Já faz um tempinho que não piso mais em uma sala de aula, porém, tenho certeza que seria entrar e o olho iria direto para as carteiras… será que tem alguma para canhoto? Ou vou ter que juntar duas para apoiar e conseguir escrever certinho? Será que alguém vai fazer piadinhas e dizer que minha mão é torta? Pensamentos longínquos à parte, esta é a realidade de quem nasceu com desígnio para escrever e fazer atividades com a mão esquerda.

É isso mesmo, ninguém nasce e fala que quer ser destro ou canhoto. Essa definição, inclusive, foi motivo de muitos estudos por parte de cientistas, em uma universidade alemã, em parceria com outros dois países. A pesquisa apontou que a resposta não vem do cérebro, mas sim é determinada desde o útero, sendo que a medula espinhal é a que define a preferência por um lado do corpo.

Então, quem está aí, do outro lado, saiba que somos minoria, porém, não há problema algum nisso. Aliás, somos perfeitos como qualquer um outro e até “premiados”, já que dizem que canhotos são sempre mais criativos. E temos uma data – 13 de agosto, Dia Mundial do Canhoto.

A estudante Yasmim Martines, de 13 anos, fala que “já sofreu muito na escola”, em Campo Grande, por ser canhota. “Agora eu não ligo, mas, foi bem difícil não ter carteira e esticar o braço em outra, para escrever de forma mais confortável. Tinha sempre alguém olhando estranho, falando: ‘ela é canhota’, como se isso fosse problema”, comentou.

Estudante diz que já ouviu absurdos como ‘quem é canhota é contra Deus’

Entre os absurdos, Yasmim fala que já ouviu que “quem era canhota era contra Deus”. “Eu não acreditei em nada, só que fiquei sim uns dois dias pensativa no assunto. Depois conversei com meu pai e entendi que ainda ia escutar isso mais vezes. Tudo besteira”, ressaltou.

A técnica em radiologia, Janaina Girardi Parizotto, de 31 anos, comenta que ser canhoto já é ser diferente de todo o resto. “Uma coisa que acontecia na escola e até hoje acontece é todo mundo olhar na hora que estou usando a tesoura, porque uso a mão esquerda. As pessoas falavam que eu estava cortando errado quando, na verdade, eu não estava”, relembrou.

Janaina na escola e com os colegas. Ela acredita ser a única canhota do grupo. Foto: Janaina Parizzotto/Arquivo Pessoal
Janaina na escola e com os colegas. Ela acredita ser a única canhota do grupo. Foto: Janaina Parizzotto/Arquivo Pessoal

Ainda na série “absurdos que a gente escuta”, Janaina comenta que alguém disse que ela ia morrer mais cedo, já que usava a “mão do lado do coração, então, como usava mais o lado esquerdo, iria morrer mais cedo”.

Todos estes depoimentos também foram um insight para tudo o que já vivi. Além da falta de carteiras na sala de aula, me lembro claramente da minha avó falando “deixa que sirvo porque senão você derruba tudo”. E lá vai eu criança, na beira do fogão quieta, esperando ela pegar a concha de feijão e servir, achando que realmente eu deveria ter habilidade com a mão direita.

Outro episódio muito claro em minha mente são os treinos de handebol. Pivô, armadora e canhota, era gol na certa, tanto que pratiquei por anos o esporte e cheguei a ser “federada”, como diziam os atletas que percorriam o Estado jogando contra outras escolas. Mas, em um troca de professores, durante um treino de arremessos, quando a goleira não estava pegando nenhuma bola minha, ele disse: “Grazi, coloca a mão esquerda para trás e faz arremessos só com a direita agora”. Na época, aceitei, mas, se fosse hoje em dia, com o perdão da palavra, ia mandar o professor, no mínimo, “ir catar coquinho”.

Engraçado que o tempo foi passando e sempre escutei que tinha uma letra bonita e, vez em quando, alguém falava: “Ah, você é canhota, que legal!” Foi exatamente aí que entendi que ser canhota chama a atenção por sermos minoria, porém, não há nada de errado nisso. O fato é que somos apenas 10% da população, de acordo com dados científicos.

Revista aprofundou assunto e obteve relatos de preconceitos, em que até o salário do canhoto era menor

Arte que circula em grupos específicos de canhotos nas redes sociais. Foto: Internet/Reprodução
Arte que circula em grupos específicos de canhotos nas redes sociais. Foto: Internet/Reprodução

Para comprovar que o assunto não é bobeira, a revista Super Interessante já publicou uma reportagem com a seguinte pergunta: É verdade que os canhotos já foram perseguidos? E adivinhe a resposta: sim! A publicação ainda aprofundou o assunto e chegou a dizer que existem relatos de preconceitos, em que até o salário do canhoto era menor.

Ainda conforme a Super Interessante, durante boa parte da história da humanidade, o lado esquerdo e os que utilizam mais essa mão foram vítimas de preconceito cultural, social e religioso. Uma das primeiras teorias, há 350 mil anos, é de que entre os povos neandertais europeus falavam que quem se orientava pela estrela polar à noite percebia que o sol se movimentava da direita para esquerda ao nascer. Logo, a direita ficava como a mão do nascente, que traz a vida, e a esquerda, como a que tira, no poente.

No século 19, um médico italiano chegou a dizer que canhotos tinham maior suscetibilidade a psicopatias, criminalidade e violência. Hoje, são estudos completamente ultrapassados, mas que chegaram a influenciar o Código Penal Brasileiro, em 1940.

O livro The Puzzle of Left-Handness fala que canhotos também foram vítimas de processos violentos de reeducação para usar a mão direita. Um exemplo foi o rei inglês George 6º, que pode ter desenvolvido gagueira por ter a canhotice mudada na marra.

Até a sugestão bíblica existente é de que a mão direita é divina e isso teve consequências desastrosas na Idade Média. Pela lógica, a Igreja Católica entendeu que a esquerda estava ligada ao Diabo. Durante a Inquisição no século 12 e a caça às bruxas, organizada pelos protestantes na América, no século 16, vários canhotos foram torturados e queimados como bruxos.

São tantos absurdos que a gente até cansa de escrever…e você, ainda acha que ser canhoto não é normal?

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