134 anos da abolição: elo com a terra é grito de liberdade para famílias de quilombo em MS

Furnas do Dionísio é uma comunidade remanescente de quilombolas e ocupa uma área de 1.018,28 hectares em Jaraguari
| 13/05/2022
- 08:00
Entrada do quilombo Furnas do Dionísio
Entrada do quilombo Furnas do Dionísio (Leonardo de França/Jornal Midiamax)

A Lei Áurea foi aprovada em 13 de maio de 1888, ou seja, há exatos 134 anos ocorria a abolição da escravatura no Brasil. Considerado um evento recente para a história do país, o verdadeiro grito de liberdade para o quilombo Furnas do Dionísio está no elo com a terra, relação que, desde a ancestralidade, proporcionou o sustento das famílias que vivem na região. Da agricultura familiar até o manejo da cana-de-açúcar, os suores dos descendentes percorrem os solos e, de lá, nasce o pertencimento de toda uma identidade.

Produção de rapadura em Furnas do Dionísio
Produção de rapadura em Furnas do Dionísio (Foto: Leonardo de França/Jornal Midiamax)

Furnas do Dionísio é uma comunidade remanescente de quilombolas e ocupa uma área de 1.018,28 hectares. Localizada no município de Jaraguari, está a 45 quilômetros de Campo Grande. O quilombo foi fundado por Dionísio Antônio Vieira, que chegou na região em 1890 — no antigo Estado de Mato Grosso — com a sua família. Eles vieram de Mineiros (GO) fugidos de ameaças após a abolição e se instalaram nas terras onde hoje pertencem ao quilombo.

Atualmente, o local é habitado por cerca de 400 pessoas e a economia gira em torno da produção de rapadura, açúcar mascavo — e demais derivados da cana-de-açúcar — farinhas de mandioca, hortaliças e leguminosas no geral.

De acordo com o tataraneto de Dionísio, Osvair Barbosa da Silva, de 52 anos, os descendentes são sustentados pela agricultura familiar e pelo manejo com a terra.

“Furnas foi contemplada com a indústria de açúcar mascavo e rapadura. Isso foi um grande patamar que hoje a economia está voltada dentro da cana-de-açúcar e graças a Deus, por causa desse processo, eu percebo que vem para ser um processo duradouro. Daqui uns dias Furnas será uma grande exportadora de cana-de-açúcar. E hoje, com a alavanca da cana-de-açúcar, os produtores estão felizes”, comemora o descente, que mora com a mãe, Ceci, no quilombo.

Osvair tataraneto de Dionísio
Osvair tataraneto de Dionísio (Foto: Leonardo de França/Jornal Midiamax)

A expectativa, agora, é continuar investindo no setor, aumentar a produção industrial para atender à demanda e transformar Furnas do Dionísio num grande potencial de Mato Grosso do Sul.

Ecoturismo: vertente começa a crescer na região

É o que afirma Osvair. Prezando pelo ecoturismo e roteiros que retratam a preservação ambiental, Furnas do Dionísio é também um destino para os amantes da natureza. A ideia de abrir as portas para turistas é, justamente, levar o nome do quilombo para mais longe. “A gente percebeu que dentro disso aqui criou uma veia que é o próprio coração de Furnas: história, cultura e tradição desse povo”.

Em meio aos córregos Rochedinho e Boa Vista, Furnas do Dionísio oferece trilhas, banhos de cachoeira, boiacross e mirantes para apreciação do local.

“Furnas tem uma grande riqueza que é a verdadeira natureza. Estavam escondidas coisas maravilhosas em meio ao mato”.

Ainda segundo o tataraneto de Dionísio, a aposta na nova economia trará recursos para as futuras gerações, responsáveis por mostrar o poder da comunidade negra ao restante do Estado.

Furnas do Dionísio é paraíso natural
Furnas do Dionísio é paraíso natural (Foto: Leonardo de França/Jornal Midiamax)

Crianças em Furnas do Dionísio

Várias crianças moram com suas famílias em Furnas do Dionísio. A nova geração de descendentes carrega consigo a importância de preservar a ancestralidade. Mas foi há muitos anos que uma figura muito importante dessa história passaria a mudar o rumo do quilombo a partir de então.

Ceci Barbosa da Silva, 71 anos. Ela foi casada com Osmar Ferreira da Silva, neto de Dionísio. A aposentada foi responsável por trazer a Zumbi dos Palmares para a região em 1995. Desde então, crianças e adolescentes têm acesso facilitado à educação.

Ao MidiaMAIS, a cearense contou que veio morar na comunidade aos 14 anos de idade junto com a família. Anos depois se casou e teve dois filhos, Osvair e Osnei. Na época, a mais próxima da propriedade rural era uma municipal, onde, inclusive, trabalhou por 35 anos como merendeira. O trajeto para deixar os filhos na escola era longo.

Ceci mora na comunidade
Ceci mora na comunidade (Foto: Leonardo de França/Jornal Midiamax)

“Comecei a trabalhar em 1983, meu marido era professor. Daí eu e ele começamos a trabalhar na escola. Meio período lá e meio período na roça. Eu saía daqui 3h da manhã e ia no Rochedinho a pé para falar com os meus filhos no café da manhã. Por isso, eu lutei muito para que saísse na escola estadual”.

Foi com o apoio de outras mães que Furnas do Dionísio recebeu a Escola Estadual Zumbi dos Palmares em 1995. Hoje, a instituição de ensino atende toda a área rural da região. Depois de 27 anos, Ceci fica orgulhosa ao ver os frutos da sua luta.

“Eu me sinto tão feliz porque eu vou na escola e parece que todos são os meus filhos. Todos os alunos me abraçam, conversam e isso é muito importante de ver o crescimento das crianças dentro da escola”, afirma Ceci, emocionada.

Quilombos em Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul conta com 22 Comunidades Remanescentes de Quilombos, distribuídas em 15 municípios. Dentre elas, Furnas do Dionísio é uma das mais populosas. Joel Antônio da Pena, 52 anos, nasceu na comunidade Tia Eva, mas sempre visita o quilombo de Jaraguari.

“A região Centro-Oeste sempre foi muito procurada por produtores que tinham intenção de trabalhar. Então, eles vieram para cá. Dionísio foi praticamente o primeiro habitante dessas comunidades quilombolas — juntamente com Tia Eva — aqui em Mato Grosso do Sul”, relata.

Após 134 anos desde a carta de alforria, retornar ao passado é uma oportunidade de se questionar sobre os ancestrais que vieram a Mato Grosso do Sul em busca de uma vida melhor. Sem recursos, oportunidades e muitas vezes ameaçados na época, atualmente o movimento negro se questiona: o que, de fato, comemorar no dia 13 de maio?

13 de maio é uma data comemorada?

Na verdade, não muito desde a década de 1970. A conscientização foi resultado dos movimentos negros brasileiros que resolveram instituir um dia da consciência negra para ressaltar o papel dos próprios negros no processo de sua emancipação. Assim, o dia 20 de novembro, que relembra a execução de Zumbi de Palmares, seria um contraponto ao 13 de maio.

Segundo historiadores, 13 de maio é uma data que representa a abolição como um ato de ‘generosidade’ da elite branca.

Afinal, após a libertação, muitos negros não tinham sequer condições mínimas de sobrevivência, uma vez que não possuíam oportunidades de empregos, eram rejeitados nos grupos sociais e sofriam represálias. Foram libertos num sistema que não se preparou para introduzi-los à sociedade.

Portanto, a escravidão resultou em danos severos que não acabaram com a assinatura da princesa Isabel em 1888 e, na realidade, perpetuam até hoje.


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