Após uma manhã marcada por trocas de sinais, o dólar à vista operou em baixa moderada ao longo da tarde, em meio ao recuo da moeda americana no exterior e a máximas das bolsas em Nova York, insufladas pelos ganhos de ações de tecnologia. Com oscilação de pouco mais de três centavos entre a mínima (R$ 4,9033), logo após a abertura, e a máxima (R$ 4,9395), ainda pela manhã, o dólar à vista fechou cotado a R$ 4,9268, em queda de 0,09%.

Operadores atribuem o recuo do dólar nesta sexta, 19, a uma pausa natural para ajuste de posições e realização de lucros, após uma sequência de quatro pregões seguidos de alta, embora ontem a moeda tenha encerrado a sessão praticamente estável (+0,02%). Já os ganhos de 1,43% do dólar na semana são reflexo, sobretudo, do realinhamento das apostas em torno do primeiro corte de juros nos EUA neste ano, o que provocou avanço dos rendimentos dos Treasuries e da moeda americana em relação a divisas fortes e emergentes.

Após uma semana marcada por dados fortes de atividade nos EUA e declarações duras de dirigentes do Federal Reserve, a plataforma de monitoramento do CME Group mostra que as chances de corte de juros em março, que chegaram a superar os 80% no fim de 2023 e rondaram 60% neste início de ano, agora estão um pouco abaixo de 50%. A aposta majoritária passa a ser de início do ciclo de redução da taxa básica pelo BC americano em maio.

O diretor de tesouraria do Braza Bank, Bruno Perottoni, observa que agenda de indicadores americanos neste início de ano mostrou que a economia dos está longe de uma desaceleração mais forte, o que pode ter reflexos no grau de desaceleração da inflação. “Já não há mais aquele otimismo com início do corte de juros em março. E isso provocou uma alta dos Treasuries e do dólar”, afirma Perottoni.

No curto prazo, ele vê possibilidade de o real voltar a se apreciar caso as taxas dos Treasuries recuem um pouco. E observa que há um fator técnico que pode contribuir para jogar o dólar para baixo: um grande volume de opções de venda de dólar com preço de exercício abaixo de R$ 4,90. O tesoureiro aponta, contudo, fatores que podem provocar uma alta do dólar mais para frente, como as tensões geopolíticas em meio às guerras na Europa, entre Rússia e Ucrânia, e no (Israel e Hamas), que podem provocar problemas de oferta de grãos e petróleo e atiçar a inflação.

Outro ponto de atenção é a magnitude do ciclo de corte da taxa , uma vez que, para Perottoni, uma taxa abaixo de 10% poderia dificultar a atração de recursos e, por tabela, causaria alta do dólar. “Se o Fed realmente começar a cortar os juros, talvez a Selic possa ficar numa faixa de 9% sem causar estresse”, diz o tesoureiro.

Em uma das reuniões de economistas do mercado financeiro com o Banco Central realizadas hoje, a maioria dos analistas debateu qual será o impacto sobre o real de um início de ciclo de queda da taxa básica americana. A maioria dos economistas avalia que o cenário internacional exige cautela, mas que o quadro, em geral, ainda é positivo para a moeda brasileira.

As projeções para o dólar no fim de 2024 variaram entre R$ 4,50 e R$ 5,00, de acordo com uma fonte, com a maioria das expectativas entre R$ 4,70 e R$ 4,80 – abaixo da mediana do último relatório Focus, de R$ 4,95. A perspectiva de uma balança comercial brasileira novamente forte este ano foi indicada como o principal viés de sustentação para um câmbio mais otimista.