Após quatro pregões de queda, dólar sobe 0,80% com aversão a risco

| 18/05/2022
- 19:04
Após quatro pregões de queda, dólar sobe 0,80% com aversão a risco
O índice de preços ao consumidor (CPI) da zona do euro mostrou alta anual de 7,4% (Foto: Agência Brasil)

Após recuar mais de 2% na terça-feira, quando emendou seu quarto pregão seguido de queda e zerou os ganhos em maio, o dólar subiu na sessão desta quarta-feira, 18, em um movimento de correção amparado pelo ambiente externo negativo. Relatos de novas medidas restritivas na China, que sustenta a política de covid zero, e a leitura de que os Bancos Centrais dos países desenvolvidos, em especial o Federal Reserve (Fed, o BC norte-americano), terão que ser mais agressivos para conter a inflação preocupam os mercados. Em uma clássica fuga para a qualidade, investidores abandonaram bolsas e correram para se abrigar na moeda americana e nos títulos do Tesouro americano.

Esse movimento se traduziu por aqui em tombo do Ibovespa e alta do dólar, embora em ritmo mais moderado do que o azedume lá fora e a perda de fôlego das commodities agrícolas e metálicas poderiam sugerir.

Em alta desde a abertura dos negócios, o dólar flertou com o rompimento do patamar de R$ 5,00 no meio da tarde, ao correr até a máxima de R$ 5,0003 (+1,16%), mas logo perdeu fôlego. Oscilando entre os patamares de R$ 4,98 e R$ 4,99, a divisa encerrou o dia cotada a R$ 4,9826, em alta de 0,80%.

Analistas apontam que a elevada taxa de juros doméstica, que atrai capitais de curto prazo para "carry trade" e torna custosa aposta comprada em dólar, daria certo suporte à moeda brasileira. Operadores também citaram como possível entrave para uma escalada mais forte do dólar nesta quarta declarações do diretor de Política Monetária do , Bruno Serra, em evento pela manhã em São Paulo.

Serra disse que o BC tem "instrumentos para combater uma eventual volatilidade adicional do câmbio" e que, se precisar subir mais o juro porque o juro global sobe, "a gente pode fazer". O diretor do BC lembrou que o real é uma das melhores moedas em desempenho no mundo nos últimos 12 meses, seis meses e no acumulado deste ano, "o que faz sentido nesse momento em que o Brasil se beneficia do choque de oferta global".

O economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, atribui a derrocada dos ativos de risco nesta quarta, sobretudo, à incerteza sobre a intensidade e o ritmo de ajuste dos juros nos Estados Unidos, dados os sinais erráticos emitidos por autoridades do BC americano, em especial a fala de terça do chairman Jerome Powell. Embora tenha dito que há "amplo apoio" no comitê de política monetária da instituição para alta de 50 pontos-base dos Fed Funds em junho, Powell se mostrou preocupado com a inflação e afirmou que não hesitará em levar a taxa de juros além do nível neutro.

"O Fed não consegue emitir um sinal claro sobre o cenário para os juros nos EUA. O mercado não está 'comprando' essa ideia de que não vai ser preciso subir os juros com mais força. A sensação é de que o Fed terá que ir muito além do que está dizendo", afirma Vieira, ressaltando que os índices de inflação na Europa, divulgados nesta quarta, mostram que a inflação tem é um problema global. "O dólar não sobe tanto por aqui porque ainda tem interesse do estrangeiro por Brasil, em um posicionamento global para emergentes, e um pouco de carry trade."

O índice de preços ao consumidor (CPI) da zona do euro mostrou alta anual de 7,4% em abril, um pouco abaixo do esperado (7,5%), mas ainda em nível recorde. Já o CPI no Reino Unido marcou alta de 9% em abril na comparação anual, aceleração em relação a março e no maior nível em mais de 40 anos. Autoridades do Banco Central Europeu (BCE) falaram duro nesta quarta e há quem veja possibilidade de alta da taxa de juros na região no início do segundo semestre.

A economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, vê a alta do dólar nesta quarta no mercado doméstico como um movimento de "correção" após a forte queda de terça, estimulado nesta quarta-feira pela aversão ao risco no exterior. "O mercado ainda está na dúvida sobre o comportamento do Fed nos próximos meses. Apesar de dizer que vai manter o ritmo de alta de 50 pontos-base na próxima reunião, o mercado tem dúvidas, o que pressiona o câmbio", diz Quartaroli. "Além disso, tivemos notícia de novo na China, o que preocupa porque pode se refletir em crescimento menor."

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