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Dinheiro de campanha ‘socorre’ cabos eleitorais e compra de voto ainda é realidade

Para quem precisa de dinheiro extra, as eleições representam oportunidade de trabalho; na contramão, a venda ilegal do voto mostra a falta de consciência política

Arquivo Publicado em 13/07/2010, às 17h54

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Para quem precisa de dinheiro extra, as eleições representam oportunidade de trabalho; na contramão, a venda ilegal do voto mostra a falta de consciência política

Além de ser um período em que candidatos disputam uma vaga política, as eleições também “mexem” com a economia do país. Segundo projeções registradas pelos candidatos, este ano pelo menos R$ 620 milhões serão gastos pelos candidatos às eleições em Mato Grosso do Sul.

Parte do dinheiro direcionado para o pleito é gasto no que os candidatos chamam de estrutura: aluguel de imóveis para comitês e escritórios, combustível para locomoção, aluguel de veículos, bandeiras, impressos eoutros itens que são considerados essenciais para uma campanha.

São vários os setores que lucram: gráficas, agências de publicidade, confecções etc. Mas um dos elementos que move a eleição é especial. É o cabo eleitoral. Ele é responsável por conquistar votos e até mesmo convencer os parentes, amigos ou desconhecidos a votarem em determinado candidato. E os partidos investem muito dinheiro nos operários das urnas.

Geralmente, o cabo eleitoral é alguém indicado ou por ser liderança ou por conhecer muita gente. Um bom círculo de amizades enche os olhos de quem contrata cabos eleitorais. Esse é o caso de Celeida Maria Marques (50).

Ela que é catadora de recicláveis, já perdeu as contas de quantas eleições já trabalhou. Considerada ‘liderança’ no bairro onde mora –  Taquarussú – já foi sondada por vários candidatos, mas permanece fiel a um.

“Eu tenho meu candidato preferido sim, que não vai concorrer esse ano, mas vou trabalhar para a pessoa que ele escolheu seja eleita, já que ele é suplente de vereador na Câmara Municipal”, explica.

Ela diz que confia no político para quem trabalha e por isso não o abandona. “Ele fez muita coisa boa pelo nosso bairro. Aqui era uma favela e hoje temos qualidade de vida”, acredita. 

E junto com Celeida, cerca de 20 pessoas também conseguem emprego. Mas ela sempre avisa que “liderança ganha bem melhor, ganha em média R$ 800 a R$ 1 mil”, comemora.

O marido de Celeida, Antônio Barbosa aproveita o período para fazer campanha durante o expedirente. “Trabalho com o carrinho de reciclagem e cada lugar que chego aproveito para falar do nosso candidato”. Para o trabalho, Antonio recebe um salário mínimo.

Já no Bairro Estrela Dalva, a cabeleireira Maria Cristina, acredita que é preciso manter a atividade profissional e ser cabo eleitoral ao mesmo tempo.

“Eles vêm nos procurar sim e oferecem às vezes um bom salário. Mas eu tenho que conciliar com a minha atividade, já que a campanha dura apenas três meses”.

Segundo ela, teve candidato que ofertou com base no número de pessoas que o cabo eleitoral pode arregimentar. “Alguns estão pagando apenas um salário para cabo eleitoral e outros pagam até R$ 700, dependendo do número de pessoas que você cadastrar e conseguir levar em uma reunião, por exemplo”.

Há quem esteja a mais tempo no mercado político e por isso ganha mais. Esse é o caso da de um dos entrevistados pela reportagem do Midiamax. Ele trabalha há muito tempo para alguns políticos e inclusive recebe uma “ajuda de custo” mensal.

“Quando chega a época das eleições  eu ganho mais e consigo empregar também uma boa parte da minha família”, comemora. Comerciante autônomo, garante que vai ganhar R$ 1200 mensais até o final da campanha. Segundo, apesar de hoje serem proibidos os brindes e a legislação eleitoral estar mais ‘apertada’, ainda há muita compra de voto.

“Claro que ainda tem compra de voto e somos direcionados inclusive a conquistar principalmente aqueles que votam nos candidatos concorrentes. Esses, quando mudam de opinião, é na base do dinheiro”.

Ela diz que não se sente mal em saber que está vendendo um instrumento da democracia. “Se eu não o fizer tem outro que vai fazer. Então eu prefiro ganhar um pouco mais nessa época, já que os políticos ganham o ano inteiro”, justifica.

Contratações

Entre os coordenadores de campanha o assunto ainda é velado. A maioria prefere nem falar sobre o assunto. Entre os que aceitam com a reportagem, o primeiro pedido é de anonimato.

Para eles, o setor que mais gera emprego é o de candidaturas proporcionais. “São mais de 330 candidatos a deputados a estadual ou federal. É onde há o maior número de contratações e reservamos uma boa parte da receita para o pagamento dos agentes”, explica uma experiente coordenadora financeira de campanha.

Ela trabalha com a reeleição de um deputado estadual e sabe que as contratações são essenciais para as eleições. “Quanto mais popular for o agente eleitoral, maior é o investimento de um candidato nele. Se for um presidente de Bairro, por exemplo, já ganha mais e com certeza a relação custo/benefício vale a pena” garante.

Outro coordenador lembra, que nessa época do ano, a maioria das contratações já estão fechadas. “Mas sempre tem uma ampliação, principalmente quando chega a reta final. Nos meses de agosto e setembro, com certeza essa contratação amplia”.

Ele confirma o pensamento de que depende do grau de conhecimento que a pessoa tem no bairro ou região que mora para valorizar o serviço do agente eleitoral. “Dependendo do caso, algumas pessoas continuam trabalhando conosco no mandato, tudo depende do aproveitamento. Conhecemos pessoas de boas ideias durante as eleições e que após o pleito passaram a trabalhar conosco”, reitera.

Regras e limites

Mas há regras que os candidatos devem seguir para contratar agentes eleitorais para o trabalho de campanha. Segundo o juiz eleitoral Fernando Paes de Campos, juiz da 35ª zona eleitoral de Campo Grande, apesar de ser uma atividade temporária, a contratação de cabo eleitoral deverá observar os alguns requisitos.

“Deve ser feito um contrato particular de serviço de cabo eleitoral, contendo nome, endereço, CPF, prazo de vigência e outros dados bem como os recibos de pagamento do serviço de cabo eleitoral”, explica.

Apesar de não haver um limite de números de lideranças e agentes eleitorais, Campos lembra que o candidato deve ser atentar à questão do abuso de poder econômico.

“Não há limite no número de contratações, no entanto os candidatos que contratarem número excessivo de cabo eleitoral poderão responder por abuso de poder econômico, caso entenda que seja um número desproporcional de contratações”.

Jornal Midiamax