Qual é a primeira coisa que você olha na hora de ler uma notícia? Se a imagem foi uma das suas opções, é porque ela tem um papel muito importante na cobertura jornalística desde que foi implementada nos veículos de comunicação, especialmente os impressos e, posteriormente, digitais. O fotojornalismo é essencial para retratar a realidade de um jeito que o texto não consegue fazer. Por isso, neste Dia do Repórter Fotográfico (2), homenageamos os profissionais que trabalham com a arte de registrar a história através das lentes em Campo Grande.

O repórter fotográfico trabalha com um olhar de jornalista, de crítico e analítico, mas sempre equilibrando a essência da fotografia, expondo às pessoas eventos que provocam emoções, ações e sentimentos. Dessa forma, o fotojornalista não é só uma pessoa com uma câmera na mão, mas sim o responsável por registrar aquele momento único que ficará guardado para sempre.

Pensando nisso, o jornal Midiamax selecionou o trabalho de alguns repórteres fotográficos que atuam em Campo Grande e que já catalogaram várias imagens importantes de eventos que aconteceram na Capital. Tragédias, manifestações e vitórias, até um simples fato cotidiano – que passa despercebido aos olhos da população – tem muita coisa para relatar.

Como eles contam histórias através de fotografias, hoje fizemos uma dinâmica um pouquinho diferente. Agora, você vai acompanhar de perto a visão de cada um deles na hora de fotografar um acontecimento.

Henrique Arakaki

Henrique Arakaki começou no fotojornalismo em 2019, quando entrou no Jornal Midiamax. Com o talento de fotografar e documentar tudo que acontecia ao redor, logo ele se adaptou à profissão.

Dentre os registros que marcaram sua trajetória, destaca-se o dia em que fotografou o trabalho do no combate ao incêndio no Atacadão, na região do aeroporto de Campo Grande, ocorrido em setembro de 2020.

(Foto: Henrique Arakaki, arquivo Midiamax)

 

Nessa imagem, Arakaki fotografou o dia em que um usuário que fica na região da Antiga Rodoviária ganhou uma cadeira de rodas nova durante as Operações Laburu.

(Foto: Henrique Arakaki, arquivo Midiamax)

 

O fotógrafo também registrou o sofrimento da Comunidade Aguadinha com as chuvas que destroem totalmente os barracos onde as pessoas moram.

(Foto: Henrique Arakaki, arquivo Midiamax)

 

E como esquecer das queimadas no Pantanal? Além do fogo destruir toda a vegetação desde as raízes das árvores, a equipe da Prevfogo trabalhava durante a madrugada inteira para acabar com as chamas.

(Foto: Henrique Arakaki, arquivo Midiamax)

 

(Foto: Henrique Arakaki, arquivo Midiamax)

 

Marcos Ermínio 

Já o Marcos Ermínio mudou totalmente de carreira em 2012, quando largou a estabilidade financeira como gestor financeiro e se arriscou no fotojornalismo, profissão que é apaixonado até hoje. Para ele, o fotojornalismo faz dele uma pessoa melhor, além de criar oportunidades de conhecer pessoas e lugares que jamais imaginava antes.

“O que me encanta é isso, a mistura entre informar e contar uma história com sensibilidade artística e humana. A gente precisa estar com essa essência e de ligação quase que religiosa com aquilo que vamos fotografar para extrair o máximo do sentimento da situação para que o leitor possa ver não somente o fato, mas sentir também”, disse.

O reconhecimento veio com alguns prêmios. Um deles é o Prêmio do TRT (Tribunal Regional do Trabalho), no qual recebeu o troféu de primeiro lugar das mãos de Caco Barcellos, referência no nacional. Agora, Ermínio mostra a sua visão sobre os acontecimentos que já fotografou:

Na manhã do dia 15 de Novembro de 2019, várias mulheres fecharam a passagem de ônibus no terminal Morenão, por falta de ônibus da linha 070. Me recordo que estávamos em ronda e com equipe reduzida por conta do feriado. Quando recebemos a informação do protesto, estávamos próximos, e imediatamente chegamos e encontramos aquela situação de tensão com a guarda municipal. Quando as mulheres perceberam a presença da imprensa, elas aplaudiram e agradeceram, mas já havia registrado a forma que a guarda conduziu a situação.

