O filho do índio Nísio Gomes, executado na manhã desta sexta por um grupo armado revela detalhes do ataque. Segundo ele, três crianças teriam sido levadas pelo bando para-militar. Confira o áudio.

A reportagem do Midiamax entrevistou o filho de Nisio Gomes, líder indígena executado por um bando fortemente armado na manhã de ontem, 18/11,  no acampamento Guarani-Kaiowá,  que fica entre fazendas da região de Ponta-Porã e Amambai.

Valmir Gomes forneceu as mesmas declarações que à Polícia Federal de Ponta Porã, que são reproduzidas aqui. Ele afirma que alguns dos pistoleiros encapuzados que dispararam contra cerca de 520 índios tinham roupas com detalhes que lembravam militares. E uma das caminhonetes possuia chapa branca.

Além disso, o líder conta que três crianças foram sequestradas pelos bandoleiros, também paraguaios.

O assassinato do líder, que teve o corpo carregado pelo bando, que forma uma força paramilitar na região, teve repercussão nacional e internacional. Confira e ouça a gravação:

R

Valmir -Nas 6.25 horas eu olhei do outro lado, eu vi umas sete pessoas. E no meio, o paraguaio chamado Paulo Recarte(?), ele é um camisa amarela, mesmo. Ai falou assim: “Depois quando chegaram ai no acampamento, “tiro, tiro, tiro” – falando assim. Aí que o pai já falou “tiro, tiro, tiro mesmo”… aí ficou doido meu pai, depois eu também, depois caiu o meu pai, mesmo.

R – Você viu o seu pai morto?

V – Mas viu, viu na minha cara mesmo, pegou talho na cabeça, outro na face e outro na perna – calibre 12.
R – Quem foi que atirou no seu pai?
V – O pistoleiro, mesmo. Tudo pistoleiro do fazendeiro, aí.
R – Eles são ligados a que fazendas?
V – Tem fazenda Chimarrão, Querência,tem Ouro Verde, também.
R – Depois que atiraram no seu pai, o que fizeram?
V – Depois que atiraram no meio pai aí, carregaram no Toyota Hilux, cor prata. Depois de colocar, falaram assim: “eu não falei pra matar”, falou assim aquele paraguai, na língua deles, falando em guarani, na língua deles, falando. Aí que o papai já estava na caminhonete, depois “queimaram o foguete”. Depois, seguimos atrás das caminhonete. Na última caminhonete, uma caminhonete Ranger, cor verde ou azul escuro,tinha um símbolo de “gavião” mesmo, um símbolo de gavião mesmo. Aquele homem igual que o oficial, oficial de quartel, mesmo. Ai outro vestiu de camisa de soldado, soldado mesmo, tem símbolo na (….) o chapeuzinho tem símbolo, mesmo, tudo lá. Escondeu as placas com papelão, só que uma caminhonete Ford Ranger é chapa branca, chapa branca.
R – E você já falou isso para a Polícia Federal? (de Ponta Porã)
V- Já, já falei a ocorrência com meu pai, na Polícia Federal.
R – Você acha que além do seu pai, tem mais vítimas?
V – Temos, temos, temos. Levaram uma menina de 12 anos, um rapaz de 12 anos, e uma criança de 5 aninhos.
R – Levaram como?
V -Levaram junto com o corpo do meu pai.
R – Na caminhonete?
V – Na caminhonete Hilux, cor cinza.
R – E essas pessoas estavam feridas?
V – Não, não estavam feridas, eles estavam chorando rodeando junto com o corpo do meu pai e aí pegaram.
R – Não apareceu até agora?
V – Até agora não apareceu mesmo, e o corpo do meu pai, eu queria ver o corpo do meu pai.
R – E eles atiraram no seu pai ou atiraram em todo mundo(cerca de 520 pessoas)?
V – Atiraram em todo mundo, só que não acertaram tava tudo no meio do mato, mesmo.
R – O que você vão fazer agora?
V – Agora eu vou juntar mais gente, a não vai sair mais.
R – E se esse povo vier de novo?
V – Se esse povo vem, ah.. agora que nós vamos fazer (.?..) tá ferrado, mesmo.