O falatório dos pantaneiros antes era: “Você viu? Lá na Fazenda do fulano a onça atacou uns bezerros esta noite”. Tempos depois o converseiro envolvia cachorros mortos e agora a notícia mais recente é um ser-humano: o caseiro Jorge Ávalo, de 60 anos, infelizmente, atacado no Pantanal.
O corpo foi encontrado por parentes na manhã desta terça-feira (22), às margens do Rio Aquidauana, em Mato Grosso do Sul, e os questionamento que ficam são: onça está atacando gente agora? É comum este fato? Por que esta mudança de comportamento? Ou não, é somente um caso isolado?
Onças e pessoas coexistem há mais de 200 anos no Pantanal
Segundo a coordenadora técnica de projetos do IHP (Instituto Homem Pantaneiro), Grasiela Porfirio, de 42 anos, que também é bióloga e possui mestrado e doutorado em ecologia e conservação, além de atuar com carnívoros, há duas décadas, no pantanal sul-mato-grossense, a região é muito conhecida pela presença da onça-pintada, felino imponente e territorialista.
“O pantanal é conhecido como uma das áreas que abriga as maiores densidades de onça-pintada, em toda a sua área de ocorrência e, ao mesmo tempo, temos uma situação em que onças e pessoas coexistem há mais de 200 anos. E esta interação ocorre nos mais diferentes aspectos, envolvendo o produtor rural, peão, turistas, comunidade ribeirinhas e indígenas, por exemplo”, afirmou Grasiela.
Ainda conforme a coordenadora, todos estes pantaneiros possuem conhecimento relacionado a onça-pintada, justamente por conta desta coexistência.
“E é neste sentido que temos observado, em algumas situações e regiões, a proximidade deste felino. E isto ocorre porque, o limite de distanciamento e interação não é respeitado, e aí podem ocorrer casos que evoluem para situações de ataque, quando chegam muito perto das casas e predam cães e outros animais domésticos, por exemplo”, argumentou.
Vídeos na internet mostram que muitas pessoas não respeitam limites, avalia coordenadora
Sendo assim, a coordenadora argumenta que é necessário respeitar mais os limites. E é justamente por isso que os casos aumentaram, no mínimo, 50%, entre 2024 e 2025, ainda conforme o IHP. Aliás, de 2016 até o momento, as orientações para o recolhimento de cães, vem sendo trabalhado de forma perene, bem como restos de comida, entre outras informações.
“Estamos passando estratégias que possam proteger pessoas, toda a comunidade na verdade. Este é um animal silvestre e os limites, as questões que envolvem a observação da onça na natureza, são situações que devem ser respeitas. O animal pode estar com presa, filhote, então, não é recomendado se aproximar para fazer fotos e vídeos, como vemos muitos circulando na internet, então, as pessoas precisam entender, definitivamente, que estamos lidando com um animal silvestre. Até mesmo um doméstico, por mais dócil que seja, pode vir o instinto dele e pode ter casos de ataques”, argumentou.
Nesta terça-feira (22), mesma data em que os restos mortais do caseiro foram localizados, equipes do IHP estão em campo, realizando trabalhos educativos no Pantanal. “O que a gente orienta é que as pessoas que vivem em áreas com onças nas proximidades prendam seus cães em lugar seguro, no período noturno, evitem deixar solto, entre diversas outras orientações”, ressaltou.
Órgãos atuam em parceria após aumento de casos de ataques de onças a cães
O trabalho, em parceria com a PMA (Polícia Militar Ambiental), passou a aumentar e ser específico, quando o assunto é cães, por conta do aumento do registro de ataques de onças a cães.
“Os relatos são recentes e estamos atuando em parceria com a PMA, um trabalho específico por conta do aumento. E, neste momento, estamos instalando equipamentos para identificar os animais e entender se é uma onça ou mais de uma circulando. São trabalhos em parceira com os orgãos cabíveis, com a intenção de disseminar as estratégias de manejo e evitar ataques”, finalizou.
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