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Para tirar famílias sem-teto de ginásio, tropa de choque da Cigcoe usa gás e bomba de efeito moral

Local era ocupado por 3 mil de desapropriado de um área aos arredores do bairro Nova Lima, em Campo Grande; rapaz sem-teto exibe marca supostamente motivada pela violência policial

Arquivo Publicado em 22/10/2010, às 19h22

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Local era ocupado por 3 mil de desapropriado de um área aos arredores do bairro Nova Lima, em Campo Grande; rapaz sem-teto exibe marca supostamente motivada pela violência policial

A tropa de choque da Cigcoe (Companhia Independente de Gerenciamento de Crises e Operações Especiais), tida como a tropa de elite da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, desocupou à força o ginásio poliesportivo do bairro Vida Nova, em Campo Grande. O local havia sido invadido por ao menos 3 mil sem-teto que foram despejados por determinação judicial na manhã desta sexta-feira de uma área particular, situada aos arredores do bairro Nova Lima.

Líderes dos sem-teto disseram que a operação policial afetou 3 mil pessoas, já a Polícia Militar informou que o ginásio era ocupado por ao menos 1,5 mil pessoas.

Parte dos sem-teto que ocupavam o ginásio, que pertence à prefeitura, havia invadido casas do residencial Iguatemi, conjunto habitacional construído com dinheiro público, perto dali. Essas famílias foram despejadas na semana passada e, dali, elas seguiram para uma mata próxima, onde juntaram-se a outros sem-teto.

Relatos de testemunhas indicam que por volta das 15h30 desta sexta-feira a tropa de choque usou cães, gás de pimenta e bombas de efeito moral dentro e fora do ginásio para dispersar a multidão.

Pelotões da Polícia Militar e da Guarda Municipal fizeram o isolamento da área. Depoimentos de sem-teto, ainda não confirmados, garantem os líderes do movimento foram dominados e detidos dentro do ginásio.


Relatos


A.C.F (na foto da capa), 29 anos, é uma das pessoas que foi despejada na primeira ocupação de casas no residencial Iguatemi, um conjunto habitacional recém inaugurado, perto do ginásio, na semana passada .

Ele seguiu para o acampamento com a mulher e os dois filhos, e também esteve no ginásio poliesportivo. O rapaz disse que foi atingido pelo gás de pimenta durante o desalojamento desta tarde.


Com seu bebê de 3 meses no colo, D. A. S. relata os momentos de medo durante a desocupação. “Foi muita correria, meu bebê chegou a ser prensado por pessoas que tentavam sair do ginásio”, afirmou D. A. S., que estava acompanhada da cunhada M. L., de 34 anos, e outra menor de idade.


D. A. S. é de Porto Murtinho e veio para Campo Grande procurar emprego. “Faz quase um ano que estou aqui, estou desempregada e não tenho para onde ir, meus parentes aqui não tem condições de me receber”, desabafou.


A situação se repete com G. P. A., 23. Acompanhada de sua filha de cinco anos G. P. A. relata que fez inscrição na Empresa Municipal de Habitação (Emha) quando estava grávida, mas até hoje não conseguiu uma casa.


“Ganho no máximo R$ 400 fazendo bicos de limpeza, e só o aluguel custa 250, sobra muito pouco para sustentar a família, não tem como”.


Havia pelo menos 80 soldados da tropa de choque da Cigcoe no local. Também estavam presentes 10 seguranças particulares dentro do ginásio, que chegaram por volta das 17h. Procurada, a empresa não soube informar quem está pagando o serviço.


O chefe da Guarda Municipal, capitão Guilherme, afirmou que a presença da guarnição se deve à proteção do prédio – que é patrimônio do município.


Arapuca


Um grupo de dez sem-teto informou ao Midiamax que no início da tarde de sexta-feira apareceu no ginásio um homem que vestia camisa branca e que eles acharam tratar-se de um advogado da prefeitura, mas que depois o identificaram como Maurício Scaff, um policial civil que atua como uma espécie de segurança do prefeito de Campo Grande, Nelsinho Trad, do PMDB.

Os sem-teto disseram que Scaff informou a eles que o prefeito ia até o ginásio apresentar uma proposta a eles entre 15h30 e 16h30, justo no período em que a tropa de choque invadiu o local e atirou bombas de efeito moral nos manifestantes.

“Foi uma arapuca. A polícia entrou quando discutíamos o que íamos fazer daqui para a frente”, disse um dos sem-teto. A reportagem viu Scaff no local e tentou conversar com ele, mas o policial saiu logo dali.


Material editado às 20h55 para acréscimo de informações

Jornal Midiamax