As geladeiras ocupam parte do muro e possuem até horário de entrega das marmitas. Por volta das 7h diariamente – com exceção apenas na terça – o alimento já está no local e faz dezenas de moradores de rua ficarem no entorno para pegar. No entanto, o que parece ser um projeto maravilhoso, famoso com o nome “geladeira solidária“, se tornou motivo de transtorno para quem mora na região do Coronel Antonino, em Campo Grande.

Localizadas no cruzamento das ruas Rio de Janeiro com a Coronel Estevão Alves Corrêa, as geladeiras teriam sido instaladas há cerca de 3 anos, conforme disseram moradores da região ao Jornal Midiamax. Uma delas, para alimentos, com refeições servidas às 7h, 11h e 18h. A outra, para doações de , livros e cobertores. Desta forma, muitas pessoas, entre elas moradores de rua e usuários de drogas, se “mudaram” para o bairro e ali permanecem nas proximidades.

Restos de marmita e bitucas de cigarro espalhados na vizinhança. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax
Restos de marmita e bitucas de cigarro espalhados na vizinhança. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax

“É um projeto que deveria ajudar, mas virou transtorno. Estou a algumas casas do lado e aqui entraram, assaltaram, comeram a marmita e ainda deixaram na pia. Levaram televisão, cafeteira, roupas e vários outros eletrônicos. Aqui tem um cachorro grande, isso afasta um pouco, só que vieram justamente em um dia em que levamos ele e passamos a noite fora”, argumentou uma esteticista, de 26 anos, que não será identificada.

Sujeira na porta de casa

Segundo a jovem, além do cachorro e câmeras de segurança, foi necessário instalar concertina. “Aqui na frente todo dia ficam bitucas de cigarro, restos de marmita e muita . E quando acaba a comida lá, eles batem e ficam pedindo. O movimento é a qualquer hora, de dia, até de madrugada. As crianças saem para brincar na varanda e alguém já aparece pedindo. Na época do assalto, chegaram a cortar nossa cerca elétrica e ficam nos colocando medo”, lamentou a moradora.

Há alguns dias, a moradora conta que o vizinho da frente precisou mandar cortar árvores da lateral da casa dele, que fica na esquina. “As árvores faziam bastante sombra e o pessoal ficava ali acampando, colocando papelão, dormindo e fazendo fogueira. Só diminuiu um pouco porque ele mandou cortar”, conta.

Cachorro ‘bravo’ e concertina

Moradores colocaram concertina nas casas da Rua Coronel Estevão Alves Corrêa. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax
Moradores colocaram concertina nas casas da Rua Coronel Estevão Alves Corrêa. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax

Um motoentregador, de 25 anos, fala que a casa dele também foi invadida. “O cara pulou aqui e, bem na hora, meu irmão viu. Nós inclusive colocamos a concertina por isso, estava um clima de insegurança. Na rua de cima, uma vizinha nos contou que foi assaltada também. Aqui respeitam mais porque sabem do nosso parentesco com um policial, mas, tem sim uns ‘noiados’ rondando aqui. Vejo até gente que não precisa. Para a moto umas quadras antes e vem a pé pegar comida”, comentou.

Uma fonoaudióloga, de 45 anos, disse que, em julho deste ano, completa três anos morando na região do Coronel Antonino. “Quando cheguei aqui, este projeto já tinha começado, recém inaugurado. Eu não posso negar que também me sinto insegura, porque soube dos assaltos que tivemos aqui. O movimento aumentou muito, tanto de usuários de drogas como de moradores de rua”, afirmou.

O que é o projeto ‘geladeira solidária’?

Geladeria solidária no Coronel Antonino. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax
Geladeria solidária no Coronel Antonino. Foto: Nathalia Alcântara/Jornal Midiamax

As “geladeiras solidárias” se instalaram há alguns anos, em um conceito que se espalhou por todo o país.

Nela, quem tem condições, coloca refeições, bebida e, quem não tem, pega estes alimentos para consumir.

Cada uma tem a sua própria coordenação e a pessoa ainda é responsável por limpar e fazer a manutenção. Quem não pode ajudar a fazer as refeições, por exemplo, pode colaborar doando alimentos aos voluntários. Em Campo Grande, são várias espalhadas.

Como é o policiamento na região?

A reportagem entrou em contato com a Militar (PM), questionando como é o patrulhamento na região. Conforme a assessoria de comunicação da corporação, o policiamento na região é feito pela 11ª CIPM, com apoio das viaturas especializadas, como do BpChoque (Batalhão de Choque), Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e também a polícia ambiental.

Ainda de acordo com a assessoria, há reclamações sobre a presença de moradores de rua e usuários não só no Coronel Antonino, mas em outros bairros também. No entanto, a PM faz o policiamento “frequente e ininterrupto” e age apenas em situações flagranciais de crime.

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