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Cracolândia tem ‘playboy’ o dia inteiro, diz agente de saúde

Rua Barão de Piracicaba, região central de São Paulo, sexta-feira. É perto das 15h30 quando um formigueiro humano se forma entre os usuários de drogas da localidade – junto com a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvétia, o coração da Cracolândia paulistana – e logo se dissipa, diante de cachimbos devidamente acesos. “A droga […]

Arquivo Publicado em 25/01/2014, às 21h08

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Rua Barão de Piracicaba, região central de São Paulo, sexta-feira. É perto das 15h30 quando um formigueiro humano se forma entre os usuários de drogas da localidade – junto com a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvétia, o coração da Cracolândia paulistana – e logo se dissipa, diante de cachimbos devidamente acesos. “A droga chegou”, observa, a poucos metros, uma agente de saúde do Município.

Na tarde anterior, o local teve outro tipo de aglomeração: a de policiais do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) em uma ação que, segundo o órgão, era corriqueira e tinha como objetivo a prisão de traficantes. Quatro deles, segundo a chefia do Denarc, foram presos em um grupo de 30 detidos. Entre os dependentes químicos e moradores da região, não faltaram relatos de uso excessivo da força por parte dos policiais – balas de borracha, spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo diante de uma recepção com paus e pedras à abordagem. O Denarc negou o uso da munição.

“E a quantidade de playboy que passa por aqui o dia inteiro? Seja de carro ou de bicicleta, eles vêm, pegam a pedra e fumam, ou levam embora. Será que é tão difícil perceber quem é o traficante? Até a roupa deles é diferente da roupa de usuário”, observa a agente de saúde que opera há três meses na região, mas com uma experiência profissional de 15 anos. “E aquilo lá em cima?”, pergunta, indicando a câmera de monitoramento em 360 graus da prefeitura.

Enquanto o Terra conversava com essa e outras agentes – todas pediram anonimato -, usuários que aderiram ao programa municipal Braços Abertos passavam ainda trajados com o uniforme da frente de trabalho, por elas, eufóricos com o primeiro pagamento pela adesão à iniciativa (R$ 15 por dia de varrição, ou R$ 75 por semana).

Ao passo que ao menos dois deles correram para o “formigueiro” humano (um, com aguardente às mãos), uma terceira adepta passou apressada, sorrindo, mostrando às agentes de saúde (“tias”, como são chamadas por parte dos usuários) duas sacolas quase transparentes de mercado. Nelas, eram visíveis uma caixa de sabão em pó, detergente, papel higiênico e sabonetes. “Pelo menos não vai gastar tudo em droga. Uma bênção”, disse uma outra agente de saúde.

Tarde tem usuários “agitados” e “gente armada”

Indagadas se a ação do Denarc deixou sequelas no atendimento, as agentes divergiram em parte, mas concordaram no todo: os usuários estavam “muito mais agitados” nesta sexta em comparação com dias anteriores. A reportagem presenciou quatro ataques com chutes ou socos, por parte deles, a carros que tentavam abrir passagem. Nervoso, um motorista xingou, chegou a descer do carro para tirar satisfações, mas foi contido por um idoso que passava pelo local.

“Depois de ontem, hoje tem até gente armada entre eles. Gente com faca e com arma de fogo. Mas conosco não mexem, não: eles sabem diferenciar o trabalho de agente e de polícia”, comentou uma agente de assistência social. Viaturas da Polícia Militar que fazem o patrulhamento na região passaram pela rua também sem dificuldades.

“Depois de 15 anos, é difícil algo que ainda me choque”, definiu a primeira agente de saúde. O que as motiva a insistir na recuperação dessas pessoas? “Acredito que a gente sempre pode mudar, transformar a vida de alguém nessa situação. Se não pensar assim, meu trabalho não faz sentido algum”, declarou.

“Podem espernear, programa vai continuar”, diz Haddad

Mais cedo, em entrevistas à imprensa, o prefeito Fernando Haddad disse que o programa já havia voltado ao normal durante o dia. A tarefa, alegara, seria a motivação dos agentes.

“Nosso trabalho agora vai ser motivar esses agentes, que ontem ficaram um pouco abalados, assim como motivar os beneficiários para que retomem as atividades normalmente – hoje é o primeiro dia de pagamento em uma semana, e a frequência desses trabalhadores só faz aumentar”, definiu o prefeito. “Podem espernear: nós vamos fazer aquele trabalho (o Braços Abertos) acontecer.

Para a Secretaria de Segurança Pública do Estado, a ação do Denarc na Cracolândia, na quinta, “foi legítima”. “Houve resistência, três policiais foram feridos e três viaturas danificadas. Os policiais buscaram reforço e realizaram quatro flagrantes por tráfico de drogas. O Denarc não possui e não usou bala de borracha na ação”, informou a pasta, em nota.

Jornal Midiamax