Apenas uma empresa realiza trabalho na Capital 

As páginas se amarelam, e aos poucos, o papel se torna volátil e com tempo de validade pode ser reduzido a pó. A capa, dependendo do material, fica esfarrapada e ilegível. Infelizmente os livros são bens materiais que apesar de seu conteúdo imaterial, estão sujeitos ao tempo, ao desgaste e ao esquecimento. Porém, há quem dedique tempo e muito trabalho para impedir que obras incríveis e repletas de história e afeto se percam. Em Campo Grande, quem realiza esse trabalho é a empresária Evanilde Lourenço, que relata restaurar livros há mais de duas décadas. 

Ao falar sobre esse trabalho, o entusiasmo de Evanilde é muito palpável. Na Gráfica Centro-Oeste, localizada na avenida Tamandaré, ela conta com um time de jovens que aprenderam o ofício da restauração com ela, já que não existe um curso sobre isso por aqui. “Não é pelo dinheiro, é pelo prazer de ver um livro recuperado. Por gostar mesmo. Me lembro de livros que chegaram aqui em pedaços, e a pessoa desesperada, pensando que não seria possível restaurar. E nós restauramos”, relata. 

 

 

 

Dentro da ampla oficina, obras de 1896 em exposição mostram o “antes” e “depois” de uma restauração, que pode levar de duas semanas a dez meses para ser concluída, “dependendo do estado dela”, conforme a empresária reitera. Ela diz que jamais negou um serviço, pois o grande objetivo é o resultado final e o impacto que a pessoa que pediu a restauração terá. “Não exista máquina que faça isso, é tudo manual, com cuidado. Ver a expressão das pessoas quando elas recebem os livros de volta, muitas vezes obras que pertenceram a entes queridos já falecidos, olha, é uma emoção”, descreve. 

Aprendizado

Evanilde aprendeu a restaurar livros em um colégio de freiras quando jovem, na cidade de Santa Helena (PR) e posteriormente foi estudar na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde aprendeu mais sobre o processo de recuperação e encadernação de materiais raros. Depois ela ensinou o ofício para seus funcionários da gráfica, os irmãos Marcelo Francisco da Silva, 32 anos, que é gravador (ou seja, faz as inscrições nas capas), e o jovem Maycon Francisco. “Eu fiz um curso de gravação mas aprendi muita coisa aqui. Recebemos muita encomenda para recuperar bíblias”, relembra Marcelo. 

 

Processo é feito de forma extremamente manual / Foto: Henrique Kawaminami

 

 

As obras religiosas, que muitas vezes ficam guardadas por muito tempo em Igrejas e templos, são os materiais que mais necessitam de recuperação. Atualmente, Evanilde trabalha recuperando uma série de documentos de uma paróquia inteira, onde os padres registraram manualmente, em folhas grandes e com caneta tinteira, os nomes de um sem número de crianças batizadas. Nesse trabalho, além de recuperar página a página, a restauradora irá encadernar e digitalizar todos os documentos, mas tudo isso de forma manual. 

Os restauradores recebem em média solicitações de 100 restaurações de livros e documentos por mês, o que é muito se pensarmos na forma artesanal do processo. Mas para Evanilde quanto mais melhor, já que livros são tesouros imemoráveis. Das histórias acumuladas dessa restauração incessante de obras, algumas são comuns. “Tem muito cachorrinho que come os livros do dono, mas a gente recupera”, brinca o gravador Marcelo. Além do tempo, a umidade “judia” das obras. Mas para Evanilde, nada disso é impedimento. “Ver a reação das pessoas não tem preço”, analisa. 

Saiba mais sobre a restauração de livros em vídeo produzido pelo MidiaMAIS, clicando aqui ou assistindo abaixo. 

 

Texto e narração: Daiane Libero
Fotos e vídeo: Henrique Kawaminami

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