Silvio Raimundo da Silva, coordenador da Funai, da região de Ponta Porã, falou nesta sexta-feira (25) sobre a situação em Aral Moreira, local onde o aconteceu o atentado contra o líder indígena Nísio Gomes, no último dia 18 de novembro.

De acordo com Silva, a região segue calma. “Ontem nossa equipe esteve na área. Nós fizemos o atendimento, levamos algumas lideranças indígenas para participarem de uma reunião no Ministério Público Federal, intermediária pelo procurador geral e também com os arrendatários da área onde os indígenas estão acampados”.

A reunião realizada ontem (24) foi para tentar estabelecer modos de convivência pelo menos até a ação judicial. “A gente precisa garantir que as coisas caminhem enquanto isso. Então, houve essa reunião, durou praticamente a tarde inteira e eu não tenho o resultado porque estou em viagem. Não tive contato com a nossa equipe de Ponta Porã, mas quero acreditar que o resultado foi bastante positivo”.

Segundo Silva, a comunidade ainda está um pouco assustada por causa da violência que foi praticada. “Mas, com acompanhamento da Polícia Federal, que está investigando, da Força Nacional e da própria equipe da Secretaria de Defesa dos Direitos Humanos da Presidência da República, que esteve na área, isso tudo colaborou para que a comunidade fosse aos poucos tentando retomar a sua vida, tentando entender também, que hoje, o risco pode existir. No entanto, o estado brasileiro está agindo para que eles tenham o mínimo de segurança”.

Para o coordenador, a presença da Funai e da Polícia passa para a comunidade a segurança de que este ato de violência que aconteceu está sendo apurado. “E a gente espera que ela seja no final não mais um caso sem solução”.

Vítimas

O coordenador da Funai não confirmou a existência de outras vítimas no atentado ocorrido em Aral Moreira. “Hoje as investigações caminham para o seguinte: apenas o senhor Nísio está ainda desaparecido. A gente não fala oficialmente em morto porque o corpo não foi encontrado”.

De acordo com Silva, a Funai tem procurado ser bastante prudente sobre as informações ligadas ao caso. “As investigações apontam que uma violência sem tamanho foi praticada. Agora, afirmar categoricamente não tem como. Tudo parece estar caminhando para que se confirme que o resultado, a ação em Aral Moreira tenha sido ruim. Muito pior do que aquilo que nós gostaríamos que tivesse acontecido. Mas, eu quero esperar e ser bastante prudente no momento e aguardar o resultado da perícia, das investigações da polícia”.

Silva ressaltou que quanto a possibilidade de outras pessoas desaparecidas a Funai não tem como confirmar. “Tinha uma informação que havia algumas crianças desaparecidas. Também não confirmamos ainda, mas não descartamos essa possibilidade. Os pais não foram encontrados. Isso é o que está impedindo de confirmar o desaparecimento dessas crianças”.

Avaliando a situação, Silva enfocou que pode ter acontecido uma fuga no ataque. “Nesse caso os pais dessas crianças teriam se perdido e parado em outras aldeias e nós não tivemos condições de visitar todas elas”. E acrescentou: “É lógico que a gente espera também, que com toda essa divulgação e o próprio movimento indígena visitando as aldeias e conversando com o pessoal, que tudo isso repercuta para que a gente consiga localizar essas crianças e os pais delas. E, esperamos que estas crianças não estejam desaparecidas. Nós temos muita esperança que elas estejam em segurança e não desaparecidas”.

Investigações

Silva afirmou que as investigações estão em torno do desaparecimento de Nísio Gomes. “Ou vivo, que seria para nós uma coisa extraordinária. Mas, se não for possível isso, que a gente encontre pelo menos o corpo, porque para a comunidade isso é muito importante. Eles querem ter os rituais fúnebres. Para eles isso faz parte do universo e de suas crenças”.

Segundo Silva, com a vinda da Secretaria de Defesa dos Direitos Humanos da Presidência da República, na última quarta-feira (23), houve o compromisso de que haverá uma equipe da Força Nacional de Segurança atuando na região. “Será criada uma base, vamos dizer assim, ou uma equipe pelo menos, para ficar fazendo a segurança da região. Fazendo rondas para impedir que novos atos de violência aconteçam”.

Nisio Gomes

Questionado sobre a possibilidade de encontrar o líder indígena Nísio Gomes vivo, o coordenador da Funai destacou que a cada dia isso vai diminuindo. “Quanto mais o tempo passa, a possibilidade de se encontrar uma pessoa viva, numa situação de violência como essa que aconteceu, ela vai diminuindo. Oxalá fosse possível encontrá-lo vivo, eu não diria que isso diminuiria, ou jogaria por terra todos os crimes da situação. Mesmo porque, ele seria testemunha e uma comprovação de que a violência aconteceu e no mínimo houve sequestro e cárcere privado, crime do mesmo jeito”.

Silva enfocou que a Funai não aceitará que a culpa seja jogada nos indígenas. “Nós estamos reafirmando que a população indígena sofreu um ato de violência e esse ato está sendo investigado pelo estado brasileiro”.