mais, como a falta da caligrafia. Eu ensinei tantas crianças desta forma. Acho que sem a caligrafia a criança não tem firmeza na escrita. E tudo isso tem que ser repassado com muita didática e descobertas. Tem o inglês, a cultura, claro que isso é importante, mas, também precisamos contar histórias, falar da natureza, uma educação sensorial”, ressaltou a professora aposentada.

Foto: Marcos Ermínio/Jornal Midiamax

Nestes 20 anos como professora, também acompanhou a evolução dos cinco filhos, quatro homens e uma mulher, sendo um médico, outro engenheiro, dois administradores e um médico veterinário.

“Um deles ainda era solteiro e não estava conseguindo emprego em São Paulo. Nós decidimos nos mudar um tempo para lá, ficar com ele, dar uma força. Meu marido sempre foi aventureiro, isso nunca foi um problema. E lá nos adquirimos uma escola de ensino infantil, na Vila Mariana. Foram anos trabalhando com alunos do berçário até os seis anos”, relembrou.

“Nós chegamos a ter uns 40 alunos e mais cinco professores, além de outros funcionários. Eu e meu marido éramos o vovô e a vovó do ensino. Algumas vezes, quando percebia alguma imaturidade por parte dos professores, fazia reunião e conversava. Pedia a todos que colocassem os problemas em uma gaveta na hora das aulas. Já vi criança puxando a roupa do professor, pedindo atenção, e ele voando. Eu ia lá e conversava bastante. Muitos eram carentes também, adoravam o meu marido. Ele conversava, dava muita atenção”, disse D. Laís.

Em um dia comum de trabalho, a professora e agora diretora, recebeu um pai na escola. “Os pais chegaram para matricular esta menina, me lembro até hoje. O pai era gerente comercial e a mãe médica. Eles disseram que a menina não falava, era um desafio pra gente. Eu fui trabalhando as cantigas, gostava muito de ensinar com as canções. Até que, certo dia, após a menina estudar um tempo conosco, o pai falou que estava dentro do carro com ela. Ele tinha o hábito de ir falando: ‘Agora vou virar aqui, agora vou virar ali’. E daí ele disse que, de repente, ela começou: ‘Se essa rua, se essa rua fosse minha…’. É uma das músicas que a gente estava trabalhando com as crianças, então, ele veio agradecer. Foi bem emocionante”, finalizou Laís.

Para todos os professores e antigos alunos, a vovó deixa um recado: