Quem já imaginou comer hambúrguer com batata “frita” durante a internação no hospital? Ou um piquenique com tudo que mais gosta na cesta? Foi pensando em devolver ao paciente o sabor da comida afetiva que uma equipe multidisciplinar de Campo Grande colocou em prática um novo método de nutrição humanizada.

Para desmistificar o pensamento retrógrado de que comida de hospital é sem graça, profissionais da Unimed e da cozinha Massima idealizaram evitar o paciente da privação alimentar, claro que sem ultrapassar os limites da restrição nutricional e do que o organismo pode comer.

As crianças são os principais alvos no empratamento alegre, com decoração infantil e lúdica. A nutricionista de produção da UAN (Unidade de Alimentação e Nutrição) Sara Regina Paula Miranda explica que a ideia surgiu para encantar o paciente no modo de servir, despertar a vontade de comer, afinal, os nutrientes do prato somam no “remédio” para acelerar a alta médica.

“Toda a equipe técnica de produção buscou ideias e proposta na web, nos outros hospitais que nossa empresa atende. Nosso principal desafio é motivar nossa a equipe a sempre manter um padrão de qualidade das nossas refeições, buscar aquele tempero de casa, apresentar um prato fugindo do padrão ‘comida de hospital’ e a ter empatia com o paciente que está internado, estimulando nossa equipe a proporcionar a melhor experiência ao paciente, como se fosse um membro da nossa família”.

O empratamento não se limita aos formatos da comida, por exemplo, ao arroz com rosto de ursinho, mas amplia a imaginação utilizando utensílios coloridos, inclusão de personagens lúdicos e alimentos saudáveis. A nutricionista Karoline Montanhere Fantuci explica que a equipe multiprofissional detecta a necessidade de cada paciente e é feito um estudo para determinação de atividades dentro do hospital.

“A equipe multiprofissional sempre trabalha em conjunto, e essa parceria proporciona inúmeros benefícios às crianças. A equipe de Nutrição Clínica propôs à empresa que produz as refeições hospitalares a elaboração de um cardápio diferenciado para os pacientes pediátricos, pensando nas particularidades desse público. Dessa forma, surgiram algumas ideias, como os utensílios coloridos e a inclusão de preparações solicitadas pelos pacientes durante as minhas visitas, como macarrão, hambúrguer, batatinha assada, salada de tomate, bolo de chocolate, entre outras”, pontua.

Empratamento

Adultos também recebem pratos decorados, dignos de chefe. Karoline explica que a equipe da copa recebe treinamento constante para entrega de refeições. Afinal, o ditado de comer com os olhos revela a intenção de comer. Apesar da vontade em liberar o que o paciente mais gosta de comer na dieta, a ficha nutricional é estudada antes. Aliás, não apenas com o olhar das nutricionistas, médicos e psicólogos estão envolvidos.

“Posso afirmar que a oferta de refeições personalizadas e com um olhar mais humanizado auxilia na recuperação das crianças, pois uma boa ingesta alimentar é fundamental. Além de nutrir, proporciona satisfação aos pacientes, eles sentem-se muito felizes quando recebem os pratinhos com a comida que mais gostam. A equipe da cozinha elaborou com muito carinho as preparações que solicitei e tornaram a tarde do nosso paciente ainda mais feliz. Essas ações são muito satisfatórias para nós também, é recompensador ver as crianças desfrutarem de bons momentos durante a internação”.

Piquenique do Elias
Piquenique do pequeno Elias, irmãos e amigos (Foto: Divulgação/Unimed)

Piquenique

Recentemente, Elias Oliveira Conceição, de seis anos, desfrutou de um piquenique com a companhia dos irmãos. O gesto resgatou a sensação da brisa ao ar livre, do vento no rosto, longe das paredes brancas de um hospital. O pequeno se preparava para um procedimento cirúrgico, então, sair do quarto para se distrair animou a psicóloga da unidade Cinthia Munhões Elias de Souza.

“As ações que envolvem os pacientes, são pensadas tendo em vista o histórico, tempo de internação, fatores psicológicos observados, e possíveis repercussões nas terapêuticas que vem sendo realizadas. Do ponto de vista psicológico, sabemos que o fato de estar internado já é estressante, pois é um momento de fragilidade. Dessa forma, buscamos aliviar esse momento, e o ato de comer, é um dos prazeres mais básicos que possuímos, e percebemos que após esses momentos os pacientes se envolvem mais no seu processo de reabilitação.”

O piquenique foi feito no da Unimed. Ela pontua que o dia colaborou para a alegria do garoto que estava há dias internado, o céu azul e ensolarado, verde das árvores e flores coloridas. Dr. Diego Ramos, neurocirurgião que o acompanha, levou os três filhos e a esposa para passar o dia com Elias.

“É importante para uma criança poder brincar com outras crianças, então eu levei minhas filhas para que ele não se sentisse sozinho no dia do piquenique que a Cinthia, junto com a equipe multiprofissional do hospital, organizou. Eu fico muito feliz em ver a alegria do Elias, ele é um menino muito amado pela família dele, pela equipe ‘multi’, é uma criança muito amorosa e quando a gente tem a oportunidade de levar um pouco de alegria e ver ele sorrindo, brincando, gargalhando, isso faz a gente ganhar o dia”, reforça Dr. Diego. 

Nem todo paciente pode

Dra. Erica Abel da Silva, especialista em clínica médica, endocrinologista e cuidados paliativos, explica que, infelizmente, nem todo paciente pode receber uma alimentação diferenciada, por exemplo. Assim, é preciso uma liberação médica e que o estado clínico possibilite isso porque normalmente o paciente internado tem algumas restrições alimentares e à medida que ele melhora, é possível ir alterando, podendo inclusive, muitas vezes, permitir uma alimentação mais próxima do que ele estava acostumado em casa.

“O aspecto psicológico está muito relacionado à resposta dele ao tratamento e à sua doença. Essas ações se remetem a um valor de vida do paciente, a situações que o faz se sentir melhor, como um familiar muito querido que ele sente saudade. Isso resulta em melhor resposta ao tratamento, redução da quantidade de medicação para dor e com isso, temos menor tempo de internação, então tem muitos efeitos positivos, fora o efeito psicológico, de carinho, de atenção, de amor e humanização que conseguimos passar ao paciente”, finaliza.