Foi só no início da juventude que a assistente social Izabella de Mello, de 30 anos, passou a se questionar sobre os caminhos que levaram ela e a família na direção da realidade difícil que sempre tiveram, mesmo com todos os esforços para ‘matar o leão’ de cada dia. A segunda dos três filhos de dona Maria Esther, ‘Iza’, como é conhecida, nasceu em um lar formado por pessoas pretas, no entanto, nunca havia relacionado isso às condições impostas a tantas gerações da família.

“Até onde se sabe, os pais, avós e bisavós dos meus pais eram pessoas sofridas, trabalhadores da roça, empregadas domésticas e peões de fazenda. Todos eram negros e tiveram pouco ou quase nenhum estudo. Desde criança, a vida se resumia, basicamente, a trabalhar muito para ter o que comer”, comenta.

Nas gerações mais recentes, pouca mudança em meio ao cenário permanente de dificuldades. “Minha mãe conseguiu chegar até o ensino médio, mas parou para trabalhar e cuidar dos filhos. Quando eu era criança, lembro de ela dizer que faculdade era coisa de rico. Eu ter sido a primeira a entrar em uma universidade quebrou esse ciclo e foi a maior vitória para a família toda”, detalha.

Foi justamente na universidade que a ‘chave’ virou para Izabella. “Ganhei bolsa do Governo em uma universidade particular e passei a observar o perfil das pessoas da minha sala e dos outros cursos. Pessoas negras como eu eram minoria, principalmente entre os professores e alunos de determinados cursos”, conta.

Entre várias observações, a então universitária foi apresentada ao letramento racial, estudou muito e passou a analisar sua realidade a partir da história e da vivência de seus ancestrais. 

“Um povo que não conhece sua história é aprisionado à ideia de que tudo é apenas consequência do acaso, mas não é bem assim. Não tem como separar da nossa realidade de hoje os séculos de privações a que nossos antecessores foram impostos. Por muito tempo, fomos impedidos de estudar, aprisionados e usados como mão de obra. Mesmo depois do fim da escravatura, a liberdade ficou apenas no papel e fomos deixados à margem sem qualquer auxílio que pudesse recompensar tudo o que nos foi tirado. Ficamos sem teto, estudo e dignidade, e as gerações que vieram depois disso até hoje são impactadas pela história”, pontua.

Izabella de Mello, assistente social
Bartolina Ramalho é professora universitária e pós-doutora em educação. (Foto: Arquivo Pessoal)

Analisando a história do Brasil, a conclusão a que a assistente social chegou se comprova. É o que explica a pós-doutora em educação e professora da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), Bartolina Ramalho.

“A escravatura foi um processo de exploração econômica, portanto ela aconteceu de uma forma desigual e extremamente cruel na sociedade brasileira”, explica. Segundo ela, a Lei Áurea, que teoricamente garantiu “liberdade aos negros”, conta com apenas dois artigos, o que aboliu a escravatura no Brasil e o que revogou a disposição contrária. 

“Nós, brasileiros negros e descentes de africanos, ficamos sem nenhuma política pública que assegurasse moradia, assistência social ou de educação e cultura. Até recentemente, a população negra era proibida de entrar na escola e esse quadro só se ampliou na sociedade a partir das políticas das cotas. Até o ano 2000, por exemplo, a Universidade Federal do nosso Estado tinha apenas 2% de negros. Então, como não houve amparo do Estado Brasileiro, criou-se um estigma social construído em torno da pessoa negra, tanto no ponto de vista social quanto estético, e isso está atrelado aos atos de racismo que se vê”, analisa.

Sem perspectivas ou recursos que pudessem garantir o básico de subsistência, após a Lei  Áurea o povo negro que vivia no Brasil enfrentou duras dificuldades socioeconômicas, tudo isso em meio a uma sociedade ainda impregnada pelo racismo. De maneira desigual, o destino seguiu em favelas afastadas e à base do trabalho doméstico que se conseguia. 

De geração em geração, enquanto brancos enriqueciam, estudavam e se apossavam de suas heranças, negros compartilhavam a miséria repassada de pais para filhos.

Até hoje, se refletem na sociedade os reflexos da falta de políticas públicas que compensassem séculos de perdas. Conforme o Data Favela de 2022, divulgado pela Cufa (Central Única das Favelas) e o Instituto Locomotiva, 67% dos moradores que vivem em favelas no Brasil são pessoas pretas. No serviço doméstico, eles também são maioria, um total de 66,6%.

Em 2020, Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que 70% das pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza são pretas ou pardas e ganham menos que R$ 10,31 por dia. Segundo dados da Agepen (Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário), das 20,3 mil pessoas presas em penitenciárias de Mato Grosso do Sul,, 69,86% são pretas e pardas. 

Já no cenário político e de poder, o caminho é inverso. Em Mato Grosso do Sul, nunca houve um governador negro eleito. Na atual composição da Assembleia Legislativa, há apenas um entre 24 deputados. 

A reflexão sobre qual lugar o negro ocupa ainda pode ser feita individualmente: quantos professores negros você teve? Quantos estiveram na faculdade com você e quantos conheceu em cargos de chefia?

Seria isso apenas coincidência?

Nesta segunda-feira, 20 de novembro, se celebra o Dia da Consciência Negra do Brasil. Em meio a reflexões sobre o processo de desenvolvimento do nosso País, mesmo diante de fatos, o que se vê são discursos de ataques ao momento necessário, que ganha força nessa data, mas deveria ser debatido durante todo o ano. “Por que não existe o dia da consciência branca?”, questionam aqueles que não conhecem a própria história ou foram beneficiados por ela.

“Tudo o que foi conquistado veio a partir de muita luta e esse dia em especial traz reflexões importantes. Quando isso acontece, nós promovemos e contribuímos para que haja uma mudança de comportamento, feita dentro de casa e na rua”, pontua Romilda Pizani, educadora social e Presidente do Fórum Permanente das Entidades do Movimento Negro.

Segundo ela, apesar de direitos e avanços já adquiridos, um longo caminho ainda precisa ser percorrido. “Em novembro a agenda de pessoas relacionadas ao movimento negro fica cheia, mas depois se esvazia. Essas discussões não têm que ser feitas apenas em novembro ou em alguma data específica, é preciso se ampliar o diálogo”, relata.