No final da tarde desta sexta-feira (18), cerca de 40 pessoas realizaram uma manifestação pacífica em frente ao Posto de Saúde do bairro Guanandi, em Campo Grande. Familiares e amigos de Cintya Maria Ruiz Savala, de 34 anos, reclamam de ‘negligência no atendimento médico’.

A mulher morreu nessa quinta-feira (17) no Hospital Regional, depois de ser transferida do Posto de Saúde do Guanandi. “Tentamos tirá-la desse Posto, mas não conseguimos. Demoraram demais pra atender minha filha, disse a mãe da vítima, Inerzita Ruiz, de 55 anos.

De acordo com informações da família, ontem (17) Cintya teria ficado das 7h da manhã à 5h da tarde no Posto e teria sofrido uma grave hemorragia. “Se não podiam resolver o problema da minha filha, tinham que encaminhar logo pra outro lugar”, desabafou a mãe.

Ela reclama de mau atendimento no Posto e ainda de falta de informações no local. “Por várias vezes, a gente tentou falar com a médica que estava de plantão, mas ninguém conversava com a gente. Apenas o agente patrimonial passava algumas informações”.

Outros detalhes sobre a morte de Cintya, leia em notícias relacionadas (abaixo), na reportagem de Mayara Sá

“No Posto de Saúde não fizeram nem hemograma. No Hospital Regional sim foi feito o exame de sangue, e só lá descobriram que Cintya estava grávida. Nem a família sabia disso”, informou Valdemar Moraes de Souza, de 50 anos, presidente da Associação de Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul.

“Essa manifestação é pra mostrar para a sociedade a situação da saúde pública. Não podemos deixar que isso continue acontecendo e esta não é a primeira vez”, reforçou Valdemar.

“Hoje é minha família que tá sofrendo, mas amanhã pode ser outra. A gente tá protestando pra que não haja mais vítima. Não queremos nenhum tipo de indenização, a minha filha não volta mais, mas temos que protestar”, falou Inerzita.

Após a manifestação no Posto de Saúde, familiares e amigos seguiram direto para a Capela Campo Grande, onde o corpo de Cintya chegou por volta das 18h desta sexta-feira.

Dificuldades

Mesmo em meio a dor de perder uma das quatro filhas, dona Inerzita lembrou ainda das dificuldades que virão pela frente. “E agora o que essas crianças vão comer? Vai ser muito difícil pra gente”. Cintya deixou dois filhos de 9 e 13 anos. Eles estavam presentes na manifestação segurando cartazes de protestos, um deles trazia a frase: “Obrigado senhores médicos por tirarem a vida da nossa mãe”.

A avó dos meninos, mãe de Cintya, está ‘afastada’ do trabalho por problemas de saúde, mas há seis meses não recebe o benefício do INSS. O caso, segundo ela, inclusive segue em processo.

A mensagem de amigos

“O atendimento nos Postos de Saúde está um caos. Temos que reclamar sim”, disse Dênio do Carmo Silva, de 32 anos, amigo de infância de Cintya. Colega de profissão dela também, ele trabalha como auxiliar de cozinha em um frigorífico da capital, a mesma função que Cintya exercia. Dênio lembrou que, durante toda a quarta-feira, ela estava muito bem de saúde, bastante feliz e não reclamou de dor nenhuma.

“Uma tristeza só esse caso. Ela era grande mãe, amiga, companheira, muito sorridente, sempre feliz. E agora perde a vida nessas circunstâncias”, lamentou o amigo da vítima.

Processos

O primeiro Boletim de Ocorrência foi registrado à 1h13 dessa madrugada (18) como “morte natural”. “Mas quando o corpo chegou ao IML (Instituto Médico Legal), um funcionário falou que tinha que ser feito outro B.O. como “morte a esclarecer” e não natural como estava, revelou Valdemar.

Ele mostrou também cópia do que seria um outro Boletim de Ocorrência constando “morte a esclarecer”, porém teria sido registrado no mesmo horário que o primeiro. “A delegada também foi negligente no atendimento e não teve o mínimo de respeito à mãe da vítima. Ela falou que ela (delegada) era quem decidia o que fazer e que, a partir daquele momento, o corpo pertencia ao Estado, e não à família. Isso é um absurdo!”, reclamou Valdemar.

A Associação das Vítimas de Erros Médicos de Mato Grosso do Sul e familiares vão entrar com processo contra o Posto de Saúde do bairro Guanandi. O primeiro passo, segundo o presidente da entidade, é obter o prontuário médico do Posto de Saúde e do Hospital Regional. “Depois com apoio da nossa assessoria jurídica e com os familiares, vamos ver quais os caminhos seguir”.

Já sobre a delegada que fez o Boletim de Ocorrência, Valdemar disse que ainda vão pensar nesse outro caso, mas afirmou que existe sim a possibilidade de entrarem com outro processo também por “negligência no atendimento” na delegacia.

Outros detalhes sobre a morte de Cintya, leia (abaixo) na reportagem de Mayara Sá.