Até agora a Gicelma Chacarosqui, doutora em Comunicação e Semiótica e professora da UFGD (Universidade Federal da Grande ) ainda tenta entender o constrangimento que sofreu após ser proibida de entrar no saguão do Fórum de Dourados porque vestia um short-saia. Ela só queria usar um terminal da que fica no local.

O fato ocorreu na última  quarta-feira (8), quando a professora estava  a caminho das aldeias indígenas da cidade, onde realiza trabalho social do projeto Cuidar, inclusive, com o apoio do Poder Judiciário e do Ministério Público. A proibição rendeu indignação nacional e manifesto público do ex-deputado federal Fábio Trad.

“Absurdo! Intolerável! Odiosa medida restritiva que obriga as pessoas a se desidratarem de calor para entrar em um espaço público que é financiado por tributos que pessoas como ela, Gicelma, pagam todos os dias. Sensação térmica de 40 graus, short-saia, e ela precisava apenas ir a uma agência bancária e estava adentrando a um espaço público”, postou Trad.

Procurada pela reportagem do Jornal Midiamax para falar sobre o constrangimento, a professora disse que está pensando em tomar algumas medidas jurídicas para evitar que outras pessoas sejam submetidas a tal situação. Entretanto quer conversar primeiro com o presidente do (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

“Eu pedi uma audiência com o presidente do tribunal do TJMS. Para ver se ele consegue me atender e conversar comigo, porque eu fiquei muito incomodada com o ocorrido. Eu consultei alguns advogados e todos que não existe nenhuma lei que impeça que a gente use alça ou short saia, ou saia que seja, para entrar em órgãos públicos federais”, relata a professora.

Embora não consiga esconder a indignação, Gicelma diz que publicização doo assunto acabou sendo um ato educativo e pedagógico, porque a sociedade precisa discutir as coisas democraticamente no Brasil. Segundo ela, as mídias sociais tabém têm essa importância.

Olhar semiótico

Para conseguir processar tudo que acontece e ao mesmo tempo contribuir para que esse tipo de prática não seja replicado e faça novas vítimas, a professora recorre à própria semiótica,  que é um assunto que domina.

“Olha, a semiótica é uma ciência sígnica que estuda a representação fenomenológica do mundo. Então, tudo na vida é um fenômeno. E os signos são signos que representam os fenômenos. Então, acho que o fenômeno do comportamento, ao meu ver, do judiciário, ao meu ver, enquanto semioticista, é um fenômeno equivocado”, fundamenta a professora.

Na verdade, no seu entendimento, tudo não passa de um equívoco de ordem simbólica, social, cultural. “Vamos pensar: Uma mulher não pode usar uma saia acima do joelho porque está calor, uma blusa de alça. Então, vestida dessa forma, ela não pode entrar em um órgão público. Eu quero saber que lei brasileira, em que lugar está escrito isso na Constituição, nas questões que regem as leis desse país”, questiona.

‘Interior conservador’

“Eu sou uma funcionária pública federal, eu pago os meus impostos, eu cumpro com as minhas obrigações enquanto cidadã e eu gostaria de ter uma respeitabilidade pelo meu trabalho e não pelo aquilo que eu estou vestindo, porque eu não sou uma pessoa vulgar”, desabafa a professora doutora que também é avó.

Chacarosqui segue ressaltando que é apena uma mulher latino-americana que “optou por morar no interior, no interior conservador, de um país conservador”. Ainda de acordo com a professora, “se mulheres como eu se manifestarem mais vezes, a gente muda o status quo, a gente muda esse tipo de regra e de comportamento que para mim não cabe mais no século XXI”.