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'Usava papel higiênico pra durar mais': o dilema de comprar absorvente ou leite para o filho em MS

Relatos de quem chegou a roubar papel higiênico ou foi chamada de 'porca' pelo marido são comoventes e escancaram a pobreza menstrual em MS

João Ramos Publicado em 20/10/2021, às 09h09

No Brasil, milhões de meninas carecem de infraestrutura e itens básicos para cuidados menstruais
No Brasil, milhões de meninas carecem de infraestrutura e itens básicos para cuidados menstruais - (Foto: Elias Costa, Unicef)

Assunto proibido, visto como tabu ou até mesmo pecado em algumas famílias sul-mato-grossenses, a menstruação, apesar de ser um ciclo da natureza humana, pode ser um tema complicado e intocável para mulheres, dependendo da forma como foram criadas. A complexidade em lidar com o próprio corpo, aliada à pobreza, pode levar a atitudes extremas.

Políticas públicas pensando na população feminina que enfrenta esta mazela ganharam força em Campo Grande, Mato Grosso do Sul e em todo o Brasil, especialmente em 2021, garantindo o acesso ao material de higiene básica, quando a precariedade não permite o livre alcance ao produto. A pobreza menstrual é uma realidade, mas por ser da mais profunda intimidade, acaba não sendo compartilhada devido ao constrangimento das situações vividas por meninas e mulheres. Assim, não chega ao conhecimento de muitos as tristezas e humilhações que vivencia a mulher que precisa, por exemplo, escolher entre comprar absorvente ou leite para o filho.

Hoje bem-sucedida, uma professora sul-mato-grossense (que não identificaremos para preservar a delicadeza íntima dos relatos), conta como enfrentou não apenas a pobreza menstrual, mas a precariedade da vida, durante toda a adolescência e o início da fase adulta. Aos 41 anos, ela diz ao Jornal Midiamax que menstruou pela primeira vez aos 10 anos de idade, e, na família, regras rígidas não permitiam que o assunto fosse mencionado. Foi ali que as dificuldades acerca do tema começaram.

"A gente morava de favor, vivia todo mundo ali na casa da minha avó. Ela tinha fogão a lenha, e todo dia de manhã, para não faltar nada, ela fazia chá e bolinho de chuva salgado para substituir o pão. Aquele chá ela não jogava o pó da primeira vez e ia reaproveitando... Se faltava dinheiro pra comida, imagina para o resto das outras coisas...", diz a mulher, que hoje vive em uma cidade do interior de MS.

"Eu não tinha dinheiro pra comprar absorvente. É vergonhoso você ter 12 ou 13 anos, não poder falar de menstruação, e de repente ficar menstruada. Ao mesmo tempo, você tem que pedir dinheiro para alguém que não tem dinheiro nem pra comida e você tem que ir no mercado comprar o absorvente com todo mundo te olhando. Eu fui vítima da pobreza menstrual e muitas vezes eu não tinha. Não tinha", conta.

Papel higiênico na escola

Sem renda nenhuma e dependendo dos outros, a funcionária pública relembra que alguém da família, um parente distante ou próximo, comprava absorvente e lhe dava um mês sim, um mês não. "Um pacote tem oito absorventes e um fluxo menstrual de uma adolescente de 13, 14, 15 anos, é bem intenso. Quando eu tava menstruada, chegava a usar um absorvente o ciclo inteiro. E aí eu aproveitava que já estava na escola e lá tinha papel higiênico, e usava tentando não deixar sujar o absorvente. Ia no banheiro, fazia um rolinho e colocava em cima do absorvente, como se fosse uma fralda, sei lá", descreve.

"Mas pensa no constrangimento, no medo... era short-saia, ou então aquelas bermudas de uniforme escolar de helanca. Eu tinha muito medo daquele papel higiênico escapar ou alguma coisa assim. Era muito constrangedor. Pensando em hoje, uma média do que se gasta com absorvente por mês é 15 reais. 15 reais parece que não vai fazer falta, mas, para quem tem filhos pequenos, muitas vezes, é preciso abdicar da sua higiene, pra comprar outras coisas, e eu fiz isso várias vezes", lamenta.

Marca de absorvente fez campanha de combate à pobreza menstrual (Foto: Reprodução)
Marca de absorvente fez campanha de combate à pobreza menstrual (Foto: Reprodução)

Uma situação, em especial, marcou a vida da professora. Aos 12 anos, ela ficou entre a vida e a morte, precisando ser submetida a uma cirurgia. Enquanto se recuperava no hospital e a entrada de parentes não era permitida, a menstruação desceu. Foram dias, envergonhada na cama, menstruada, sem coragem de se levantar ou pedir ajuda, devido à intocabilidade do assunto instaurada em casa. O fato ocorrido há quase 30 anos foi traumático na vida da mulher. Ela acredita que se houvesse uma política pública disponibilizando absorventes no hospital, na época, o constrangimento de ter ficado sangrando no ambiente hospitalar poderia ter sido evitado.

Ou pão, ou leite

Tempos depois, quando entrou na faculdade, a situação financeira da família era ainda mais crítica. Sem condições e precisando manter sua higiene, ela chegou ao extremo. "Faltava até papel higiênico em casa. Então, às vezes, eu acabava levando um rolo, sabe aquele rolo institucional, de papel higiênico, da faculdade para casa", revela.

