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Pelo desejo de viver fora do comum, casal trocou casa de concreto por uma ‘motorizada’

Casados há sete anos, eles vivem num motorhome há quatro

Guilherme Cavalcante Publicado em 27/01/2016, às 09h00

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Casados há sete anos, eles vivem num motorhome há quatro

"Sejam bem-vindos, podem entrar. Desculpem, mas eu estou fazendo um frango com berinjelas ao forno para o nosso almoço, então aqui dentro vai estar meio quente", disse o representante comercial Ênio Oliveira, 47, ao receber a reportagem em sua casa. A residência, no caso, é um 'motorhome': uma carcaça de ônibus adaptada para ser não apenas um trailer, mas uma verdadeira moradia portátil, digamos assim, com direito a cama, banheiro, cozinha, despensa e sala de estar. Há quatro anos, o veículo é o lar de Ênio e da esposa, a nutricionista Meire Patussi, 43, e permite uma vida simples, mas confortável e cheia de emoções. Casados há sete anos, eles tinham em comum o sonho por uma vida fora do padrão. Adquirir um motorhome apenas coroou o desejo do casal.

Ênio e  Meire recém chegaram a Campo Grande após uma 'viagem' de um ano e três meses, na qual fizeram um tour pelo nordeste, em companhia de Mila, uma poodle de cinco anos, o 'alarme da casa'. Neste período, estiveram em 16 Estados, 13 capitais e aproximadamente 290 municípios da região. "Aqui é nosso ponto de referência por causa da família, mas nós gostamos mesmo é de estar por aí, conhecendo gente, lugares", explica Meire. O veículo foi estacionado no térreo do condomínio onde possuem um apartamento, mas refeições e visitas, pelo menos, aconteciam todas no motorhome.

No veículo, há um quarto com cama de casal, climatizado e com bastante espaço. O cômodo anterior, que abrigava dois beliches, foi adaptado. "Teve um dia que deu a doida e peguei o serrote e a marreta. Sai tirando tudo e fiz uma área para armários, máquina de lavar, bicicletas e para meu artesanato", conta Ênio. Televisão, geladeira e outros eletrônicos têm o suporte de placas solares para funcionar. A sala pode ser adaptada em mais uma cama de casal e uma de solteiro, caso haja visitantes. O banheiro tem chuveiro elétrico e o vaso sanitário, bem, faz tudo o que os outros fazem. "É um vaso daqueles de avião, usa pouquíssima água e vai tudo para um reservatório. Além desse, tem mais dois reservatórios, um de água de reuso e outro de água potável", explica.

Ritual

Para subir na 'casa', repórter e fotógrafa precisaram tirar os sapatos. "O piso do motorhome é mais sensível à sujeira e não é tão fácil de limpar, mas, além disso, os campistas têm isso de entrar de coração limpo na casa dos outros, ou seja, desnudo de alguma coisa. No caso, tirar o calçado é uma forma de promover este respeito que une o útil ao agradável. É uma regra geral entre nós", explica Ênio. "Além disso, todo campista tem uma consciência ambiental e de solidariedade. A gente compartilha, economiza, conserva. Faz parte da nossa filosofia", conta Meire.

Entrar no motorhome tem que ser com péno chão (Marithê Lopes)

Segundo o casal, a experiência de viver em um motorhome nos promove sensação de liberdade, de poder estar em qualquer lugar, de aproveitar o que o mundo oferece. Conhecer novas pessoas, novos lugares. "É uma vida sem rotina e sem pressa", explica Meire. O casal, entretanto, conta com algumas variáveis especiais: por ter duas deficiências, dentre elas, paralisia cerebral, a nutricionista decidiu aposentar-se. "Eu dizia isso à minha família, que quando eu me aposentasse seria visita na minha própria casa. Foi o que aconteceu, porque o Ênio é representante comercial e também é artesão, faz luminárias. Daí a gente incrementa a renda e isso permite essa vida diferente. Eu já nasci diferente, né?", conta.

Todavia, o casal deixa bastante claro que é preciso ter um perfil para se encaixar no modelo campista. "Tudo bem que não existe rotina, cada dia estamos num lugar diferente e conhecemos pessoas novas diariamente. Mas para qualquer campista é preciso ter o desapego das coisas, porque aqui a gente só leva o básico. Se fez um ano e a gente não usou, passamos para frente. E a outra coisa é o convívio, tem que saber manejar isso, tem que ter sintonia e harmonia, porque ficamos juntos 24h. Você não pode ficar feia ou emburrado, tem que resolver as diferenças na hora, porque não dá nem para deixer de ver a cara do outro", brinca Ênio.

Pé na estrada

Uma vez na estrada, mil coisas podem acontecer. Desde um pneu furar a encontrar amigos campistas que também estão rodando o país. "A gente, sempre que dá, marca de encontrar nos lugares, trocar experiências, fazer um almoço juntos. Tem um casal de Buenos Aires que mal falam português, mas que fizeram de tudo para nos ver. Foi muito bacana, muito legal. A gente fala de tudo, do lugares, da estrada, lugares que não podem deixar de ir, por aí vai", contam.

"Para quê pressa se o futuro é a morte?" (Marithê Lopes)

Como não há roteiro e o acaso guia o casal para o próximo destino, algumas precauções são necessárias. "Se a cidade tem muita grade, se percebemos que é insegura, por exemplo, preferimos ficar num lugar mais movimentado, como um parque de exposição, pátio de prefeitura, de igreja ou até mesmo dentro de uma empresa", explica Ênio. "Mas, em várias cidades, nós preferimos ficar numa praça, mesmo. Até porque tem um jardim bonito, movimentado, e sempre podemos fazer contato com as pessoas do local", acrescenta Meire. Ela, a propósito, lançou um livro autobiográfico em que conta a própria história até antes de conhecer Ênio. "O próximo vai ser sobre viver num motorhome", brinca.

Mesmo com um apartamento à disposição, o casal nem cogita subir as escadas para pernoitar no imóvel. "Ah, hoje acho que vamos dormir aqui, mesmo. Aqui tem ar condicionado e no apartamento não tem".

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