(Foto: Marcos Ermínio, arquivo Midiamax)

 

No dia 20 de Maio de 2018, no Brasil um movimento paralisava o transporte nas estradas, a categoria de caminhoneiros paralisou por 11 dias, causando uma série de desabastecimentos, inclusive de combustível, alimentos e de medicamentos e insumos hospitalares. Era possível, nos primeiros dias, ver os postos de gasolina que ficam no anel rodoviário, muitos motoristas longe de casa começavam a receber apoio da população. No mesmo período, quando os postos de gasolina da capital começaram a ficar sem combustível, inclusive para os serviços essenciais, podemos acompanhar militares escoltando caminhão tanque de combustível, era uma cena muito semelhante em áreas em conflito civil.

(Foto: Marcos Ermínio, arquivo Midiamax)

 

Em um plantão de Natal, no dia 23 de dezembro de 2019, o jornal tinha uma demanda da editoria de polícia, e tivemos acesso ao túnel escavado pela quadrilha que tinha a intenção de roubar uma agência do no Bairro Monte Castelo, em Campo Grande. O Garras monitorou por semanas a ação, mas só interceptou o grupo quando reuniu provas da tentativa. Após percorrer cerca de 60 metros de um túnel que passa somente uma pessoa, em um ambiente úmido, quente e hostil, pensei o que o homem não é capaz de fazer por dinheiro.

(Foto: Marcos Ermínio, arquivo Midiamax)

 

Era dia 26 de fevereiro de 2019, a chuva começou logo no início do expediente, quando por volta das oito horas a redação encaminhou a equipe para o cruzamento entre avenidas Ernesto Geisel e Euler de Azevedo, quando chegamos ao local uma mulher e uma criança estavam ilhadas em um Hyndai HB20. Era desesperador porque a correnteza estava muito forte, uma guarnição da PM, quando chegou ao local, de imediato conseguiu uma corda em um depósito que ficava a frente, e pude obsevar aqueles militares desafiarem a natureza e salvar a criança e a mulher. Por estar no local e na hora exata, a imagem viralizou e ganhou até uma versão pelo chargista do Jornal.

(Foto: Marcos Ermínio, arquivo Midiamax)

 

Desde quando começou a Pandemia, todos esperavam pelas vacinas, e depois de passar alguns meses em isolamento social, retornamos com um certo receio, mas no dia 18 de março de 2020, era visível no olhar dos colegas e envolvidos na ALA 5 aguardando as primeiras doses da Vacina CoronaVac. Foi uma alegria e um alívio, quando o avião da força área abriu a comporta e as caixas de vacinas surgiram como se fosse uma luz no fim do túnel surgindo. 

(Foto: Marcos Ermínio, arquivo Midiamax)

 

Leonardo de França 

Já Leonardo de França nasceu com a fotografia pulsando nas veias, isso porque o pai era fotógrafo e ensinou o ofício ao filho desde pequeno. Primeiro no ramo da publicidade, Leonardo entrou para o jornalismo em 2013, quando se tornou efetivamente repórter fotográfico.

“O que mais me encanta na fotografia é a luz. Não me vejo como artista, prefiro ser um observador contumaz da luz. Adoro ver luz natural e estudar o melhor ângulo, a incidência dela sobre as coisas e as pessoas”, contou o profissional.

Desde então, suas lentes tiveram a missão de contar várias histórias, como o principal movimento da contemporaneidade contra o governo brasileiro, ocorrido em 2013. Popularmente conhecido como “Jornadas de Junho”, o protesto ganhou proporções gigantescas e incentivou a participação de manifestantes do país inteiro, inclusive em Campo Grande.