"Hoje, se a gente observar no contexto acadêmico, no contexto de escola, parece que as pessoas fazem de brincadeirinha, só pra zoar, mas não, realmente muitas pessoas fazem isso e eu fiz isso pela precariedade, por uma pobreza higiênica, menstrual. Eu acredito que, além de absorvente, o governo tinha que distribuir sim desodorante para as pessoas. Porque no mundo que a gente vive, ninguém não arruma um emprego porque não quer, ninguém não passa um desodorante na axila porque não quer, ninguém não escova o dente porque não quer", comenta.

Ainda na adolescência, a gravidez precoce de dois filhos dificultou ainda mais a situação. "Ou comprava pão para dar aos meus filhos, ou comprava um litro de leite, ou comprava um absorvente", diz.

Sem papel higiênico em casa, o jeito foi levar da Universidade (Foto: Reprodução)
Sem papel higiênico em casa, o jeito foi levar da Universidade (Foto: Reprodução)

Realidade

A mesma situação, já superada pela professora, hoje é vivenciada por uma moradora de Campo Grande. Dona de casa de 28 anos, sua renda vem do Bolsa Família e do emprego de pedreiro do marido na Capital. Eles pagam aluguel e é tudo muito apertado. "Você acha que se meu armário tá vazio e meu filho tá com fome, eu vou comprar um absorvente pra mim ou uma bolacha pra ele comer?", questionou ela à reportagem.

Envergonhada, ela não compartilha o problema com o esposo por vergonha, uma vez que já foi chamada de "porca" pelo companheiro em situação de precariedade da higiene. "Aquela vez meu bebê tava com febre, precisei comprar remédio na farmácia e era o único resto de dinheiro que tinha. Um dia depois, desceu a menstruação e não tinha absorvente. Pedi um pra minha irmã, mas o dela também já tinha acabado", conta a dona de casa.

Atualmente vivendo uma situação confortável, a professora do início da reportagem já superou o passado precário e agora ajuda quem precisa como pode, para tentar amenizar as mazelas enfrentadas pelas meninas. É como se ela oferecesse o que gostaria de ter recebido quando precisou. Trabalhando numa escola, ela carrega absorventes na bolsa e guarda alguns na gaveta, porque consegue identificar quando alguma menina pede pra ir embora porque está menstruada. "A partir do momento que você oferece para ela um absorvente ou um pacote inteiro, na maioria das vezes, ela vai ao banheiro, faz a higienização e volta para a sala", relata.

Empatia

Quando o projeto de lei que oferece absorventes gratuitamente foi apresentado, a professora se sentiu representada. Em meio às lágrimas, com a voz embargada de emoção, ela comemora.

"A gente fica feliz, eu acredito na juventude de hoje, eu acredito na juventude que tem uma sensibilidade, um olhar para o próximo. E quando você fala de pobreza menstrual, é muito além da menstruação. Tem meninas que se alimentam na escola e, naqueles dias que estão menstruadas, pela falta de absorvente, não vão à aula. São dias que elas não comem", lamenta.

Para ela, a empatia é o primeiro passo para ajudar a combater a pobreza menstrual. "Principalmente nós, mulheres, precisamos muito ter isso. Vi muitas críticas de pessoas dizendo 'ah, quem não vai ter R$3,50 pra comprar um absorvente? Eu não tinha", finaliza.

Veto polêmico

O presidente Jair Bolsonaro sancionou a criação do Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual (Lei 14.214), mas vetou a previsão de distribuição gratuita de absorventes femininos para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de rua, que era a principal medida determinada pelo programa. A sanção foi publicada na edição do dia 7 de outubro do Diário Oficial da União.

Presidente vetou a distribuição gratuita de absorventes e fez interesse pela pobreza menstrual disparar (Foto: Annika Gordon, Unsplash)
Presidente vetou a distribuição gratuita de absorventes e fez interesse pela pobreza menstrual disparar (Foto: Annika Gordon, Unsplash)

O governo não concordou, alegando que absorventes higiênicos não se enquadram nos insumos padronizados pelo SUS e não se encontram na Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais). Além disso, "ao estipular as beneficiárias específicas, a medida não se adequaria ao princípio da universalidade, da integralidade e da equidade do Sistema Único de Saúde".

Bolsonaro também vetou o item do projeto que determinava a inclusão de absorventes nas cestas básicas entregues no âmbito do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). Os vetos estão sendo analisados pelos parlamentares em sessão do Congresso Nacional, com data ainda a ser marcada. Para a rejeição do veto, é necessária a maioria absoluta dos votos de deputados e senadores, ou seja, 257 votos e 41 votos, respectivamente, computados de forma separada. Registrada uma quantidade inferior de votos pela rejeição em uma das Casas, o veto é mantido.

Senadores de diversos partidos estão se articulando para derrubar a decisão de Bolsonaro. Em meio à isso, cresceu no Google o interesse pelo assunto da pobreza menstrual e distribuição de absorventes. De acordo com Ana Cláudia Guimarães, do blog Ancelmo.com, do Jornal O Globo, nas duas últimas semanas, o Brasil foi o país que mais pesquisou sobre o tema no mundo — nos últimos 12 meses, o Brasil aparece em quinto lugar no ranking de interesse por absorvente, mas saltou para a primeira posição durante o mês de outubro após o crescimento nas consultas pelo item no país.

Segundo o levantamento, a pergunta mais buscada foi "por que Bolsonaro vetou o absorvente?". O assunto também aumentou as consultas sobre pobreza menstrual no Brasil, que atingiu em outubro o recorde de interesse sobre o tema da série histórica do Google Trends, iniciada em 2004.

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