Eu nunca tinha visto tanta gente reunida. Inicialmente tudo estava tranquilo, o protesto estava grande e cheio de gente, mas não parecia que iria se tornar a confusão que virou. Grupos de jovens começaram a deter o trânsito e alguns motoristas mais nervosos avançaram contra as pessoas. Felizmente nesse momento, os manifestantes abriram espaço e os carros passaram.

(Foto: Leonardo de Franca, arquivo O Estado)

 

Ainda no centro, outros grupos tentavam arrombar a chutes a porta de algumas lojas, houve destruição de patrimônio público. Na minha falta de experiência nesse tipo de situação, estava fazendo fotos usando o flash, o que acabou chamando a atenção do grupo que me cercou e queria tomar meu equipamento e me bater. Por sorte, uma pessoa que desconheço, mas que estava junto com eles, interveio e disse que eu devia sumir dali, o que eu prontamente NÃO fiz, afinal, era o meu trabalho registrar aqueles momentos. A adrenalina também ajudou.

(Foto: Leonardo de Franca, arquivo O Estado)

 

Pouco depois, o grupamento de Choque da PM chegou ao local batendo em seus escudos e dispersou a multidão com tiros de borracha e gás lacrimogêneo. No chão, garrafas de coquetel molotov quebradas que, acredito, tinham um outro destino. Novamente, segui a multidão para onde se direcionavam. Com a chegada da PM, o protesto perdeu força e apenas alguns bolsões de gente podiam ser vistos. Em um deles, lembro bem, um jovem arguia com um policial militar, que com o rosto impassível apenas escutava o rapaz despejar gritos com o dedo em riste.

(Foto: Leonardo de Franca, arquivo O Estado)

 

Foi uma noite longa, cansativa, assustadora em alguns momentos. Algo ao qual o campo-grandense não está acostumado a ver, a não ser pela televisão, em protestos semelhantes nas metrópoles. Pelo fato de ter visto tudo tão de perto a situação ficou marcada na minha memória.

Mas não foi apenas esse acontecimento que ficou guardado para sempre nas lentes – e no coração – de Leonardo. No Midiamax, as matérias de cunho social sempre sensibilizaram o fotógrafo.

Em uma dessas idas, visitamos por dias um grupo de pessoas que havia invadido uma área particular e que recebido ordem de despejo. Eram famílias que tinham emprego e uma moradia, mas por causa da Pandemia perderam seus trabalhos e a pouca dignidade que tinham, sendo levados a invadir áreas na tentativa de dar um teto para seus filhos.

(Foto: Leonardo de Franca, arquivo Midiamax)

 

Por dias, visitamos uma região nos arredores do presídio, no Jardim Noroeste. Essas pessoas viviam um grande drama, mas não perdiam as esperanças. Entre elas, maridos, esposas, filhos e filhas, idosos que deveriam ter aposentadoria, mas por conta de não possuírem documentos (perdidos em alguma enxurrada) não conseguiam o benefício de direito.

(Foto: Leonardo de Franca, arquivo Midiamax)

 

Fotojornalistas que fizeram história 

Existem os fotojornalistas que contam histórias e aqueles que deixam legados. É o caso do repórter fotográfico e jornalista Valdenir Rezende, que faleceu em fevereiro de 2021 vítima da Covid-19, aos 55 anos, em Campo Grande.

Referência na área, ele trabalhou no jornal Correio do Estado por 42 anos e passou o ofício aos filhos. Além disso, também atuou na redação do SBT. Símbolo da fotografia social em Mato Grosso do Sul, Rezende recebeu praticamente todos os prêmios de fotojornalismo do Estado.

Querido e admirado por toda a imprensa, Valdenir deixou a esposa e dois filhos, mas cravou na história sul-mato-grossense a verdadeira essência da missão que é trabalhar como repórter fotográfico.

Valdenir Rezende (Foto: Reprodução)